Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

14.9.05

Número 52 - Nova fase: 004

Depois de observar algumas manchetes da semana, continuamos todos boquiabertos com a sucessão de escândalos. Aquela manchete que poderia dar um certo alívio, de nos fazer acreditar que o país agora é outro, aquela manchete que todos nós sempre quisemos ler e achávamos que jamais leríamos, a da prisão de Maluf - no momento em que escrevo já vejo pessoas se condoendo, e creio que em breve assistiremos a alguma procissão de fãs que tentarão mostrar ao país a injustiça da qual ele está sendo vítima...

Advogado diz que prisão de Paulo Maluf e filho é injustificada

O presidente da Câmara, eleito – sempre é bom frisar este fato – eleito pelo PSDB e pelo PFL, se enrola quando confrontado com as denúncias de que teria organizado um mensalinho próprio, aproveitando-se da influência de seus cargos... Por que ninguém pergunta aos líderes do PSDB e do PFL, tão ávidos de denúncias, os motivos que os levaram a eleger tão patética figura para cargo tão elevado???

Buani apresenta extrato que comprovaria propina a Severino

E o PT, tão cioso da ética, que sempre soube quem era Severino Cavalcanti, por que fica em cima do muro agora?

PT não assinará representação contra Severino Cavalcanti
PT não assina cassação de SeverinoPor recomendação do Governo, deputados do partido não vão apoiar cassação do mandato do presidente da Câmara

A pérola maior ficou com o TSE...
Caixa 2 - TSE diz que será mais severo ao aprovar contas de partidos

Isso nos leva a crer que o TSE sempre soube das maracutaias mas sempre fez vista grossa... não bastasse o mar de lama no Executivo e no Legislativo....

E a grande imprensa continua a mostrar a que veio, especialmente a Veja, que agora tem críticas até de suas congêneres...

Época levanta dúvida sobre a concorrente Veja: o documento que denuncia Severino foi comprado?

Creio que estou ficando cansado dessa crise...quatro meses e somente hoje à tarde é que teremos uma primeira (in)decisão: Roberto Jefferson será cassado? Como hoje estou preparando este boletim na parte da manhã, os comentários sobre a cassação ou absolvição de Bob ficarão para a próxima semana.
Mas não estou levando muita fé, não... Rumores que chegaram a mim neste fim de semana, de fontes fidedignas, talvez tenham esclarecido um ponto obscuro: por que o senador mineiro Eduardo Azeredo, que recebeu dinheiro do Marcos Valério e confessou isso à CPI, não foi colocado na lista enviada para a Comissão de Ética? Isso tem relação com outro fato também obscuro: por que o filho do presidente Lula e sua empresa saíram dos noticiários? É, meus amigos e minhas amigas, é exatamente o que todos estão pensando: o PT e o PSDB, que se digladiam tanto frente às câmeras de televisão, teriam feito um acordo: o senador sai da lista dos cassáveis, e o filho do Lula é deixado em paz... A ser verdade esse rumor, temos que acreditar em quem?

Não se esqueçam: para fazer comentários, críticas e sugestões, enviar colaborações, utilizem o email rimofa@terra.com.br .

Promessa é dívida: minha grande amiga e ex-aluna, Geordana, que defendeu sua dissertação na UFMG sobre a história da tuberculose, enviou-nos um resumo de seu trabalho, que está publicado ao final desta edição.


Falam os amigos e as amigas

1. Olá!! Parabéns pelo novo formato embora vindo de você não seja nenhuma surpresa o eterno aprimorar desse jornal que tanto nos enriquece. Que o diga nossa excelente convivência e grande aprendizado na graduação. Penso que não há necessidade em alterar o nome do jornal , conservemos nossa mineirice. Não sei se houve algum imprevisto ou se estou equivocada mas não recebi o boletim da semana passada. Um abraço saudoso. Neide.

Neide, obrigado pelos elogios. Quanto a receber os boletins atrasados, agora que trabalhamos com um blog, não há mais problemas. Verifique na coluna da direita, o item Arquivo. Ali estão todos os boletins (a partir do número 49), arquivados por data.

2. OLÁ como vai prof. Ricardo.
primeiramente gostaria de lhe parabenizar pela nova fase do BMH que ficou muito bom principalmente no visual.
Em segundo lugar gostaria de saber se o Sr. tem mais informações sobre o Encontro de educação de pré- vestibulares para alunos de baixa renda que foi noticiado no BMH n°51, pois sou professor de dois pré- vestibulares deste segmento.
O encontro de acordo com o que foi noticiado ocorreu no dia 05/09, mas só li o boletim hoje 08/09.
ficarei grato se o sr. pudesse me dar mais informações, sobre quem organizou, e como contacta-los.
PARABENS E MUITO OBRIGADO PELA ATENÇÃO
Marcelo Alves
Marcelo, não tenho maiores informações. Postei seu email acreditando que, se algum dos leitores tiver participado ou tiver informações, poderá nos fornecer. Aguardemos!

3. a-do-rei o boletim mineiro de historia!
Os textos do prof. emir sader são muuuuuuuuuuuuuito interessantes!! o do jornalista andré deak, divertido. De modo geral, reúne análises com focos diferenciados e,principalmente, com espírito crítico como todo pesquisador deveria ter. E vc, já vi tudo: é prá lá de respeitado na área. Boa sorte (mais ainda) com seu projeto. Fiquei freguesa e já repassei. Beijão, Márcia (de Brasília)

Márcia, obrigado! E pode repassar à vontade!!!

4. Olá RICARDO!
Estive viajando. Gostei muito do boletim, das notícias e das críticas. Senti vontade de voltar para Universidade. Parabéns. Quero ser leitora assídua. Beijos, Liliane

E por que não volta, Liliane? Nunca é tarde!!!

5. Boa noite Profº. Ricardo !

Primeiramente, venho parabenizá-lo pela nova versão do BMH, onde a qualidade e a riqueza das informações continuam bastante instigantes.
Profº. Ricardo, estou desenvolvendo um projeto de pesquisa para o mestrado sobre a Religiosidade Popular em Belo Horizonte na atualidade. Gostaria de saber se o senhor conhece algum professor de Sociologia ou Antropologia que possa me orientar nesse projeto.
Muito grato pela atenção.
Cláudio Antonio Antunes.
Cláudio, não conheço, mas recordo-me de ter um visto um trabalho recente a respeito disso, creio que era uma dissertação de mestrado na UFMG. Tente entrar no banco de teses e dissertações de lá. Se não achar nada, volte a se comunicar comigo, que tentarei localizar esse trabalho. Se alguém souber, pode mandar um email informando, que agradecemos!

Noticias


1. O II Seminário Internacional de História, XI Seminário de História do DHI e o II Fórum de Pesquisa e Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Maringá têm por objetivo apresentar, analisar e debater estudos relacionados com o espaço público. Comunicação: A inscrição se fará mediante a apresentação de um texto constando a referência ao simpósio temático, a titulação da comunicação e um resumo de no Maximo 15 linhas.
Os Simpósios temáticos serão: I Fronteiras, Populações e Bens Culturais.II História e Instituições.III Movimentos Sociais e política.Mini-cursos: Duração entre 06 e 08 h/a.
Ficha de inscrição: http://www.uem.br/ Ouvintes ou com apresentação de trabalho - R$ 50,00/ Mini-Curso - R$ 10,00banco Itaú - Agência:3928 - Conta: 000656 a favor do Segundo Seminário Internacional de História. Departamento de Historia da Universidade Estadual de MaringáAvenida Colombo, 5790 - Bloco G34 - Sala 19CEP 87020-900 - Maringá - Paraná - Brasilfone/fax (44) 3261-4328 Coordenação Geral: Silvia Helena Zanirato
O evento acontece nos dias 26 a 30 de setembro de 2005. E conta com a participação de figuras importantes na historiografia internacional, como o Professor Dr Joseph Ballart Hernández, docente da Universidade Barcelona; Prof. Dr. Lincoln Secco da USP/SP; Prof. Dr. Emílio José Luque Azcona da UPO - Sevilha/ Heriot - Watt University - Edimburgo, Escócia; Prof. Dr. Pedro Paulo Funari da UNICAMP; Prof. Dr Wagner Costa Ribeiro da USP; Profª. Drª. Ana Maria Mauad da Universidade Federal Fluminense(UFF); Profa. Dra. Maria Célia Paoli - USP; Prof. Dr. Frank D. McCann- Estados Unidos; Prof. Dr. Cândido Prunes - CIEEP-RJ entre outros.


2. 10º Seminário nacional de História da Ciência e Tecnologia:
Nos dias 17,18 e 19 de Outubro, Belo Horizonte sediará o X Simpósio Nacional de História da Ciência e Tecnologia na Fafich/Departamento de História, numa realização conjunta UFMG e a Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC), sociedade científica criada em 1983 e que realiza eventos bienalmente. A história da ciência é área de conhecimento interdisciplinar. Podem inscrever-se profissionais das diversas áreas do conhecimento, pesquisadores da história da ciência, graduandos e pós graduandos e demais interessados. Há duas novidades no próximo evento: ocorrerão mini-cursos e há uma grande expectativa pelo fato da ONU/UNESCO terem escolhido 2005 como ano internacional da física, em homenagem ao centenário da formulação da teoria da relatividade, elaborada por Albert Einstein.Maiores informações no site do semináriowww.ufmg.br/seminariodehistoria/index.htm

3. Em breve a Universidade Estadual do Ceará estará abrindo inscrições para concurso público. Dentre as diversas vagas, duas são para História Geral (Classe Adjunto).

4. Alfabetização para poucos
Duas mil pessoas participaram de pesquisa do Instituto Paulo Montenegro, que concluiu: apenas 26% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são plenamente alfabetizados. Isso significa que um quarto da população nessa faixa etária consegue ler e interpretar textos corretamente e fazer relações entre eles. O Globo (08/09)

5. Políticas de Preservação Documental: o resguardo da memória da Ciência & Tecnologia
No intuito de promover a preservação dos documentos de valor científico e tecnológico e reunir várias instituições para a troca de experiências e metodologias, o Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT, em parceria com o Arquivo do Estado de São Paulo - AESP e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, promovem o seminário Políticas de Preservação Documental: o resguardo da memória de ciência e tecnologia.
O evento contará com a presença de representantes de institutos de pesquisa, arquivos, museus e universidades. Será um fórum que, além da troca de experiências, traçará um panorama das possibilidades futuras para a área de preservação documental científica e tecnológica.
PROGRAMA PRELIMINAR:
9:30 ABERTURA: Dr. João Carlos de Souza Meirelles - Secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São PauloProf. Guilherme Ary Plonski - Diretor Superintendente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT
10:00 às 12:30 Panorama da história da ciência e tecnologia no Brasil — Prof. Shozo Motoyama (Centro de História da Ciência/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - FFLCH-USP)CNPq
– Políticas públicas para preservação documental — Prof. Manuel Domingos Neto (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq e Conselho Nacional de Arquivos - CONARQ)
- O Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade de São Paulo: uma proposta de reconversão — Prof. Raquel Glezer (Parque de C&T/FFLCH- USP)
- A preservação de objetos tridimensionais para a história da ciência e tecnologia — Prof. Alfredo Tiomno Tolmasquim (Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST/MCT)

14:00 às 17:00 - O que e porque preservar? — Profa. Johanna W. Smit (Sistema de Arquivos da USP - SAUSP/Escola de Comunicações e Artes – ECA/USP)
- Os arquivos pessoais de pesquisadores como fonte histórica — Prof. AnaMaria Camargo (Associação dos Arquivistas do Estado de São Paulo - ARQSP e FFLCH-USP)
- Patrimônio público, patrimônio histórico: a preservação de acervos documentais — Prof. Jaelson Bitran Trindade (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN)
- O papel dos arquivos no resguardo da memória — Prof. Sergio José da Silva (Arquivo do Estado de São Paulo - AESP)
Público Alvo: Pesquisadores, historiadores, bibliotecários, arquivistas, documentalistas, museólogos, alunos de graduação, pós-graduação e interessados em geral.
Data e Horário:16 de setembro de 2005 - 9:30 às 17:00
Local: Instituto de Pesquisas Tecnológicas Auditório Cid Vinio Av. Prof. Almeida Prado, 532 prédio 36 Cidade Universitária – SP - Inscrições gratuitas: Tel. (11) 3767-4125, com Cristiane ou Michelle http://br.f602.mail.yahoo.com/ym/Compose?To=memoria@ipt.br&YY=52875&order=down&sort=date&pos=0
(enviado por Jaziel Junior)

Brasil

A cada notícia sobre a crise e seus desdobramentos, recordo-me da música: “que país é este”? Creio que ainda não sabemos, a despeito de tantos intérpretes do porte de Gilberto Freyre, Caio Prado, Sérgio Buarque... e tantos outros...
Vejam a notícia da Istoé desta semana:

Tentáculo público
Investigações do MP mostram que dinheiro de Prefeitura de BH abasteceu contas de Duda Mendonça no Exterior
Amaury Ribeiro Jr. (Revista Istoé desta semana)
Um sofisticado equipamento de vídeo, no valor de R$ 14,7 milhões, iria filmar as cenas de violência no centro de Belo Horizonte. Elas ainda não mostraram nenhum delito, mas podem ser o flagrante de uma operação financeira que junta Marcos Valério, a prefeitura petista de Belo Horizonte e o caixa 2 nacional do PT, que pagou Duda Mendonça. Documentos obtidos pela Promotoria Especializada de Defesa do Patrimônio Público de Minas Gerais indicam que parte dos cerca de R$ 12 milhões pagos por Marcos Valério a Duda, no Exterior, teve como origem um convênio, no valor de R$ 14 milhões, assinado sem licitação entre a prefeitura e o Clube dos Diretores Lojistas de Belo Horizonte (CDL).
O convênio, que previa a compra e a instalação de cerca de 300 câmeras para filmar a violência no centro de BH, foi assinado no dia 14 de janeiro de 2004 pelo prefeito Fernando Pimentel e pelo diretor financeiro do CDL-BH, Glauco Diniz Duarte, dono da GD International Corp., uma das empresas que pagaram Duda, conforme revelou ISTOÉ na edição 1872.
As transferências de recursos da conta da GD International no banco BAC Flórida para a conta Dusseldorf de Duda, no Bank Boston de Bahamas, coincidem com os períodos dos pagamentos da prefeitura ao CDL. Vale lembrar que o marqueteiro do presidente Lula também trabalhou para a campanha de Pimentel. Para o Ministério Público, esses fatos reforçam as suspeitas de que o tal contrato entre a prefeitura e o CDL só serviu para justificar o pagamento de dívidas de campanha.
Recolhido pelos promotores de Minas em várias repartições públicas, um arsenal de documentos mostra que, além de corrupção, o contrato resultou em outros crimes ainda mais cabeludos: estelionato, contrabando, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, crime contra o sistema financeiro e formação de quadrilha. Devido à ação do MP, a prefeitura acabou repassando ao CDL apenas R$ 4,7 milhões referentes à compra de cerca de 72 filmadoras.
As suspeitas da fraude na compra estão documentadas. Relatório da Secretaria da Fazenda de São Paulo afirma, por exemplo, que a M.F Comercial Distribuidora de Produtos de Informática Ltda. – empresa paulista que emitiu as notas ao CDL que justificaram o repasse do dinheiro da prefeitura – é fantasma. O endereço e os sócios não existem. “Constatamos que o IPTU entregue para a abertura da empresa é de outro endereço, e parece que foi feita uma montagem para forjar esse documento. Não existe contador e tampouco endereço dos sócios”, diz o documento.
As investigações do MP apontaram que o estelionato serviu para encobrir outro crime: o contrabando das 20 filmadoras entregues pelo CDL à prefeitura, trazidas irregularmente da Califórnia (EUA). Os promotores estimam que houve um superfaturamento de cerca de R$ 2 milhões na compra desse equipamento. Esse valor corresponde justamente à quantia enviada pela GD, empresa de Glauco, a Duda no Exterior. “Não temos nenhuma dúvida de que o dinheiro pago pela GD a Duda veio dos cofres públicos”, disse um dos promotores envolvidos nas investigações. O presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Eletrônica do Estado de Minas Gerais, Sérgio Americanos Mendes, estimou um superfaturamento ainda maior na venda dos equipamentos. “Fiz um orçamento com uma empresa do Texas, que apontou que, incluindo as taxas de importação, dava para comprar todo o material por R$ 518 mil”, disse Mendes em depoimento aos promotores. Além do convênio denominado “Olho Vivo”, o empresário Glauco recebeu gratuitamente arquivos sigilosos e espaços publicitários da prefeitura.

Um divertido (eu disse divertido??? Até que poderia ser, se não fosse trágico) desabafo de alguém que não se conforma em ver a parcialidade com que as notícias da crise são expostas ao país:

2. Peralá, pois agora eu vou falar (da Revista NovaE)
Alguém neste país precisa dizer umas coisas ao torto e à esquerda.
Por Miguel do Rosário
Recentemente, a mídia caiu de pau em cima do Lula, entrevistando historiadores de baixo calibre, pelo fato dele ter se comparado a Vargas, a Jango, e a JK; políticos que viveram crises políticas terríveis em seus respectivos mandatos. Repetiu-se, à larga, que era um absurdo Lula comparar-se a esses "grandes". Peralá. Ninguém nega a importância desses três para a história nacional, mas Vargas foi um ditador que por pouco não se aliou à Alemanha nazista e prendeu, torturou e matou milhares de militantes políticos, inclusive o doce e sereno Graciliano Ramos.
Peralá. JK vendeu o país às petrolíferas estadunidenses, ao desmantelar todo o sistema ferroviário nacional, fator até hoje considerados um dos maiores desastres históricos do país: nos amarrou a um modelo absurdo de infra-estrutura para um país continental como o Brasil. Lula, quando assumiu, prometeu construir ferrovias, mas percebeu que fazer trem e linhas férreas, começando quase do zero, requeria investimentos enormes inalcançáveis no momento ao Brasil. Eu também sempre achei que construir trem era relativamente barato e fácil, mas fiz umas pesquisas e constatei que, de fato, cada metro de linha férrea custa milhares de dólares. Por isso, será a China quem vai bancar o nosso trem, a partir de 2006 ou 2007, através das PPPs.
Outra do JK: foi ele que deu início à nova fase de endividamento externo do país. Brasília foi uma beleza, disso ninguém duvida. Mas na época ele era amaldiçoado pelas esquerdas por torrar todo o Tesouro Nacional ali, e ainda pedir emprestado lá fora, deixando o resto do país à míngua.
Peralá. Jango também foi importante, quis fazer as reformas e tal, mas todo mundo sabe que ele era muito mais de falar do que fazer. Mesmo o Darcy Ribeiro e Paulo Freire ficaram amarrados, sem conseguir deslanchar seus projetos. Além disso, foi bobo, irresponsável, não soube enxergar o golpe que se tramava debaixo de seu nariz, e que iria lançar o país nas trevas por 20 anos. A única coisa que Jango fez de "grandioso" foi casar com a filha de um latifundiário.
Outra coisa, nunca votei no PT por causa de ética que o partido propalava. Votei porque sabia que o Serra ia implantar a Alca, privatizar a Petrobrás a preço de banana (assim como fizeram com nossa saudosa Vale do Rio Doce); o mesmo Serra que hoje privatiza o uniforme escolar das crianças paulistanas. Sempre soube que o PT não era partido de santo; não existem santos em partidos; e já alertava para o fato de que, subindo ao poder, o deslumbre era inevitável.

Reuniãozinhas e panfletinhos

Com o PSDB no poder, nunca teríamos a oportunidade de vivenciarmos essa crise de agora, nunca teríamos acesso aos bastidores sombrios do poder, nunca o processo eleitoral seria questionado. Essa crise é importante, porque toca no nervo principal da democracia: a eleição. Sim, porque é preciso ganhar a eleição, porra! Agora, que apareceu esse lado podre da eleição, tem gente achando que o PT se vendeu por um "projeto de poder". Ora, se não é para atingir o poder, para que serve a merda de um partido? Para fazer reuniãozinha na sexta-feira no Buraco do Lume, ouvindo o Chico Alencar protestar contra as privatizações? Para distribuir panfletinhos na Estação da Luz com barriga vazia e sovaco fedorento? Critica-se a estratégica "eleitoreira" do PT, e cai-se no mesmo erro: qual o sentido de um partido senão o de ganhar eleições para representar o povo que o elegeu? Parte da esquerda mostra uma grande nostalgia do tempo em que era apenas festiva, e ser do PT significava dançar e fumar um baseado em festinhas do Jardim Botânico, ou Vila Madalena, ou seja lá onde for. Agora, que ser do PT é assumir responsabilidades, sofrer ataques diários da imprensa, tomar decisões graves e, naturalmente, também errar, agora que chegou o tempo "dos fortes", como bem disse Tarso Genro, eles não querem mais ser do PT, e saem correndo com o rabo entre as pernas; tornam-se "petistas arrependidos"; e praguejam contra o PT por todos os brochinhos que comprou. Vão até para o PDT, como recentemente o professor Buarque. Sim, é o momento dos fortes.
É risível a comparação da Veja e do Globo de Lula com Collor, esquecendo que foram eles os maiores apoiadores da quadrilha de PC Farias. O Marcos Valério fez escola dentro do PSDB, arrecadando dinheiro para o Eduardo Azeredo na campanha de Minas Gerais, está provado e assumido pelo próprio Azeredo, em uma cena patética na TV. Valério era sócio dum figurão do PFL, também está provado, documentado e assumido. Os contratos de Valério com o governo federal têm quase 20 anos, tendo se ampliado muito no governo FHC. Continuou crescendo com Lula, até que estourou a crise. Ou seja, essa mamata de 20 anos vai finalmente terminar. Quando? No governo Lula, cujos órgãos de investigação vinham farejando os rastros de Jefferson até que, este, percebendo o fim próximo e aproveitando-se da grande mancada de Lula (falar que dava um cheque em branco pra ele), resolveu partir pro ataque. Jefferson está desmoralizado. Descobriram que a corrupção que havia nos Correios era mesmo para o PTB. O erro principal de Lula e do PT foi achar que ainda corria um pouco de sangue político no PTB, e não apenas sangue verde de cobra viciada em dinheiro.
Sobre os críticos da esquerda que atacam Lula agora são os mesmos que sempre o atacaram. Só deixaram de atacá-lo na época de eleição, em que havia um irresistível clamor popular pela eleição de Lula, e depois em 2004 e início de 2005, quando o crescimento econômico e a geração de emprego foi um tremendo cala-boca.

Bornhausen e PSTU

Merval Pereira, o sofista-mor de O Globo, só fala em impeachment. Agora, encontrou uma tal de professora norte-americana que fala de impeachment na América Latina, e fica transcrevendo trechos do livro dela. A tentativa de produzir manifestação popular contra Lula é patética. No jogo do Brasil, havia lá uma família, com três ou quatro crianças segurando as letras "Fora Lula" e foi capa de todos os jornais; caricatural. No 7 de setembro, falou-se Lula foi vaiado: e mostra a cena na qual, curiosamente, não se escuta vaia nenhuma. Apurei o ouvido e nada: talvez um uuuuh baixinho lá no fundo, provavelmente de algum furioso do PSTU; militantes que não sabem fazer outra coisa a não ser ficarem furiosos, cuspindo quando debatem, cada vez mais parecidos com o Jorge Bornhausen. Ora, tenham dó, o "fora todos" dessa turma é de um primitivismo político digno de comédia de Miguel Falabella.
Não é só no Rio, o UOL, da elite paulistana, mantém em seus quadros uma "cientista" chamada Lucia Hipollito, primor de manipulação e desrespeito ao pensamento esclarecido. Está presa a uma casa mental em que cisma que o Lula é o "pior dos mundos" e o "mercado" é tudo de bom. Para quem não sabe, "casa mental" é um estado psíquico, onde o paciente nega-se a enxergar fora de determinada realidade, que só ele cria. No caso de dona Lúcia, ela enxerga coisas tão absurdas que não é necessário, para o leitor da Novae, nem comentários. A casa mental da dona Lúcia está ajoelhada nos interesses sórdidos do UOL, e sua família, que não se conformam com a vitória de um operário do ABC, contra a "intelligentia" do jardim Europa. Uma das mais recentes da Dona Lúcia: "Acho que o presidente Lula encontrou em Severino quase uma alma gêmea. Lula está muito isolado, afastado... Severino e ele têm a mesma origem, são pessoas simples, que se entendem." (sic). Faça-me o favor, Dona Lúcia. Comparar Lula e sua história com Severino "mensalinho", cria do PSDB, é caso de processo. É chamar a todos nós de idiotas.
Falam que o governo Lula não tem projeto: ora, não tem porque eles não querem, porque não querem ver nada. Queriam Lula no alto de um palanque praguejando contra os Estados Unidos, como Chávez? Isso seria projeto? Ora, a Venezuela só tem petróleo e o Tio Sam é obrigado a engolir o Chávez porque precisa do petróleo deles, ainda mais nesse momento, em que brinca de guerra no Oriente Médio. O Brasil vende os mais diversos produtos para mais de cem países, o que o obriga a seguir um certo padrão internacional, em termos macro-econômicos(leia-se política fiscal austera), ou melhor, faz com que seja mais interessante para nós agirmos assim do que não. Ah, sim, se Lula decidisse prosseguir o desmonte do Estado iniciado por FHC, isso seria "projeto de governo'.
E o software livre, não é projeto? Aliás, sobre isso, com alívio leio notícia na Agência Brasil que a Ministra Dilma Roussef enquadrou o Hélio Costa, que andou fazendo algumas declarações que causaram temor na comunidade do software livre. Os funcionários responsáveis já declararam que o software livre continua sendo uma prioridade do governo. Oxalá continue assim. Pressionemos. Vigiemos.
A campanha pelo desarmamento, tão criticada pela direita, não é projeto? O Estatuto do Idoso, não é projeto? O aumento real do salário mínimo, não é projeto? A parceria com a China, Ìndia e países da África e oriente médio, não é projeto? A integração latino-americana, não é projeto?
E o apoio à agricultura familiar, não é projeto? Isso sim é reforma agrária: dar financiamento aos pequenos produtores, comprar a produção deles, garantir o preço mínimo, coisa que os grandes sempre tiveram, e que somente agora, depois de 500 anos, está chegando aos pequenos agricultores, os quais respondem por 70% da produção de alimentos no país. Só isso, se o governo Lula não tivesse feito mais nada, já valia o seu governo.

Se é bom, não é Lula

Afinal, que porra de PROJETO de governo que tanto cobram? Ah, já sei, queriam que o Lula lançasse um decreto assim: "a partir de hoje todos os brasileiros terão direito a um salário três vezes superior ao que ganham hoje; ninguém mais ficará doente ou deprimido; os bares serão desapropriados pelo governo e a cerveja será gratuita; os hospitais públicos serão reformados em 48 horas. Prefeituras e estados não precisam mais fazer nada, podem roubar à vontade, o governo federal se encarregará de tudo. Os impostos para classe média e empresários serão zerados. Os bancos serão atacados pelo governo, quebrarão, afinal ninguém suporta mais saber que os bancos têm lucros recordes. Então, falência neles! O governo, através do Tesouro Nacional, restituirá cada centavo depositado a cada cidadão, mais mil reais de brinde". Todo mundo ia ficar feliz, ainda mais depois que for aprovada a legalização e distribuição gratuita de maconha. Todos em casa, sem trabalhar, fumando um e vendo o William Bonner anunciar essas notícias maravilhosas.
Chega o Jô Soares e suas peruas da quarta-feira e elogiam o trabalho do Ministro da Justiça e do Pallocci, como se eles não fizessem parte do governo Lula. É assim: tudo que é bom, para eles, não faz parte do governo Lula.
O triste é que, desde 2003, após a posse de Lula, colocaram a pecha de neo-liberal no Pallocci e na política econômica, como forma de desconstruir Lula junto à esquerda. Quase conseguiram. E agora, com a crise, colhem os louros da estratégia. Os mesmos que criticaram a política econômica em 2003 mas calaram a boca em 2004 e início de 2005, com a retomada vigorosa do crescimento e do emprego, voltam agora a atacar a política econômica.
O PSTU chega ao cúmulo de continuar gritando "Fora FMI", mais de um ano depois que o governo Lula RASGAR (com toda elegância) o contrato com o FMI. Continua o superávit primário e os juros altos, tudo bem, também sou contra. Todo mundo é contra juro alto: até o Lula e o José de Alencar são contra. Mais dia menos dia, aqueles "retardadados" do Banco Central (conforme expressão de Maria da Conceiçao Tavares) vão tomar vergonha na cara e baixar os juros. Sobre o superávit, o culpado não é o Lula, o culpado é o FHC, que decuplicou a dívida interna, entregando pro Lula um abacaxi que está chegando a 1 trilhão de reais. C'est la vie, mon amie. Os caras tão fazendo o possível: reduziram a dívida externa a um mínimo; voltaram a captar emitir títulos públicos no exterior, a juros menores e prazos longos, de forma que o governo está conseguindo, pela primeira vez, financiamentos não-extorsivos lá fora. A tendência é aumentar, essa seria uma das lógicas para manter o superávit: ter credibilidade para pegar dinheiro lá fora.

O que é isso, companheiro?

Falta falar do Gabeira, que virou papagaio de madame, xodó do Jô e da Hebe Camargo, ídolo das lourinhas turbinadas da Mackenzie de São Paulo. Aqui no Rio, apoiou o César Maia, da ala mais reacionária do PFL, que só pensa em espancar camelô, escrever em seu blog contra o governo federal e sonhar com a presidência e o momento glorioso de transformar o Brasil num bordel luxuoso de um Estados Unidos decadente. Se pelo menos tivesse uma política voltada para o turismo, mas o pior é que nem isso... Bornhausen fala que o Lula não gosta de trabalhar, mas quem não gosta é o César Maia.
Tem outras coisas ainda que não entendo: por que a missão brasileira no Haiti é tão criticada? Trata-se de uma missão da ONU, votada por toda a comunidade internacional, com o objetivo de evitar uma guerra civil no país. Quem viu o filme Hotel Ruanda ou acompanhou as guerras civis na África sabe como é terrível uma guerra civil. Foi muito importante o Brasil chefiar a missão, quebrando a tradição de ser sempre os Estados Unidos a liderarem intervenção militar na América Central. O exército brasileiro sabe respeitar o povo haitiano e foi crucial durante as inundações que o país sofreu, ajudando a manter a ordem e a distribuir os alimentos. Não importa que o presidente tenha sido deposto por segmentos aliados ou não aos EUA, o que interessa é que o país precisava de apoio internacional para manter a ordem social, evitando o risco de genocídios. Sem contar que o Brasil é o maior defensor de que a comunidade internacional ponha dinheiro no Haiti para fomentar o desenvolvimento econômico do país. Lula em pessoa, em conferência internacional, pediu dinheiro para o Haiti.
Voltam até a falar no gasto com o Aerolula. Aí é demais. A própria Força Aérea já divulgou que a compra do Aerolula representou na verdade uma economia, pois aquela lata velha de antes gastava tanta gasolina que, em alguns anos, consumiria o equivalente ao preço de um avião novo. Além do mais, era uma lata velha perigosa: queriam ver uma comitiva de presidente, parlamentares, jornalistas, diplomatas, caindo no Atlântico? Seria uma ótima notícia para a imagem internacional do Brasil, sobretudo se considerarmos que somos um dos maiores exportadores mundiais de aviões... É muita mesquinhez.
A hora é de apoiar Lula e colaborar com a reconstrução do PT, único partido com força política suficiente para fazer frente ao PSDB e PFL. Depois que o PSTU conseguir eleger pelo menos um vereador em algum lugar do país, obtendo assim um mínimo de reconhecimento político e respaldo popular, pode querer apitar em alguma coisa. Sobre revolução, acho que, diante da atual conjuntura brasileira, a única revolução que presta é ler um bom livro, apoiar o software livre e agricultura familiar, produzir (e anunciar em) sites como a http://www.novae.inf.br/ e ter dez reais no bolso para tomar uma cerveja e comer um PF.
O Brasil precisa de boas escolas públicas e melhores hospitais, isso sim, coisa que o PSDB de São Paulo, Geraldo Alckmin, está longe de fazer. O resto é totalitarismo já tentado e fracassado. Votarei em Lula novamente em 2006 e espero que os projetos importantes de educação e saúde sejam finalmente implantados em seu segundo governo; se não forem, ai sim ingressarei na oposição e vamos procurar um cara melhor para 2010. Agora, não sou eu que vou entregar o ouro para ACM Neto ser o novo ministro do Planejamento e o Bornhausen, ministro da Saúde, coisa que, pelo jeito, a extrema-esquerda quer com todas as suas forças, visando produzir uma saudável (a seu ver) turbulência social, que é o mais próximo de um ambiente revolucionário que a extrema esquerda tem condições de provocar. Turbulência essa que, naturalmente, seria feita às custas da fome do povo, que não é funcionário público e não pode filar uma bóia na casa da mãe (até porque é ele quem sustenta a mãe).
Do outro lado do espelho, os espectros direitistas dessa extrema-esquerda são o movimento "Basta" entre outros, liderados pelas distintas madames dos bairros nobres. São os sucedâneos da obsoleta TFP, que já estão botando suas asinhas de fora... como fizeram tão bem naquele fatídico abril de 64, quando as boas famílias do Rio e São Paulo fizeram passeatas contra Jango e a favor do golpe militar. Não se esqueçam que um dos lemas do golpe era "acabar com a corrupção".
Miguel do Rosário é escritor, colunista da Novae, editor de Arte & Política. Escreve para o blog: hellbar.blogspot.com. Miguel do Rosário lançou em março de 2005 o livro Contos para ler no Botequim, disponível no site do escritor.

3. Manchete que sempre sonhamos

Paulo Maluf e o filho Flávio estão presos na Polícia Federal em São Paulo
Brasília - O ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf e o filho dele, Flávio, foram presos hoje pela Polícia Federal (PF) acusados dos crimes de corrupção passiva, contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Flávio se entregou agora de manhã. Maluf chegou à sede da PF no início da madrugada. Na última quinta-feira (8), o Ministério Público Federal havia encaminhado à Justiça Federal de São Paulo denúncia contra o ex-prefeito. Na acusação, o procurador Pedro Barbosa endossou o pedido de prisão preventiva de Maluf por tentar dificultar as investigações.Outras duas pessoas são citadas na denúncia do Ministério Público: o doleiro Vivaldo Alves, o Birigui, e o ex-diretor da Construtora Mendes Júnior, Simeão Damasceno de Oliveira. Eles são acusados dos mesmos crimes que o ex-prefeito. Segundo a assessoria de imprensa da Procuradoria da República do Estado de São Paulo, Birigui teria enviado dinheiro da família Maluf ao exterior.Já Simeão é acusado de divisão de propina.O Ministério Público Federal pediu à Justiça que conceda o benefício de delação premiada (redução de pena) a Birigui e Damasceno por estarem (os dois) colaborando para as investigações com depoimentos e provas.

A crise serve para muita coisa, especialmente para que notícias realmente importantes fiquem escondidas ou pouco comentadas. É o que nos mostra Mário Sérgio Conti, a respeito da divulgação do índice do IDH mundial, no qual o Brasil continua ocupando uma péssima colocação...

4. Desigualdade: o país dos 10% (Mário Sérgio Conti – No Mínimo – Ibest)

A crise política tem drama e humor. A queda de Severino Cavalcanti, a possibilidade de Paulo Maluf ser preso, os deputados que renunciam a seus mandatos com a rapidez de ratos que escapam de um naufrágio, os discursos do presidente – tudo isso é engraçado e, para alguns observadores, promissor. O Brasil sairia da crise, argumenta-se, renovado, melhor.O relatório da ONU com o Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, divulgado na semana passada, ficou apenas um dia nos jornais. É ele, no entanto, e não a crise, que mostra o que o Brasil é, quem somos.Mostra, fundamentalmente, que é impossível usar a expressão “quem somos”.O que aparece no IDH é um país cindido. Grosso modo, ele se divide entre os que têm tudo e os que não têm nada: os 10% de brasileiros mais ricos ficam com nada menos de 47% da renda nacional. O dado é impressionante. Ele ajuda a entender algumas coisas.
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Com ele se entende por que a desigualdade social não é considerada o problema maior do país: são os 10% mais ricos que estabelecem – no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, nos partidos políticos, nas instituições religiosas, na imprensa, na academia, nas universidades – a hierarquia dos problemas nacionais. Como eles são beneficiários da desigualdade, não lhes convém chamar a atenção para o assunto.Entende-se o motivo, recorrente, da discussão sobre a economia brasileira se dar exclusivamente em torno do crescimento. Mesmo os críticos do “pensamento único” dizem que o país melhoraria se o crescimento fosse acelerado, via redução da taxa de juros. Os críticos mais acerbos do modelo em vigor, que se mantém desde o governo Sarney, defendem o calote da dívida externa. Com o crescimento da economia, contudo, os ganhadores seriam justamente os 10% de brasileiros mais ricos. Aos outros, sobrariam as migalhas. Quem melhor defendeu essa política foi o então ministro da Economia Delfim Netto, há trinta anos. Ele usou uma metáfora precisa: é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo. Em toda a história do Brasil, nunca chegou a hora da divisão. Agora, se perdeu até mesmo a perspectiva de dividi-lo.Entende-se porque, numa outra estatística divulgada na semana que passou, 75% dos brasileiros são analfabetos funcionais: pessoas com dificuldades para ler. Aos 10% de privilegiados, interessa manter a massa na ignorância. A eles só resta o lixo televisivo.Entende-se porque, de Gilberto Freyre ao Tropicalismo, se comemore a sensualidade, o colorido, a alegria, a cordialidade, o talento nacional para o carnaval, o futebol e o samba. O que os 10% comemoram, no final da contas, é o conformismo, a ausência de revolta, a passividade dos que sofrem com a desigualdade social.Entende-se o culto da mobilidade social. Jogadores de futebol, manequins, cantores sertanejos e até o atual presidente da República (quando foi eleito) foram cantados em prosa e verso como exemplos das infinitas possibilidades do brasileiro. Basta trabalhar e ter talento, diz a cantilena, para que os indivíduos galguem degraus na pirâmide social. Os números do IDH provam que muros de ferro separam os 10% dos resto. Na Europa, dizem os porta-vozes dos ricos, essa mobilidade não existe. Mas claro que não: há lá sociedades mais homogêneas e igualitárias.Entende-se porque o banditismo e a criminalidade se espalham como pólvora. Quem não tem nada, não tem nada a perder – inclusive a liberdade e a vida.Entende-se porque, a rigor, o Brasil não é uma nação. Dez por cento dos brasileiros proprietários tem acesso à cidadania. Os outros, em graus crescentes, não têm direito a moradia, saúde, educação.
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A crise, o escândalo, é a desigualdade, e não a corrupção.Tangencialmente, porém, a crise política tem a ver com a desigualdade. O fracasso e o esfacelamento do Partido dos Trabalhadores foram o dobre de finados da possibilidade de enfrentar a desigualdade social. Um partido autônomo, nascido de baixo para cima, independente dos 10%, poderia ter enfrentado os privilegiados, liderado a construção de uma sociedade, senão igualitária, ao menos integrada.Essa oportunidade histórica se perdeu. Agora, o panorama que se abre à frente é ainda mais sombrio. Não há soluções à vista. Mas para que elas, as soluções, apareçam, convém saber qual é o problema. E o problema é a concentração de renda.
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O Brasil não está sozinho. O Brasil sintetiza o mundo. Eis o que escreveram Antonio Góis e Luciana Constantino, na “Folha de S. Paulo”, sobre o relatório do IDH:“As 500 pessoas mais ricas do mundo têm renda total superior ao conjunto de 416 milhões de habitantes mais pobres do planeta. Isso equivale dizer que cada um desses 500 bilionários concentra em suas mãos uma renda igual à concentrada por 820 mil miseráveis.”A relação é causal: há 500 bilionários no mundo porque existem 416 milhões de miseráveis. Para cada rico há 820 mil pobres. Este é o nosso mundo.

Severino... de novo...mas com mais algumas revelações interessantes...e que a grande mídia, é claro, não fala nada a respeito....

5. A ira dos do excluídos (da Revista NovaE)
Ao procurar o PT para negociar a sucessão de Severino, alguns opositores revelam o um temor: o de que Severino revele o que sabe. No governo FHC, era ele o responsável por falar com seus companheiros do baixo clero, com a liberdade de quem conhece a linguagem e as reivindicações desse interlocutor.
Tudo indica que Severino Cavalcanti seja realmente corrupto, mas subempreiteiro da corrupção. Corresponde, no Parlamento, a tipos como Waldomiro Diniz e Maurício Marinho, operadores na ala executiva do poder. Não tendo acesso aos grandes negócios nacionais, como a eles tiveram acesso personalidades destacadas do governo passado, Severino trabalhava no rés do chão, a ponto de exigir participação fixa nos restaurantes da Câmara. Isso, bem se entenda, se provado for.
Vindo de João Alfredo, em Pernambuco, tendo feito, como tantos de seus conterrâneos pobres, a aventura paulista, Severino retornou à sua cidade, a fim de se dedicar à política. Eleito deputado federal, surpreendeu pela rápida liderança que assumiu entre os marginalizados da Câmara dos Deputados. Como em todos os parlamentos do mundo (o Brasil nunca foi exceção) há os que contribuem com suas idéias e os que só podem contribuir com o voto.
Severino se encontra entre os que votam. Já que devem votar, e não dispõem normalmente de idéias, os membros do baixo clero tratam de obter o máximo pela sua possibilidade de decidir na construção de maiorias. Quase sempre, procuram encaminhar recursos para obras visíveis em sua região eleitoral, e de vez em quando tratam de arrecadar dinheiro vivo.
A grande utilidade de Severino, no governo Fernando Henrique, era a de falar com os seus companheiros do baixo clero com a liberdade de quem conhece a linguagem e as reivindicações do interlocutor. Pôde, assim, agir como habilíssimo operador do Sr. Sérgio Motta, na aquisição de votos para as emendas de interesse do presidente, entre elas, a principal, da reeleição.
É nesses fazeres e saberes do parlamentar que se encontra o grande temor dos tucanos. Severino nada tem a perder, porque já terá perdido tudo, ao ter, como se espera, o mandato cassado, passo necessário à sua defenestração do cargo de presidente da Câmara. Está, portanto, disposto a contar tudo o que sabe, e o que sabe não é pouco: é muito.
Por isso, nas últimas horas, alguns oposicionistas tentam, ao negociar com o PT a sucessão de Severino, armar um esquema para desmoralizar todas as informações novas sobre os escândalos que o pernambucano trouxer. É previsível que Severino fale de todos e contra todos, no momento em que até o seu protegido político, o Sr. Ciro Nogueira, lhe admite a degola. Já há mesmo quem, no propósito de invalidar suas prováveis denúncias, identifiquem, no discurso tatibitate do presidente da Câmara, sinais de perturbação mental, eventuais em sua idade.
Por mais rápido e sumário venha a ser o processo de seu afastamento, há prazos regimentais rígidos, e isso fará da próxima semana uma estação de novas angústias. Agosto, como se vê, não acabou no último dia 31: montou-se na garupa de setembro e vem dirigindo os fados.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

E, de novo, a Veja, revista que já foi, em seus primórdios, um símbolo de independência, agora se colocando de forma escancarada, a favor de golpes. E eu que pensava que o Carlos Lacerda não tinha feito escola...

6. Veja escorregou de novo. Agora com Severino
Alberto Dines (do Observatório da Imprensa – trecho)
Veja está revelando a inspiração lacerdista de suas ações e reações. Carlos Lacerda foi um brilhante jornalista, mas como tribuno e político foi o nosso protocarbonário – extremado, radical, ensandecido. Por isso intolerante, injusto, perverso. Foi nosso primeiro xiita em matéria política. Em troca, ganhou a solidão.
A equipe que dirige Veja tem o direito de pretender reeditar este paroxismo jornalístico. Mas falta-lhe o talento. A maneira tosca que escolheu para responder às ponderações de Luiz Weis revela que, embora mirando em Carlos Lacerda, está, na realidade, imitando seu escudeiro Amaral Neto (que alguns chamavam de Amoral Nato).
Na vã tentativa de responder aos reparos deste Observador sobre a histeria com que apresentam as suas "denúncias" (principalmente na matéria de capa que provocou a coletiva do ministro Palocci), os anônimos escribas de Veja disseram o seguinte:

"A revelação de Veja provocou a ira dos provectos observadores da imprensa que entoaram seu lamento de analistas oficiais do regime." (edição 1921, de 7/9/2005, pág. 68).

Atrapalharam-se no vernáculo, coisa inimaginável num texto de Carlos Lacerda. Como mostrou Mauro Malin, neste Observatório, "provecto" é elogio.
Analista oficial é a própria Veja, que logo na frase seguinte enfiou o rabo entre as pernas e saiu ganindo uma descarada bajulação ao mesmo ministro Palocci que na semana anterior pretendia derrubar:

"O ministro simplesmente cumpriu com o seu papel e, em entrevista coletiva, com o carisma e a inteligência verbal de sempre, refutou os pontos principais da reportagem" etc., etc., etc.

Esta foi uma das maiores exibições impressas de puxa-saquismo e sabujice desde que começou a presente crise política. Panfletários de araque, sem pedigree, costumam acabrunhar-se deste jeito – acontece.


Internacional

A tragédia provocada pelo furacão Katrina continua a repercutir no mundo inteiro. A análise a seguir é interessante, porque tenta demonstrar que a destruição não teria sido provocada por incompetência ou descuido das autoridades, mas, na realidade, deve ser entendida como um efeito lógico da aplicação das medidas neoliberais. Vale a pena conferir.

1. A indústria da tragédia
Por Luciano Alzaga (Revista NovaE).
Cochilo de Bush ou uma volta a mais no torniquete do neoliberalismo?

À medida que passam os dias, aumenta a incompreensão, dentro e fora dos Estados Unidos, diante dos efeitos do furacão Katrina. Como é possível que o país mais poderoso do planeta tenha respondido tão lenta e precariamente frente a um fenômeno natural? Por que somente quatro dias depois é que começaram a tomar algumas tímidas medidas de socorro?
De uma vez por todas, por que o império mais forte de que se tem notícia, que não permite que seus soldados sejam sequer julgados em outros países, permitiu que desmorone de forma tão lamentável sua imagem imperial? Foi desprezada aquela cultura, construída pacientemente durante anos, que nos ensinava que na “America” (sem acento) não acontecem tais coisas. Essas imagens de negros pobres, mal vestidos, arrastando seus escassos pertences com a água na cintura e com cara de desesperança, parecem provir do Haiti, ou da África, nunca da “America”.
Somente quando as previsões de que o furacão "Katrina" entraria no território norte-americano pela costa sul com ventos arrasadores não deixavam mais nenhuma margem de dúvida, foi que o presidente Bush, sem interromper suas férias, fez um comunicado. Foram dois conselhos básicos: fugir das zonas de risco e, sobretudo, rezar.
Nos dias imediatamente anteriores à passagem do furacão, Governo e meios de comunicação recomendavam (!?) que, para evitar suas perigosas conseqüências, a população deveria evacuar Nova Orleans. Em novos discursos, Bush seguia a mesma linha: tinha certeza de que a brava gente do sul, com seu esforço, superaria as dificuldades e reconstruiria suas propriedades perdidas, e que juntos "fariam uma América ainda mais forte".
Suas primeiras decisões práticas demoraram preciosos dias. O Departamento de Defesa se dispôs a autorizar o envio de quatro navios com provisões, um navio-hospital e helicópteros. Quatro navios para uma população desabrigada de mais de um milhão de pessoas! Confirmam-se informações sobre ajuda a conta-gotas. Mas, sem hesitação, acionam vinte mil homens da Guarda Nacional, não para os resgates imprescindíveis, mas para o controle da zona e a proteção da propriedade privada.

Incapacidade administrativa?

Muitos analistas opinam que o problema se deve à incapacidade da Administração Bush, e aos volumosos recursos empregados nas guerras, pouco sobrando para o socorro das vítimas. Outros se perguntam como é possível que Cuba, com uma população trinta vezes menor, com economia e disponibilidade de recursos centenas de vezes menor, seja capaz de proteger seus habitantes de maneira efetiva. Confrontada com a ameaça de furacão, Cuba não “aconselha”, atua.
Eu também me pergunto, e começo a fazer associações com o que ocorreu na década de 80, nos primórdios do neoliberalismo. Todo o imaginário que havia sido construído a partir da crise dos anos 30, que implicava na keynesiana intervenção estatal para guarnecer os desprotegidos (e ao mesmo tempo dinamizar a economia), foi varrida em poucos anos, com a colaboração passiva dos países do leste europeu, e ativa dos grandes meios de comunicação. Impôs-se a idéia generalizada de que o Estado de bem-estar já não era necessário, e que não havia porque pagar impostos “para sustentar quem não quer trabalhar”. Por conseguinte, uma camada, maior ou menor de acordo com cada país, ficava fora do sistema, jogada à sua própria sorte.
Decisão política
Creio que se deve discutir a possibilidade de que o poder financeiro-industrial norte-americano, e seu porta-voz Bush, tenham aproveitado essa catástrofe natural para atarraxar ainda mais o parafuso do neoliberalismo, de modo similar como fizeram após os atentados nas Torres Gêmeas.
Cada vez fica mais evidente que tomaram a decisão política de não ajudar a população com o objetivo de estabelecer um ingrediente adicional do ideário neoliberal: o de que o Estado não tem por função socorrer atingidos por desastres naturais. Como disse o presidente Coolidge nos anos 20, quando visitava desabrigados por uma inundação: "Não é uma vergonha o que fez o rio com a terra desses pobres diabos?". A proposta dos think tanks seria: de volta à nação de pioneiros, em que cada um cuidava de sua vida e o Estado restringindo-se a proteger a propriedade dos banqueiros, empresas ferroviárias, frigoríficos e fazendeiros. Ninguém esperando nada além disso.
Parecem querer nos dizer: "Não esperem ajuda do Estado, inclusive em catástrofes terríveis como essa. Não vamos gastar recursos com esse fim, dispondo deles ou não”. Momento ideal para lançar essa campanha, com os olhos do mundo postos no sul dos EUA e em seu flagelo. Dessa forma, grande parte da população mundial recebe a mensagem de que, a partir de agora, o refrão individualista e yankee do “keep your ass” imperará ainda que em situações tão dramáticas como as desencadeadas pelos furacões. E mesmo que seja no “primeiro mundo”.

Apoio da mídia

Os grandes meios de comunicação se somam lépidos a esse recrudescimento. Em um editorial intitulado "Esperando por um líder", o jornal "The New York Times" criticou, em aparência duramente, um discurso pronunciado por Bush. O jornal indicava que "a nação esperava um discurso de consolo e de sabedoria". Digo eu: não esperaria um discurso com medidas de ajuda e compromisso de disponibilização de todos os recursos necessários para salvar a população?
Outra idéia que borbulha nos meios de comunicação é que as vítimas que sobreviveram e permaneceram são vagabundos, imprevidentes que não tiveram vontade de evacuar da cidade (entenda-se, negros e latinos). E para reforçar a mensagem, exibem permanentemente imagens de supermercados saqueados, com comentários do gênero: “alguns roubam comida, no entanto outros roubam equipamentos eletrônicos, jóias, roupas e armas”. Em suma, gente que não merece ajuda.
Alardeia-se em quase todas as crônicas que um helicóptero foi derrubado e que um guarda nacional foi ferido a bala. O jornal local "The Times Picayune" afirma que a seção de armas e munições da rede Wal-Mart no distrito Lower Garden foi inteiramente esvaziada pelos saqueadores.
Outro item da salada informativa, em estilo “Reader’s Digest”, é a ênfase no relato da força desatada da natureza, frente à qual “o homem” pouco pode fazer. Diante da água contaminada e das enfermidades, anunciam em tela cheia: “O pior ainda está por chegar”.
E como se não bastasse, as autoridades governamentais e a mídia estendem ainda seu clássico guarda-chuvas, o patriotismo. Todo aquele que critica o governo é anti-americano. Enquanto isso, embaixo do visor, passa a legenda "Terror level: elevated".

Argumentos clássicos

Um analista comentava que essa atitude da Administração vai afetar a moral dos soldados norte-americanos e que muitos jovens irão rechaçar o recrutamento militar, porque o Estado não socorreu as vítimas do furacão.
Eu penso que será ao contrário. Historicamente falando, alistamento militar se vincula a fome: o Exército era praticamente o único lugar com comida assegurada. Agora, certamente (até pelos novos efeitos colaterais do arrocho neoliberal) vai acontecer o mesmo: milhares de jovens afetados pelo desastre, na miséria e sem família, não vão encontrar outra solução para sair da pobreza senão a de se alistarem.
Argumenta-se que 45% da Guarda Nacional do Mississipi e 35% da de Louisiana estão no Iraque. Entretanto, a Guarda Nacional tem em todo o país dezenas de milhares de efetivos, que se mostraram muito capazes de organizar pontes aéreas, em 24 horas, para enviar soldados a Kosovo e ao Afeganistão. Como então não iria ser possível transladá-los dentro dos EUA, e em ainda menos tempo?
O tenente-coronel Trey Cate, porta-voz do Exército, advertiu que não se fazia um deslocamento massivo de soldados norte-americanos, alocados no Iraque e Afeganistão, para ajudar nos esforços de recuperação das áreas atingidas pelo furacão, “para não afetar o equilíbrio militar”. Mas com a situação saindo fora de controle, não param de chegar mais guardas nacionais e soldados provenientes do Iraque.
O que estamos vendo é um golpe nas crenças e esperanças de muitos habitantes, e de muitos analistas, pelo teor dos textos lidos nesses dias, em todo o mundo. Por outro lado, as pessoas que, devido a seu poder aquisitivo, puderam fugir a tempo, em seus veículos, com suas famílias e bens de maior valor, estão em hotéis ou casas de veraneio, sem maiores privações. E certamente pouco lhes importa o destino dos que ficaram. Já os que vivem em zonas não atingidas, precisam agradecer a alguma divindade pelo fato de sua casa e da empresa onde trabalham seguirem de pé, e isso vai lhes permitir seguir consumindo.

Disponibilidade de recursos

É claro que em breve haverá um grande bolo a repartir. Os projetos de reconstrução das cidades desfiguradas pelo Katrina serão suculentos. Alguns irão propor um monumento para lembrar as vítimas e, nesse momento, não medirão os gastos. As redes de TV repetirão, minuto a minuto, imagens emocionantes das cerimônias e seremos obrigados a escutar hinos e louvores sobre a capacidade de recuperação após a tragédia.
"Nossos corações e preces estão com nossos compatriotas na Costa do Golfo que tanto sofreram por causa do furacão Katrina", disse o presidente Bush. O que não está com “nossos compatriotas”, leio eu, é “nosso” imenso orçamento, “nossos” imensos recursos...
Se eclodisse uma revolta popular, encabeçada pelos negros (e alguns brancos) e latinos pobres, contra a fome e as epidemias que se avizinham, o Estado poria em operação todo seu maquinário, sem quantificar custos ou conseqüências. A lógica se repetiria se os EUA decidissem invadir a Venezuela ou qualquer outro país. Estão nos dizendo o seguinte: de volta ao que valia antes da crise dos 30. O papel do Estado é proteger o poder financeiro e empresarial e ajudar a colonizar o mundo em busca do lucro.
Luciano Alzaga é editor do REBELION, com tradução de Luis Fernando Novoa Garzon

Sites interessantes

(fonte: revista Escola)
Para sempre, Pagú Considerada a militante ideal, Patrícia Galvão, a Pagú, ainda hoje causa espanto pela riqueza de sua biografia e pelo teor explosivo de sua obra literária. Na sua juventude, ela se une ao movimento antropofágico ao lado de Oswald de Andrade, Geraldo Ferraz e Raul Bopp. Aos vinte anos de idade, atua como jornalista. Produz polêmca reportagem sobre Luís Carlos Prestes e entrevista Sigmund Freud. No site destinado a Pagu você encontra textos seus publicados em cinco jornais brasileiros, fotografias, desenhos em sua homenagem e uma detalhada cronologia, também ilustrada.

Livros e revistas

1. Nas bancas a revista Nossa História nº 23. Apresenta um dossiê sobre os Anos JK, entrevista com Ciro Flamarion Cardoso e artigos sobre a propaganda no Brasil, as faces de D. Pedro I, a sedução das índias, a vaidade feminina em Minas Colonial, Polícia e contraventores na época da Corte, Biografia de D. Luis de Almeida, marquês do Lavradio, Museu da Inconfidência: monumento à rebeldia.

2. O extraordinário historiador Jacques Le Goff revisou as conversas que teve com Jean-Maurice de Montremy, em 2002. O resultado é o livro Em busca da Idade Média, em que cada um dos seis capítulos retrata o cotidiano medieval e suas personagens. Edição da Civilização Brasileira, 224 páginas, R$ 29,90.

3. O clássico Eneida, de Virgílio, foi reeditado pela Ateliê/Unicamp. Tem apresentação do prof. Antônio Medina e glossário e organização de Luiz Alberto Machado Cabral. 315 páginas, R$ 69,00.


Cinema

Uma interessante análise do filme “O Triunfo da Vontade”, realizado por Leni Riefensthal a pedido de Adolf Hitler pode ser lida no site da Revista da Fapesp, edição 115.
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/
Ao abrir o site, clique no item Humanidades, na coluna da esquerda, para ter acesso ao texto completo.


Dissertação

Título do trabalho: A história da Tuberculose em BH de 1897 a 1950: uma abordagem histórico-cultural. (Geordana Natali Rosa Requeijo)

Analisamos algumas concepções e práticas acerca da vivência da tuberculose em Belo Horizonte, na primeira metade do século XX, e das suas implicações políticas, econômicas, sociais e culturais. A história cultural da tuberculose foi construída socialmente e, portanto, requer explicação e interpretação social e histórica, o que Peter Burke chamou de história sóciocultural.
Partimos do pressuposto de que as doenças e os doentes têm um universo simbólico específico, segundo o qual eles percebem e vivenciam suas experiências corporais com percepções próprias ao tempo histórico a que pertencem. Nesse sentido, a história da tuberculose em Belo Horizonte torna-se objeto privilegiado de análise. Procuramos abordar a doença, não como um fenômeno meramente biológico, mas engendrado numa rede de significados.
Partindo da perspectiva de Roger Chartier sobre as práticas e representações da história cultural, analisamos a tuberculose não apenas como uma doença em particular, mas inserida em uma rede de condicionantes em que ela, enquanto doença, se inscreve. Assim, entendemos que a tuberculose não pode ser estudada como um fenômeno isolado e, sim, integrada aos sistemas e valores mais amplos da sociedade e do momento histórico em que está inserida, descrevendo assim, algumas concepções e práticas acerca da vivência da doença e suas implicações sociais e culturais.
As concepções de saúde, doença e corpo, que, em geral, são percebidas como noções meramente biológicas, também têm sido apontadas como construções culturais. A esse respeito, uma das contribuições fundamentais da antropologia consiste em demonstrar que qualquer apreensão do que seja a natureza já é feita com base em um universo cultural. Nessa perspectiva, entende-se que o corpo, ainda que algo natural e individual, é transformado e moldado socialmente. O corpo é, desse modo, compreendido e usado por referência ao universo cultural específico de cada grupo social (DUARTE e LEAL, 1998). As interpretações das doenças variam amplamente de acordo com o tempo e o lugar. A tuberculose sofreu essas variações ao longo dos séculos: na Idade Média, foi associada à ira divina; na primeira metade do século XIX, à boemia e à hereditariedade e, no século XX, à pobreza.
A tuberculose também era chamada de peste branca, porque os portadores da moléstia apresentavam uma palidez característica em contraste com a peste negra. Na passagem do século XIX para o XX, a tuberculose também foi considerada como uma doença social, relacionada à moradia pobre e às condições de trabalho insalubres, estando, ainda, alinhada à sífilis e ao alcoolismo, um dos principais conjuntos desafiadores da ordem social.
Entendendo que a cultura de um grupo é produzida historicamente em condições sociais e materiais específicas, buscamos analisar as representações criadas em torno da tuberculose em Belo Horizonte, na primeira metade do século XX. Para isso, acreditamos necessário delinear o universo em que tais concepções foram constituídas. Portanto, fizemos uma abordagem da construção de Belo Horizonte dentro dos ideais de salubridade do século XIX.
Antes do descobrimento dos antibióticos, a tuberculose era caracterizada por uma morte lenta e insidiosa, sendo chamada de lepra dos tempos modernos. Assim como a lepra, a tuberculose se reproduzia muito mais lentamente do que a maioria dos germes, o que tornava seu diagnóstico difícil: a doença poderia levar semanas, meses ou décadas para se manifestar no organismo, o que, inicialmente, acabava por camuflar seu caráter contagioso.
A tuberculose foi, por muito tempo, a causa isolada mais importante de mortes no mundo desenvolvido, e só teve o golpe de misericórdia com a introdução dos quimioterápicos nos anos 40 do século XX.
O marco cronológico que orienta nosso trabalho estende-se do final do século XIX, com a inauguração de Belo Horizonte, em 1897, até os anos 50 do século XX, período caracterizado pelo início de uma nova terapêutica para o tratamento da tuberculose, com a descoberta da estreptomicina, em 1944.
O trabalho apresenta-se dividido em seis capítulos, considerando-se como tais também a Introdução e a Conclusão. O segundo trata do processo de escolha do local e a construção da nova capital mineira em fins do século XIX. Esse processo teve como pressupostos os ideais de salubridade fortemente presentes nos projetos urbanísticos europeus da época. Ainda, no segundo capítulo, abordamos os conceitos relativos à doença, saúde e higiene na passagem do século XIX para o XX, bem como a organização dos serviços de saúde da nova capital.
No terceiro capítulo, elaboramos, a partir dos relatórios da Secretária de Higiene e das publicações médicas, o quadro nosológico presente em Belo Horizonte no período, comparando a tuberculose com as demais causas de óbitos registradas na época. A partir dos dados estatísticos oficiais, elaboramos tabelas e gráficos referentes à evolução da mortalidade por doenças, priorizando, evidentemente, a tuberculose. A partir deste estudo, analisamos até que ponto a tuberculose torna-se um problema de saúde pública em Belo Horizonte; para tanto, contrapomos estatisticamente as outras causas de óbitos por doenças transmissíveis.
Para dar um maior embasamento a nossa pesquisa, procuramos também analisar, em alguns momentos, dados referentes aos óbitos por tuberculose em outras capitais brasileiras, bem como em outros países e continentes, mas tendo sempre em vista que o objetivo deste trabalho é a análise da tuberculose em Belo Horizonte, enquanto parte da construção de um rico imaginário cultural elaborado em torno do doente e da doença, constituindo a idéia da cidade sanatório.
Com os dados estatísticos, foi possível perceber o impacto da tuberculose sobre a saúde/doença do belorizontino no período objeto de estudo.
A abordagem da tuberculose na literatura médica e ficcional se constitui no quarto capítulo da dissertação e é o momento em que os médicos, poetas e doentes ganham voz. A tuberculose foi um tema corrente no meio artístico e literário dos séculos XIX e XX. Nenhuma outra doença foi tema de tantas poesias, músicas, livros, novelas etc, como a tuberculose. Na literatura médica, encontramos inúmeros relatos e debates em torno da doença, como, por exemplo, do médico Pedro Nava, que traz para literatura a sua experiência familiar com a tuberculose. Também abordamos, nesse capítulo, os intensos debates entre os médicos mineiros e cariocas, referentes à questão climática na terapêutica da doença, que extrapolam a discussão médica, de forma que ela pode ser entendida também como uma questão econômica.
O quinto capítulo trata dos locais de tratamento e isolamento dos doentes. É o surgimento dos sanatórios, dispensários antituberculose e preventórios, dentro do contexto mundial, nacional e local, onde Belo Horizonte se destaca, em função do grande afluxo de tuberculosos que chegam à capital, na crença de que poderiam se curar apenas com as propriedades do clima da cidade. Analisamos como essa crescente população de tuberculosos afetou o cotidiano na cidade e como os órgãos públicos e, também, a sociedade civil atuaram nesse contexto. Nenhuma outra doença apresentou números de óbitos tão significativos, durante um período de tempo tão longo, daí a grande importância que a peste branca foi tomando na vida da cidade e na relação das pessoas com a doença e o doente, produzindo imagens, construindo toda uma cultura da tuberculose, em uma cidade erguida como ícone de modernidade, da higiene, que passa a ser identificada como cidade sanatório.
Descrevemos, também, os tratamentos dispensados aos doentes ao longo dessas décadas, que vão desde a ingestão de leite de bode, caldo de rã, champanhe, óleo de fígado de bacalhau, às misturas de sais de ouro e sódio, bem como os diferentes procedimentos cirúrgicos empregados na época. Encerramos o capítulo com uma breve abordagem sobre o namoro nos sanatórios e o difícil retorno do tuberculoso à sociedade, ao mundo dos sãos.

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