Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

16.11.05

Número 61 - Nova fase 013



Ainda as crises: Brasil e França

A revista Carta Capital desta semana traz na capa uma interessante questão: Por que o PT poupa o Azeredo, mesmo tendo todas as provas necessárias para incrimina-lo, cassa-lo e mostrar ao Brasil que o PSDB é tão corrupto quanto...
Creio que a resposta acabará sendo aquela que eu sugeri em número anterior deste Boletim: há um acordo entre os dois partidos: “Não queimem o Azeredo que nós não chamamos o irmão do Lula para depor sobre os negócios dele com a Telemar”. Não há outra explicação possível, mesmo que dirigentes dos dois partidos desmintam. A verdade é que ninguém mais acredita que eles falam a verdade...
E a pizza está se consumando. Notícias de hoje dizem que a CPI do Mensalão está se encerrando, e o relator, o brilhante causídico Abi-Ackel (que por sinal recebeu 100.000 do Marcos Valério), deve apresentar um relatório provando que não existiu o mensalão e não vai indiciar ninguém. É isso que acontece quando se coloca uma raposa para tomar conta do galinheiro...
Agora, fica a pergunta: se não houve o mensalão, qual a finalidade de continuarem as CPIs dos Correios e dos Bingos, que estão mais preocupadas com o mensalão do que com os Correios e do que com os Bingos???
Quando eu digo que acho este nosso país muito estranho... não é por bobagem não...

Já lá fora, as coisas continuam quentes. Nem as medidas draconianas tomadas pelo governo francês conseguiram acalmar totalmente o país. Se o toque de recolher fez com que menos pessoas ficassem nas ruas, não impediu que novas centenas de veículos fossem queimados, o que demonstra a insatisfação existente naquele país.
Sobre a crise francesa, Mario Sergio Conti e Pedro Doria, do site NoMinimo, produziram dois interessantes artigos. Vamos ler e comentar?


Mario Sergio Conti
Pedro Doria
Também a Revista IstoE desta semana trouxe um artigo que vale a pena ser lido, fazendo uma comparação válida com o maio de 1968 (várias comparações já apareceram na mídia, mas todas furadas... esta me pareceu válida).


O 68 da periferia
Diante da violência dos jovens excluídos, governo recorre a medidas do período colonialista
Luiza Villaméa

As cenas de carros em chamas, vitrines estilhaçadas e de depredação generalizada correram mundo. A explosão súbita de violência transformou Paris em cenário para batalhas urbanas. Era maio de 1968 quando uma rebelião estudantil paralisou o governo e inspirou movimentos de contestação nos quatro continentes. Trinta e sete anos depois, os subúrbios parisienses se transformaram no epicentro da produção em série de cenas tão ou mais impactantes quanto as de 1968. Desta vez, no lugar de intelectuais imberbes clamando por mudanças nos costumes estão jovens excluídos dos subúrbios, em geral descendentes de imigrantes de antigas colônias francesas na África. Desde o dia 27 de outubro, pelo menos 7.400 carros foram incendiados em todo o país, onde 25 regiões foram autorizadas a decretar estado de emergência e toque de recolher. Para conter a revolta sem líderes nem palavras de ordem, o governo francês desencavou na semana passada uma lei de 1955, promulgada durante a guerra da Argélia, antiga colônia que conseguiu sua independência da França sete anos depois. A estratégia de contenção dos distúrbios, que chegaram a contaminar países vizinhos, prevê ainda a expulsão dos estrangeiros envolvidos em atos de vandalismo.

Embora não ataque a raiz do problema, as medidas emergenciais amenizaram a intensidade dos conflitos ao longo da semana passada. Na quinta-feira 10, quando 160 pessoas foram presas em toda a França, a contabilidade da crise registrava o incêndio de 463 veículos, contra 1.408 carros em apenas uma noite, na segunda-feira 7. Como garantia adicional, o chefe de polícia de Paris, Pierre Mutz, proibiu a venda de gasolina em recipientes, para dificultar a confecção de bombas incendiárias. Mutz trabalha com a possibilidade de que a calmaria relativa seja devido à preparação de um megaprotesto em Paris neste final de semana, quando os franceses comemoram o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). “Vários recados em sites e mensagens via celular foram repassadas nos últimos dias, falando da organização de ações violentas em Paris”, alertou o chefe de polícia. Numa tentativa de neutralizar a transmissão de mensagens instigadoras da violência por meios eletrônicos, a polícia tirou do ar três blogs (diários virtuais), um deles mantido por um garoto de apenas 14 anos.
...
A administração da crise que colocou a Europa em sobressalto reflete uma batalha surda, travada no interior do governo francês, por causa da sucessão do presidente Jacques Chirac. De um lado está o linha-dura Sarkozy: “A polícia garante a ordem republicana. Se ela não fizer isso, qual ordem a sucederá? A das máfias ou a dos integralistas?” Do outro lado está o primeiro-ministro Dominique de Villepin, que privilegia o diálogo e tem se reunido com líderes comunitários e religiosos. Na semana passada, ele anunciou um plano educacional para amenizar os problemas sociais que estão na base dos distúrbios. Dos 62,4 milhões de habitantes da França, pelo menos 10% são imigrantes e seus descendentes. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, o eurodeputado Daniel Cohn-Bendit, líder da rebelião estudantil de 1968, afirmou que o problema dos distúrbios não será solucionado com um simples plano de ação. “É preciso resolver o problema dos guetos”, disse. “Existem famílias que já por duas gerações não conhecem outra situação que não seja o desemprego.” Famoso pelo discurso incendiário à frente das barricadas de Paris, Cohn-Bendit firmou-se como líder numa época em que os incluídos queriam aumentar as margens de tolerância do sistema, revolucionando seus costumes. Hoje, a revolta é dos excluídos, que brigam para entrar no sistema.

Agora, isto aqui já está caindo no perigoso terreno da galhofa!!!

Conservadores atribuem distúrbios na França a poligamia
O ministro do Emprego, Gerard Larcher, disse que as grandes famílias polígamas às vezes levam a um comportamento anti-social por parte de jovens que não têm uma figura paterna, o que torna os empregadores relutantes em contratá-los

PARIS (Reuters) - Importantes políticos conservadores franceses disseram na quarta-feira que a poligamia pode ter influenciado a onda de distúrbios que tomou conta do país nas últimas três semanas.
Bernard Accoyer, líder da União por uma Maioria Popular (UMP) na Câmara dos Deputados disse a uma rádio que os filhos de grandes famílias polígamas têm dificuldades de integração na sociedade francesa.
O ministro do Emprego, Gerard Larcher, disse ao jornal Financial Times que as grandes famílias polígamas às vezes levam a um comportamento anti-social por parte de jovens que não têm uma figura paterna, o que torna os empregadores relutantes em contratá-los.
"Há claramente um problema com a integração de imigrantes e, mais importante, com seus filhos", disse Accoyer à rádio RTL."A fim de que possamos integrá-los, não deve haver um número maior deles do que a nossa capacidade de integrá-los. Essa é a questão. É como a poligamia. É certamente uma das causas [dos distúrbios], embora não a única."
Accoyer disse que a poligamia leva "a uma incapacidade de fornecer a educação necessária em uma sociedade organizada e normativa como na Europa e notadamente na França".
Líderes muçulmanos do país não foram localizados imediatamente para comentarem as declarações dos políticos.
Larcher, que deve ter papel de destaque nas promessas do governo de dar mais empregos às minorias étnicas, disse ao Financial Times que os casamentos múltiplos prejudicam alguns jovens.
"Como parte da sociedade apresenta este comportamento anti-social, não é surpreendente que alguns deles tenham dificuldades para encontrar trabalho", afirmou. "Os esforços devem ser feitos de ambos os lados. Se as pessoas não forem empregáveis, não serão empregadas.
"Um assessor disse à Reuters que Larcher baseou seus comentários na sua própria experiência em cargos eletivos municipais.O ministro estava comentando os distúrbios em um jantar com jornalistas quando disse que a poligamia é um fator que contribui para a recente onda de distúrbios. "Mas a poligamia não é a causa predominante dos fatos recentes", ressaltou o assessor, que pediu anonimato.
Larcher disse conhecer pessoalmente o caso de um jovem detido pela polícia e que, segundo as investigações posteriores, vinha de uma família polígama."
Gerard Larcher disse que esse era um dos fatores que deveriam ser levados em conta, porque os jovens de famílias polígamas não têm para quem olhar, não têm pontos de referência, são desestruturadas, e ele estava usando esse exemplo", acrescentou o assessor. (do site www.pop.com.br)


Brasil

José Paulo Kupfer
Personagens da nossa história cuja biografia precisa ser urgentemente conhecida. Leia, comente e divulgue:

1. A histeria do senador Bornhausen
Por Altamiro Borges (do site da revista NovaE)

Na crise política que se arrasta no país há mais de cinco meses, sinistros personagens têm conquistado os holofotes da mídia por sua postura raivosa e golpista. Entre eles, destaca-se o senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL. Quando a tensão atingiu o seu ápice, ele festejou a possibilidade do impeachment do presidente Lula e da derrota das esquerdas para uma platéia de ricaços em São Paulo: "Vamos nos livrar dessa raça por uns 30 anos". Rechaçado pela declaração racista, o notório reacionário tentou remendá-la. Na seqüência, diante dos cartazes espalhados em Brasília com sua foto sobreposta a uma imagem nazista, ele teve um chilique e esbanjou histeria, relembrando seus velhos tempos de serviçal da ditadura militar.
Agora, ameaça processar o sociólogo Emir Sader, um dos intelectuais brasileiros mais lúcidos e corajosos na denúncia da oposição de direita e que o taxou de "banqueiro racista" num texto à Agência Carta Maior. Lamentavelmente, o seu pronunciamento do Senado anunciando a abertura do processo teve o beneplácito de senadores petistas e pedetistas, bem ao estilo da cínica diplomacia parlamentar [1]. A ofensiva da velha raposa oligárquica, que durante algum tempo ficou na moita, mostra que a oposição liberal-conservadora está excitada. Escorraçada na eleição presidencial de 2002, ela parte para a revanche e não esconde o seu ódio de classe - para tristeza dos mercadores de ilusões que apostaram no fim da luta de classes no país!
Passado sinistro
Mas o senador Jorge Konder Bornhausen não está com esta bola toda! Como desabafou recentemente o presidente Lula, irritado com os hidrófobos do PFL, "eles não têm moral para criticar". Na vida política, o senador sempre esteve a serviço das piores causas. Ele iniciou sua carreira na UDN, partido da elite, com roupagem moralista, conhecido pelas ações golpistas contra Getúlio Vargas e João Goulart. Após o golpe de 1964, foi um dos líderes da Arena, partido da ditadura, da tortura e dos assassinatos, sendo presenteado com o posto de governador biônico de Santa Catarina. Com a redemocratização, fundou o PFL e ajudou a forjar a imagem de Fernando Collor de Mello. Defendeu este governante corrupto até o seu impeachment.
No triste reinado de FHC, Bornhausen foi um de seus principais ministros e ajudou no nocivo processo de privataria do Estado e de desmonte do Brasil. Em toda sua trajetória política, inclusive como embaixador, ele se projetou pela postura de subserviência diante dos interesses imperialistas dos EUA e de apologista do ideário neoliberal de enxugamento e privatização do Estado, de abertura indiscriminada do mercado interno, de redução dos gastos públicos nas áreas sociais e de flexibilização dos direitos trabalhistas. Uma coisa é certa: ele nunca escondeu as suas posições nitidamente identificadas com as teses da direita mais reacionária e entreguista, como se constata em seus discursos no Senado de fácil acesso na internet.
Já na vida privada, o banqueiro Jorge Bornhausen também tem um passado bastante suspeito. Oriundo de uma família oligárquica de Santa Catarina, ele sempre gozou de muito dinheiro e poder, tanto que chegou à presidência da poderosa Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Nas relações promiscuas entre o público e o privado, que caracterizam os patrimonialistas tupiniquins, o senador já foi acusado de vários atos ilícitos. Em junho de 2002, por exemplo, a revista Isto É denunciou: "Na investigação sobre remessa ilegal de dinheiro, Polícia Federal acha boleto bancário em nome de Bornhausen". A matéria descrevia em detalhes um megaesquema de corrupção no envio irregular de bilhões de dólares do Brasil ao exterior.
"Na papelada encontrada por investigadores americanos na agência do Banestado em Nova York havia um boleto bancário no valor de R$ 185 mil em nome de Jorge Konder Bornhausen". Esse montante teria saído da agência do Banco Araucária em Foz do Iguaçu. Em seguida, passou por um offshore num paraíso fiscal e desembarcou nos EUA. Com 35 mil páginas, o relatório da PF revelava a movimentação de 137 contas suspeitas feita através da CC-5. Entre 1992 e 1997, pessoas e empresas utilizaram este recurso para enviar ilegalmente ao exterior R$ 124 bilhões. Deste montante, a PF identificou quase R$ 12 bilhões que provinham de dinheiro sujo, "procedente de corrupção, tráfico de drogas e de armas e outros ilícitos" [2].
Estranhamente, FHC arquivou o dossiê da PF e ainda afastou o delegado José Castilho Neto, responsável pela investigação. "O estopim foi a divulgação do nome do presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, entre os envolvidos no esquema de lavagem de dinheiro". A investigação ainda incriminou vários tucanos de alta plumagem, como o próprio FHC, José Serra e o falecido Sérgio Mota [4]. Revelou que o Banespa, sob controle do PSDB, usou este mesmo esquema de lavagem para enviar US$ 50 bilhões ao exterior em 1997. O Banestado quebrou em 1998, num escândalo que causou prejuízos de US$ 200 milhões para seus quatro mil clientes. Essa lavanderia mundial foi uma das fontes de recursos do condomínio PSDB-PFL.
Jorge Bornhausen também aparece em outros casos sinistros. Segundo o deputado Eduardo Valverde (PT-RO), ele esteve diretamente envolvido no escândalo da Pasta Rosa, que relacionou 49 parlamentares que receberam dinheiro para suas campanhas da Febraban e do Banco Econômico que nunca foi contabilizado - o famoso caixa-2. Luiz Carlos Bresser Pereira, tesoureiro da campanha de FHC em 1994, reconheceu publicamente que cerca de R$ 10 milhões destes recursos não foram contabilizados. O senador ainda é citado no caso da Feira de Hannover, "em que sua filha, sócia de uma empresa, ganhou sem licitação um contrato de quase R$ 17 milhões para a organização da feira. Jorge Bornhausen foi o principal defensor do governo FHC porque obtinha vantagens, não era por ideologia", ironiza o deputado petista.
Em junho de 2003, os procuradores Luiz Francisco de Souza, Raquel Branquinho e Valquíria Quixadá entregaram à Receita Federal cerca de seis mil documentos sobre 52 mil pessoas que lavaram US$ 30 bilhões nos EUA a partir do Banestado de Foz do Iguaçu. O maior foco de investigações recaiu sobre "a família do sr. Jorge Bornhausen, do PFL, cujo banco familiar, o Araucária, lavou ao menos US$ 5 bilhões nesse esquema, que envolvia dinheiro de traficantes, de doleiros, mas sobretudo das sobras de campanhas eleitorais" [5]. Todos estas graves denúncias, infelizmente, não fluíram no conciliador governo Lula. Elas bem que poderiam desmascarar muitos dos que hoje pousam de políticos honestos e esbanjam arrogância.
Notas1- Marco Aurélio Weissheimer. "Escolha o seu lado e as suas causas". Agência Carta Maior, 04/11/05. 2- Andrei Meireles e Expedito Filho. "Surpresa para todos". Revista Isto É, 17/06/2002. 3- Amaury Ribeiro e Sônia Filgueiras. "Operação maluco". Revista Isto É, 21/06/2002. 4- Leonardo Attuch e Hugo Studart. "Os nomes e as provas do dossiê da PF". Isto É Dinheiro, 07/07/02. 5- "MP acusa Bornhausen de lavar US$ 5 bilhões no exterior". Revista Consultor Jurídico, 15/06/03
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "Encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, junho de 2005).
Publicado também em La Insignia e rede de sites, blogs e revistas alternativas

2. Arthur Virgílio - Breve ensaio sobre a hipocrisia
Autor do requerimento que pede a criação de uma CPI do Caixa-Dois, o senador tucano Arthur Virgílio já fez uso da prática que agora quer investigar, informa a revista Carta Capital. Nestes dias de banalização das palavras, vale a pena revisitar o sentido do termo “hipocrisia”.
Uma das características mais notáveis dos dias que correm é a banalização ou mesmo perda do significado das palavras. Trata-se de um fenômeno cuja freqüência, extensão e profundidade é de tal ordem que se enraizou na sociedade como algo cotidiano como a chuva e o chinelo de dedo. A perda de referências e o esvaziamento de sentido parecem andar de mãos dadas com a privatização da vida e do pensamento. A política é um território privilegiado para constatar essa banalização crescente. Talvez uma das tarefas mais urgentes deste período seja justamente colocar o dedo na ferida e voltar a chamar as coisas pelo seu real nome. A atual crise política, além de revelar um conjunto de lambanças praticadas por dirigentes do PT, fornece uma rara oportunidade para colocar isso em prática, elaborando um pequeno glossário sobre o esvaziamento do sentido das palavras.
Tomemos um exemplo: a palavra “hipocrisia”. O dicionário Houaiss informa: “característica do que é hipócrita; falsidade; dissimulação; ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade; caráter daquilo que carece de sinceridade”. A etimologia do termo, segundo o mesmo dicionário, revela outros significados muito interessantes: a origem é grega – hupokrisía,as; hupókrisis, eós - , resposta, resposta de oráculo; ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; dissimulação, falsa aparência. Quem está acompanhando as sessões das CPIs no Congresso Nacional e a maneira como a imensa maioria da mídia vem cobrindo as investigações e os desdobramentos da crise têm um banquete farto para aplicar esses significados à realidade. Poucas vezes assistiu-se a uma orgia tão explícita de hipocrisia.
Domingo, três horas da tarde. O portal UOL informa em sua manchete: ACM e Jereissati planejam levar Palocci ao plenário do Senado. O objetivo é fazê-lo sangrar até a morte, ele e o governo Lula obviamente. Em sua edição de domingo (13 de novembro) a seção “Painel”, da Folha de São Paulo, informa: “PSDB e PFL se reuniram na semana passada e chegaram à conclusão de que, com Lula protegido em sua bolha de plástico, a saída seria retirar a rede de proteção que ainda mantinham sob os pés de Antonio Palocci”. Essas poucas palavras explicam por inteiro o objetivo estratégico das atuais investigações: a oposição, capitaneada por PSDB e PFL, não tem o menor interesse em desvendar os mecanismos e as trilhas da corrupção no Brasil. Afinal, se tais mecanismos e trilhas existem, os setores sociais que representam são os responsáveis históricos pela sua criação, uma vez que sempre estiveram no poder e comandaram o Estado brasileiro. O objetivo é desgastar ao máximo o governo Lula, fazê-lo sangrar o máximo possível, para tentar voltar ao poder em 2006.
Bem, isso não é exatamente nenhuma novidade e vem sendo dito abertamente por líderes tucanos e pefelistas. Os discursos entusiasmados em defesa da moralidade pública protagonizados por parlamentares e dirigentes desses dois partidos encaixam-se como uma luva na acepção grega da palavra “hipocrisia”: desempenho teatral, dissimulação, pantomima. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), um dos personagens centrais desse teatro, vem soltando o verbo denunciando, entre outras coisas, a prática do caixa-dois pelo PT. O senador tucano foi o autor do requerimento pedindo a instalação de uma CPI para investigar a prática. Deveria começar as investigações na própria casa, pois já admitiu publicamente que fez uso dela em campanha eleitoral.
A revista Carta Capital desse fim de semana resgatou declarações que Virgílio fez ao Jornal do Brasil, em 19 de novembro de 2000, onde confessa ter se utilizado do caixa-dois. Na matéria, ele afirmou: “Em 1986, fui obrigado a fazer caixa dois na campanha para o governo do Amazonas. As empresas que fizeram doação não declararam as doações com medo de perseguição política”. Segundo a matéria do JB, intitulada “Ilegalidade na campanha eleitoral é freqüente”, o então deputado ficou tranqüilo porque esse crime eleitoral que cometeu já estava prescrito. O texto trata da denúncia de que houve doações de mais de R$ 10 milhões à campanha de reeleição de FHC que não foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na época, Virgílio afirmou: “Vamos acabar com mocinhos pré-fabricados e bandidos pré-concebidos. Neste país, o caixa um é improvável. A maioria das campanhas tem caixa dois”.
Praticamente as mesmas declarações do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, amplamente divulgadas e repercutidas pela mídia. A diferença é que, quando Arthur Virgílio confessou o crime eleitoral, o fato não foi tratado como um escândalo de proporções inéditas. O senador declara-se um homem religioso e devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Deveria ler então, algumas passagens da Bíblia sobre o significado da hipocrisia. Em Lucas 16:15, por exemplo: “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações, porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação”. Ou em Mateus 6:2: “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”. Ainda em Mateus 23:13: “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar”. Na definição canônica da Bíblia, hipocrisia é conhecer a verdade, mas não obedecer – dizer que Cristo é o Senhor mas não segui-lo.
Caso prefira um tratamento leigo e mais sofisticado sobre o mesmo assunto, poderia ler a seguinte passagem do “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, do francês André Comte-Sponville (publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes):
“Um canalha polido não é menos ignóbil que outro, talvez seja até mais. Por causa da hipocrisia? É duvidoso, porque a polidez não tem pretensões morais. O canalha polido poderia facilmente ser cínico, aliás, sem por isso faltar nem com a polidez nem com a maldade. Mas, então, por que ele choca? Pelo contraste? Sem dúvida. Mas não há contraste entre a aparência de uma virtude e sua ausência (o que seria a hipocrisia), pois nosso canalha, por hipótese, é efetivamente polido – de resto, quem o parece o é suficientemente. Contraste, muito mais, entre a aparência de uma virtude (que também é, no caso da polidez, sua realidade: o ser da polidez se esgota inteiro em seu aparecer) e a ausência de todas as outras, entre a aparência de uma virtude e a presença de vícios, ou antes, do único real, que é a maldade(...) A polidez torna o mau mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável. O canalha polido é o contrário de uma fera, e ninguém quer mal às feras. É o contrário de um selvagem, e os selvagens são desculpados. É o contrário de um bruto crasso, grosseiro, inculto, que decerto é assustador, mas cuja violência nativa e bitolada pelo menos poderia ser explicada pela incultura. O canalha polido não é uma fera, não é um selvagem, não é um bruto; ao contrário, é civilizado, educado, bem-criado”.As sugestões de leituras estendem-se, obviamente, aos demais personagens da crise política, entre eles, jornalistas, editorialistas e colunistas políticos que parecem, muitas vezes, sofrer de lapsos de memória ao escolher as palavras em seus textos. Nestes dias nebulosos, começar a chamar as coisas pelo seu nome real pode ser um bom começo para atacar os vícios estruturais que atravessam o Estado brasileiro e o sistema político nacional. Se o objetivo das CPIs em curso é, de fato, investigar as fontes da corrupção no país e extirpá-las definitivamente (o que dificilmente vai acontecer), é preciso, entre outras coisas, expulsar os fariseus do templo e expor sua nudez ao público.
Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Publicado também em Agência Carta Maior e rede de sites, blogs e revistas alternativas

Internacional

Venezuela e México à beira de um ataque de nervos...Só faltava essa!!!

Leia aqui: http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI754344-EI294,00.html


Falam amigos e amigas

1. Você está cada vez mais fazendo crescer o Boletim, que sai do forno tão quente e trazendo para fora todas as notícias que estão fazendo o mundo tremer. É muito preocupante tudo o que está acontecendo em nossos dias, mas estou gostando por outro lado, que as pessoas estão tomando consciência e refletindo mais sobre este momento de crise, o que poderá levar a uma ação coletiva da sociedade.
Parabéns, você está botando prá quebrar!
Beijos,Liliane

2. Ao amigo Marcelo, do 7º período:
Primeiramente, exigir gratuidade no transporte coletivo não é uma atitude revolucionária, na essência política desta palavra. Ou você acha que o mundo, o Brasil, ou até mesmo Belo Horizonte vai mudar uma vírgula a partir deste e de tantos outros movimentos, que são justos, porém não condizem com a realidade objetiva das coisas?
A frase que o colega apresenta é da autoria de Voltaire, identificando o ícone máximo da era das luzes - luz que falta muito a juventude brasileira, ainda encarcerada nas velhas e enrugadas utopias de décadas passadas. Insisto, é preciso ter os "pés no chão"!
E "pés no chão" está muito mais próximo de uma postura racionalista do que conservadora, e lembremos: mudança não significa necessariamente melhorias, depende do que está em questão.
Respeito a opinião do colega, e de outros também, por isso, não se acanhem meus amigos "revolucionários", aqui é um espaço democrático. Esta é a essência deste boletim, idealizado pelo nosso amigo prof. Ricardo, O DEBATE!
Abraços a todos, TIAGO MENTA.
3. Querido Mestre,
A violência que está tomando conta da França nestes últimos 15 dias, não me surpreende porque a despeito das contribuições que este país deu ao mundo, no decorrer dos tempos por um lado foi importante e inquestionável, mas, por outro criou uma arrogância nacional, em que os franceses se acham os tais, acham que não precisam de ninguém, que são auto-suficientes.
Alguém que fez uma revolução que influenciou as subseqüentes, inclusive as que aconteceram no início do Séc. XX, que inspirou o código civil de muito países, que nos deu artistas importantes como Baudelaire, Alexandre Dumas Pai e Filho, Sartre, Voltaire e Rousseau e outros, deveria se preocupar mais com coisas importantes como ajudar a promover o bom entendimento entre os povos, ajudar a melhorar a saúde do planeta, a diminuir a poluição mundial e etc. ao invés de ficar promovendo internamente o preconceito contra os imigrantes.
Obrigado, e bom feriado a todos!!!!
João Miguel
UNI-BH - 5º

4. Acompanhando os acontecimentos das revoltas na França tenho lembrado de nossas aulas....................Ufa! Lá se foram dois anos....e da rodada de discussão à cerca do caso francês que estava em gestação como apontado pela autora no "O Horror Econômico".
É, o ovo da serpente vingou!
Será manobra da oposição para detonar o Chirac? Ou será é coisa maior? Aguardemos!
Outro dia li uma resenha acerca do trabalho de um sociólogo polonês que trás a questão da gestação de uma atual geração perdida....ele segue a linha do que a Forrester aponta.
Vou tentar procurar algo a respeito para enviar para você colocar no boletim. Pode ser interessante!
Guilherme Souto

Noticias
O Colóquio Internacional de Estudos de Jogos de Tabuleiro convida todos os estudiosos a enviarem seus artigos na área de pesquisa em jogos de tabuleiro. O objetivo do Colóquio é elucidar as pesquisas individuais, para discutir o papel dos jogos de tabuleiro na área acadêmica, e aumentar a cooperação multidisciplinar nas pesquisas de jogos.

Temas, Resumos e Apresentações.
Os participantes interessados em apresentar um trabalho deverão entregar um título para o assunto e um resumo informal, escrito em português ou inglês, que não exceda 200 palavras. Os temas deverão ser entregues até 15 de dezembro.
Se o seu trabalho for aceito, você será convidado a fazer uma apresentação no Colóquio. Então será necessário que você apresente um resumo formal (você poderá usar o seu tema como resumo). Estes resumos, de 200-500 palavras, com prazo de entrega até 15 de fevereiro de 2006, serão impressos no programa do Colóquio, o qual será entregue a todos os participantes no ato da inscrição. Todos os resumos deverão ser escritos em inglês. Todas as apresentações serão em inglês e não poderão exceder 30 minutos; será dado um período de 10 minutos para perguntas logo após cada apresentação.
Temas, resumos e informações poderão ser enviados através do e-mail: tatiane@origem.com.br.
Você também poderá enviar o material para:
Origem Jogos e Objetos
A/C Maurício de Araújo Lima
R. Guajajaras, 2012
Barro Preto
Cep: 30.180-101
Belo Horizonte/MG

Livros e revistas

1.Nas bancas o número 5 da Revista de Historia da Biblioteca Nacional. Traz um dossiê sobre a República, com artigos de José Murilo de Carvalho, Lilia Moritz, Newton Bignotto, Heloisa Starling, Silvia Fonseca, Renato Lessa e Maria Fernanda Lombardi. Ainda, entrevista com Maria Odila Silva Dias; o Encilhamento (Hildete Melo); A lição de Betinho (Carla Rodrigues); O quadro de Pedro Américo – Independência ou Morte! ; As delícias da cozinha imperial (Leila Algranti)
2. Formação do Império Americano de Luiz Alberto Moniz Bandeira, ataca vocação imperialista dos Estados Unidos. Ed. Civilização Brasileira, 854 p. R$ 88,90.
3. A democracia no mundo de hoje, de Otfried Hoffe. Ed. Martins Fontes, 604 p. R$ 59,60. Professor alemão discorre sobre a democracia no mundo globalizado.

4. Forjando a democracia – A história da esquerda na Europa, de Geoff Eley. Ed. Perseu Abramo, 768 p. R$ 75,00. O livro cobre 150 anos de história e tenta mostrar a contribuição dos movimentos de esquerda para a consolidação do mundo ocidental.

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