Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

7.12.05

Número 064 nova fase 016



Eu queria começar hoje com uma fotografia da noite de autógrafos da profª Mary Del Priore, que esteve em Belo Horizonte para lançar seu último livro “História do amor no Brasil”. Com toda a simpatia que a caracteriza, ela fez uma breve explanação e trocou idéias com os presentes a respeito do tema.
Foi uma boa oportunidade para reencontrar ex-alunas como a Cláudia e a Rosa, que posaram comigo e com a autora para a posteridade, mas, como todos que lidam com computador sabem, tem horas que eles passam a ter vontade própria e se recusam terminantemente a aceitar as nossas ordens... por mais que eu tentasse, a foto não foi editada. Fico devendo!

Muita alegria também com os emails que recebi nos cumprimentando, a mim e à profª Helena, pelo livro Historia de Minas Gerais. Ele está quase pronto, creio que na semana que vem já deverá estar chegando às livrarias. Não vai ser possível fazer uma noite de autógrafos agora, em virtude da proximidade do Natal. Pena! Enquanto o livro não chega, vocês podem saber mais sobre ele visitando este endereço: http://fotolog.terra.com.br/flogdoricardo

Quanto ao curso de pós-graduação HISTORIA, PATRIMONIO CULTURAL E TURISMO, já ficamos sabendo que muitas pessoas estão telefonando e reservando sua vaga. Se você pretende fazer, não deixe para depois... afinal são apenas 35 vagas!

No Boletim de hoje, destaque para a entrevista que está ao final, com Zigmunt Baumann, que discute a impossibilidade de se ter uma identidade nesta “modernidade líquida” que estamos vivendo.
Muitas noticias sobre o Brasil. Destaco duas, sobre as universidades. Na primeira, o presidente Lula fala sobre a criação de novas universidades federais, sobre o concurso que irá contratar milhares de novos professores. A segunda é um contraponto, pois mostra o quanto a educação superior no Brasil tem se transformado em negócio lucrativo, a ponto de atrair o investimento de empresas estrangeiras. Uma das maiores universidades privadas do Brasil foi comprada por uma norte-americana.
A situação é complicada. Tem muito a ver, creio eu, com o que Zigmunt Baumann fala, pois, no caso brasileiro, vemos hoje que a maioria das grandes editoras já não são brasileiras mais, adquiridas que foram por empresas espanholas e francesas, principalmente. Agora é a vez das universidades... e depois? O que mais interessará aos grandes investidores internacionais?

Estranho país este nosso...

Ao mesmo tempo em que liberta o conhecido sr. Paulo Maluf, alegando “dó, pena” do cidadão constrangido por ser idoso e estar aprisionado junto com o filho... a Justiça brasileira: Depois de quase duas horas e meia de um julgamento a portas fechadas em Campinas (SP), a ex-bóia-fria Iolanda Figueiral, 79, doente terminal de câncer de ovário e de intestino, e seu filho, Carlos Roberto de Almeida, 40, foram condenados a quatro anos de prisão em regime fechado. Iolanda não tem mais do que 6 meses de vida. Não estou discutindo o suposto crime em que ela foi envolvida (apesar de ter certeza de que não causou mais estragos ao país do que a roubalheira do Maluf), mas me perguntando se a venda que cobre os olhos da Justiça está desatada... Tem horas que ela enxerga, tem horas que não... estranho, muito estranho...


Falam amigos e amigas
1. Ricardo,

Adorei saber pelo boletim que seu livro será lançado. Com certeza vou adquirir um!!!
Outra boa notícia é a especialização coordenada pela Mônica Liz (excelente professora). Com a competência dela, com certeza o curso será um sucesso... Pena que não poderei pensar nisso agora (como já lhe disse, estou na direção da escola, e meu tempo está super escasso... não dá pra estudar). Fica para uma próxima.
Um abraço,Regina Celia

2. Querido Ricardo, muito bacana o curso de pós que você e os outros montaram, sucesso!
Parabéns também pelo livro, espero a noite de autógrafos.
MARINA

3. Oi, Ricardo.
Parabéns pelos seus novos projetos. Desejo que tanto o livro "História de Minas Gerais" como o novo curso de pós-graduação tenham muito sucesso.
Beijos,
Lucila

4. O Boletim errou...
Será realizado de 6 a 7 de março de 1006, na Fafich-Ufmg, o II Simpósio Escravidão e mestiçagem - histórias comparadas.
Mais informações em http://email.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=jPk8mPqPg/dDK588%2BhT8yWQm4pcfKSMehLYorBrEz28fOyR/z35G%2Bxql9bf3DqA8&Link=http%3A//www.escravidao.cjb.net/

O Boletim errou... agradeço ao Guilherme Souto a atenta observação. A data do Simpósio, claro, é de 6 a 7 de março de 2006 e não de 1006...

5. Meu querido Prof. Ricardo,
Fiquei muito feliz com as NOVIDADES do último boletim, lançamento de obra e a pós-graduação.Quanto a pós-graduação, já liguei na Estácio de Sá e farei minha inscrição semana que vêm, quanto ao livro me informe onde posso encontrá-lo.Tenho certeza de que será um sucesso, uma vez que competência, dedicação, conhecimento e principalmente amor à História não faltaram.
Ps: Assim que comprar o livro faço questão de uma dedicatória.
De sua aluna e admiradora
Rosiane

6. Parabéns, menino... Torço pra que tudo seja um sucesso: o livro, a pós,você, enfim.
Tô pondo no ar um site novo, quando o teu livro for pras livrarias, me avisa, que vou colocar anúncio dele no site, ok?
Parabéns, beijo.


7. Prezado Prof. Ricardo,
Aproveito a ocasião para lhe parabenizar pelo novo livro. Mais um para a coleção vasta e de grande qualidade dos seus escritos que nos fazem aprender mais e mais desde há muito tempo.
Parabenizo-o também pela iniciativa do Curso de Pós-Graduação na Estácio de Sá em BH. O patrimônio histórico brasileiro e o mineiro, em especial, agradecem mais essa brilhante iniciativa de sua parte e da Profª. Mônica Liz. Com vocês à frente, juntamente com o restante do corpo docente, certamente será um Colosso!!!
Estarei chegando em Brasília, se Deus quiser, no dia 6 de dezembro, próxima terça-feira, pra passar o fim de ano. Gostaria de dar uma passada em BH para revê-lo, assim como aos colegas de faculdade, e também aproveitar o ensejo para fazer "contatos" e conversar consigo sobre as perspectivas de trabalhos e projetos em Belo Horizonte.
Um grande abraço do aluno
Rodrigo Dominguez

8.
Ricardo fico feliz em ter ótimas notícias suas....
Quem sabe vc não vem a Diamantina em 2006 para uma noite de autógrafos.
Também tenho trabalhado bastante, estou super feliz, tive um projeto aprovado pelo Governo Federal: Programa ponto de Cultura: A idéia é um ponto de Cultura itinerante, um furgão adaptado que captará imagens sobre o Vale do Jequitinhonha e projetará filmes nos lugares mais distantes. A faculdade esta em festa e eu super feliz ....
Super bacana a pós-graduação, adorei o tema.
Um abraço,
Parabéns,
Patrícia Porto de Oliveira

Patrícia, a nossa ida a Diamantina será um prazer muito grande! Vamos combinar a data!

9. Ricardo...
Obrigado pelo carinho de sua atenção!... Naveguei pelo seu Blog, e fiquei encantada com a riqueza de matérias e, mais ainda, com esta sua atenção ao público cibernético. Parabéns! Depois voltarei lá, com mais calma, para ler alguns artigos. Muito legal!
Adorei o seu "comercial" da minha assessoria. Com certeza, neste Blog tão aplaudido e visitado, ele tem tudo para trazer-me resultados. Meu maior problema é alcançar o pós-graduando, meu cliente potencial. O desafiante, é que trata-se de um público mutante e sem rosto definido, concorda? Daí, que toda divulgação é pouca. E todo final de ano eu me empenho, de forma redobrada, para expandir estes contatos.
Valeu demais seu apoio! Gracias... Muchas gracias, meu amigo!...
E mil beijos
Leila

10. Olá Ricardo,
Parabéns, realmente é muito importante trabalhos como este...você como sempre contribuindo para o conhecimento da História de Minas!
Beijos, Renatinha, diretamente de Brasília

11. Prof. Ricardo,
Parabéns pelo livro!! Desejo muito sucesso para vocês.
Aproveito para desejar também um Feliz Natal e um Lindo Ano Novo com muita saúde, alegria e luz para você e sua família.
Um grande abraço,
Rose

Obrigado a todos que se manifestaram. Espero que gostem do livro (aqueles que o adquirirem) e do curso (aqueles que o fizerem).


Brasil

Como eu disse, dois artigos a respeito da universidade brasileira. No primeiro, uma boa notícia para quem fez seu mestrado, seu doutorado e anda às voltas com a dificuldade de arrumar emprego. No segundo, a nota preocupante: entidades internacionais, voltadas para o lucro acima de tudo, começam a se interessar pelas universidades privadas brasileiras. Onde isso irá parar?

03/12/2005
Lula anuncia concurso para seleção de 4 mil professores universitários

por Lana Cristina (do site Inter.net.Brasil)
O governo vai realizar concurso para seleção de 4 mil professores universitários. O anúncio foi feito ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Santo André (SP), ao lançar a pedra fundamental da Universidade Federal do ABC, recém-criada pelo governo federal. Lula acrescentou que na próxima semana haverá uma reunião ministerial para tratar de educação e que o ministério detalhará, na quarta-feira (7), como será a seleção dos docentes.Em seu discurso, depois de enaltecer a importância da educação no desenvolvimento do país, Lula destacou programas governamentais como o Universidade para Todos (ProUni) e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem).
Ele disse que o ProUni deu a 112 mil estudantes carentes a oportunidade de conseguir vaga em uma universidade particular, com direito a financiamento das mensalidades. "Desse total, 38 mil são negros, fato inédito na história do país, e 1,2 mil são indígenas", afirmou.
Já o ProJovem, observou o presidente, atenderá neste ano 200 mil pessoas de 18 a 24 anos, que não terminaram o ensino fundamental. "É o maior de todos os programas educacionais de meu governo", destacou. Os jovens selecionados estudam, recebem ajuda mensal de R$ 100 e prestam serviço comunitário na sua vizinhança.
O presidente citou as universidades recém-criadas pelo governo, como a do Paraná, a do Recôncavo Baiano, a de Dourados (MS) e a do ABC (SP). E destacou a localização deles, longe das capitais, além do investimento na criação de escolas técnicas. Segundo Lula, em breve serão mais 32 dessas escolas. "Com as universidades, as cidades recebem desenvolvimento. Com esse megaprojeto educacional, isso vai permitir que o Brasil saia do status de exportador de soja ou minério de ferro e passe ao de um país exportador de inteligência", afirmou.
O presidente defendeu que os professores tenham um salário justo e que haja uma política de adequação salarial, "algo que não foi feito nos últimos 20 anos". A única crítica foi para o programa chamado Progressão Automática, pelo qual o aluno não é avaliado por meio de testes para cursar o ano seguinte. "Não tem um momento em que a gente pára para pensar se o aluno está aprendendo", comentou.Ele lembrou ainda que o mundo globalizado está exigente e que, por isso, o aluno tem que ser exigido. "Eu quero que a gente seja rígido para disciplinar os alunos, isso é garantia de que o aluno vai ter um futuro decente", disse. E concluiu afirmando que "o futuro da nação depende da qualidade da educação".


2. Grupo dos EUA compra a Anhembi Morumbi

ANTÔNIO GOIS, da Folha de S.Paulo, no Rio FÁBIO TAKAHASHI, da Folha de S.Paulo

Um grupo educacional dos Estados Unidos vai assumir o controle da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo. A Laureate anunciou ontem que comprou 51% da participação da universidade paulista. Até então, só uma instituição de ensino superior no Brasil, a Faculdade Pitágoras, de Minas Gerais, tinha como sócio um grupo estrangeiro.

A transação da Anhembi Morumbi e da Laureate, no entanto, será a primeira no Brasil em que um grupo estrangeiro terá controle majoritário da instituição, já que, no caso da Pitágoras, o grupo Apollo (também dos Estados Unidos) divide o controle com o sócio brasileiro (cada um tem 50% de participação no negócio).

"Com 51%, o grupo terá o poder de decisão na universidade", afirma o consultor de ensino superior Carlos Monteiro.

De acordo com a notícia divulgada no site da Laureate, o valor da transação foi de US$ 69 milhões (R$ 158 milhões).

A Anhembi Morumbi possui 25 mil alunos de graduação. A universidade é a 22ª maior entre as 1.859 instituições de ensino superior do país, segundo o último levantamento divulgado pelo MEC (Ministério da Educação).

Ao justificar a aquisição do controle da Anhembi Morumbi, o grupo Laureate afirma que "o crescimento da economia e o histórico de propriedade privada no setor fazem do Brasil um atrativo mercado" e cita o país como "um dos maiores mercados de ensino superior do mundo". O texto ainda lembra que mais de 70% dos estudantes universitários estudam em instituições privadas.

O reitor da Anhembi Morumbi, Gabriel Mário Rodrigues, não foi encontrado ontem pela assessoria de imprensa da instituição para comentar a notícia. No texto divulgado pelo grupo estrangeiro, ele afirma que a aliança criará "novas oportunidades" e "trará uma grande diversidade cultural e acadêmica de oportunidades para a Anhembi Morumbi".

Debate

A entrada de grupos estrangeiros no ensino superior brasileiro é polêmica. O ex-ministro da Educação Tarso Genro, ao defender o limite de 30% do capital externo no setor, afirmava que a educação é estratégica para o desenvolvimento do país, por isso ela não poderia ser controlada por empresas internacionais.

Posição parecida tem o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Gustavo Petta. "É por meio da educação que se formam os valores do nosso povo. Ela não pode ficar à mercê dos interesses estrangeiros."

Já o consultor Carlos Monteiro afirma que a entrada de grupos internacionais no setor é benéfica. "Injeta um grande capital na instituição, o que pode melhorar a qualidade de ensino."

João Cardoso Palma Filho, especialista em políticas educacionais e coordenador do grupo da Unesp que analisou a reforma universitária, também apóia as parcerias. "Com esse dinheiro, as universidades privadas podem aumentar a pesquisa, que é ainda deficitária no setor."


3. Persiste o problema...continuamos de costas para a América Latina, como se não fizéssemos parte dela.. A revista Ciência Hoje discute o assunto, baseando-se em dissertação de mestrado de Alexandre Barbosa.

Soy indiferente a ti, América
Estudo aponta imenso vácuo na cobertura jornalística brasileira sobre países latinos

A grande mídia brasileira dá pouco destaque para assuntos latinos em comparação com temas europeus e americanos. Isso é o que aponta o jornalista Alexandre Barbosa em sua dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo (USP). O jornalista indica também uma preferência por notícias de uma ‘América Latina Oficial’, representada pelas elites brancas.

Barbosa analisou estudos anteriores sobre o tema e constatou que a América Latina costuma ganhar importância no noticiário brasileiro quando ocorrem escândalos políticos ou catástrofes naturais. Outros temas também abordados são o futebol e o narcotráfico. O jornalista ressalta que a cobertura é tão rara que quase sempre é acompanhada por um boxe trazendo informações sobre o país ou a região do acontecimento. “A América Latina é uma grande incógnita”, afirma em seu trabalho.

O jornalista também fez entrevistas com editores de grandes jornais e revistas e de veículos alternativos. “Eles quase sempre justificavam a falta de espaço alegando que o grande público não se interessa por assuntos latinos, mas a questão vai alem disso”, diz. “As populações excluídas no Brasil e nos países vizinhos são muito semelhantes, logo há um interesse mútuo em saber o que acontece com o outro.”

A precariedade do ensino de história nos cursos superior e médio do país e o preconceito por parte de jornalistas e da população em geral devido a uma herança histórico-cultural problemática são, segundo ele, motivos que podem explicar esta situação.

Para Barbosa, uma história oficial elitista, que eleva heróis como Duque de Caxias, comandante-chefe das forças brasileiras na Guerra do Paraguai, só colabora para o aumento do preconceito. “A questão é tão complicada que o brasileiro não se considera latino”. Barbosa conta que, quando anunciou a amigos sua pesquisa, muitos indicaram para uma entrevista conhecidos mexicanos, chilenos, entre outros. “Eles esqueceram que também são da América Latina.”

Devido à complexidade de seu objeto de estudo, Barbosa resolveu dividir a América Latina em duas, a ‘oficial’ e a ‘popular’. A oficial é a representada pela população branca, europeizada, das classes dominantes e das metrópoles, enquanto a popular é formada pelas populações mestiças, do interior de cada país. O jornalista afirma, porém, que dentro de uma mesma cidade podem ocorrer essas divisões. “No Rio de Janeiro, por exemplo, há uma América Latina oficial elitista, mas há também favelas, que são extremamente populares.”

A cobertura feita pela grande mídia no Brasil, segundo o jornalista, é da América Latina oficial. Ele diz que as agências de notícias, muitas internacionais, são as maiores responsáveis por esse fenômeno. “Elas padronizam a cobertura jornalística dos meios de comunicação e, por fazerem uma cobertura à distância dos fatos, tendem a ser parciais”, avalia Barbosa.
Para mudar esta situação, Barbosa defende um curso de jornalismo com cargas teóricas maiores e com conteúdos históricos regionais mais aprofundados, além de uma reformulação do ensino de história no segundo grau. Para os já formados, ele sugere que saiam da inércia e busquem conhecimentos mais específicos sobre a cultura e a história latina. Isso iria diminuir a carga de preconceitos e contribuiria para uma cobertura mais precisa. “Além disso, é uma forma de se atualizar, até para manter o emprego no mercado de trabalho de hoje em dia.”
Júlio MolicaCiência Hoje On-line


3. Esta notícia foi, realmente, de embrulhar o estômago!
DIREITA SANGUINÁRIA
CPMI da terra, a mídia e os métodos da direita no Brasil
Por Marcelo Salles

Assistir a reunião da CPMI da terra também serviu para entender como a direita brasileira é profissional, competente, fria e calculista. Mesmo diante dos discursos inflamados dos deputados do PT e do PSOL a favor da vida, a favor dos direitos humanos, os parlamentares de direita nem sequer esboçaram reação. Leia http://www.novae.inf.br/pensadores/terra_midia.htm


4. Gostei muito da frase de Balzac nesse contexto...
A demagogia eleitoreira de FHC
Por Altamiro Borges
O ex-presidente é um vaidoso crônico. Se pudesse, postularia ser Deus! Ele não pára de se gabar – e, como ensinou Balzac, “quem se jacta muito de seus feitos é porque poucos feitos têm para se jactar”.Leia http://www.novae.inf.br/pensadores/demagogia_fhc.htm

5. José Paulo Kupfer, do site No Mínimo, questiona o resultado ainda pífio da economia brasileira, que continua a seguir o receituário do FMI graças ao seu fiel vassalo Palloci.

José Paulo Kupfer
Cadê os fundamentos?No fim do ano, chegará a confirmação de que a evolução da economia brasileira ficou abaixo da metade da média alcançada pelos países emergentes com os quais o Brasil compete. Será a consumação de uma enorme barbeiragem na condução da política econômica. http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.%20presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=44&text%20Code=19758&date=currentDate

Sites


REVISTA PONTES ::..http://email.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=fWSWrq6XxBaRz4OGSsmjtv8eUI3YVBgwi9PdPY2YFoE8JgVm0zlGlw%3D%3D&Link=http%3A//www.revistapontes.cjb.net/ - ISSN 1808 6462

CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

NESTA EDIÇÃO, nº 5:

- ENTREVISTADO: PROF. DR. RENATO LUÍS DO COUTO E NETO LEMOS
- O CHILE NA MIRA DOS EUA E DA IMPRENSA BRASILEIRA: A CONSTRUÇÃO DE UM DISCURSO HEGEMÔNICO
- LIVE 8 E OS ATAQUES TERRORISTAS
- PARA ALÉM DE UM PANFLETO- REVISANDO CORPOS: ANEMIA FALCIFORME COMO DEMARCADOR RACIAL
Acesse e envie o seu artigo!
Nas edições seguintes, um deles pode ser o seu


Livros e revistas

1.Nossa Historia nº 26. Dossiê sobre o II Reinado e D. Pedro II. Artigos sobre revolta em Pernambuco em 1820; governo de Floriano Peixoto; tráfico de obras do patrimônio cultural brasileiro; Década de 60: sonhos e mudanças; Os ciganos no Brasil.

2. Historia Viva nº 26. Dossiê sobre Jerusalém. Artigos sobre Mão Tse-tung e sua marcha ao Tibete; A incompreensível vitória alemã no início da Segunda Guerra; O assassinato de Marat; Das entranhas de Potosi, a prata que extasiou a Espanha; A guinada na Bahia com o golpe de 1964; biografia de Cleópatra.

3. Historia Viva Grandes Temas nº 11 – Os Celtas – a historia real de um povo lendário.

4. Historia Viva Temas brasileiros nº 2 – A Igreja Católica no Brasil.

5. Estrada Real – Desbravando os Caminhos do Ouro e do Diamante no Brasil – Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro. Publicação da Empresa das Artes, 208 p. R$ 130,00.

6. A heresia perfeita, de Stephen O´Shea, é um estudo sobre a seita dos Cátaros na Idade Média. Editora Record, 364 p., R$ 43,90.


Eventos

1. Em cartaz, em Belo Horizonte, a exposição sobre os primórdios da propaganda brasileira. No Instituto Moreira Salles, Av. Afonso Pena 737, centro, exceto às segundas-feiras.

2. Henfil do Brasil está em exposição em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil, rua Álvares Penteado, 112, centro. De terça a domingo, de 10 às 21 horas.

3. Concurso para professor
FUNEC convoca concurso para contratação de professoresConcurso preencherá vagas na Educação Básica, no nível de Ensino Médio, nas modalidades Regular, Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional.
A Superintendência Geral da Fundação de Ensino de Contagem -FUNEC, está chamando concurso para provimento de cargos no nível de Ensino Médio, nas modalidades Regular, Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional.
O concurso visa preencher 285 vagas em cargos de níveis superior, médio, fundamental e alfabetizado. A seleção faz parte de uma política de valorização dos funcionários que, através da ampliação do quadro efetivo, busca a melhoria do serviço público municipal e o fim da admissão de pessoal sob forma de "designação" para o exercício de cargos, funções e empregos públicos.
As inscrições podem ser feitas entre os dias 23 de novembro e 7 de dezembro nas agências credenciadas dos Correios de Contagem e Belo Horizonte, ou do dia 23 de novembro a 5 de dezembro, pela internet, no site da FUNDEP. As provas serão realizadas no dia 8 de janeiro de 2006 e o resultado será divulgado ainda no mês de janeiro. O edital do concurso está publicado logo abaixo e, também, no Diário Oficial do Município da próxima semana.
O valor da taxa de inscrição cobrada pelos correios será a mesma da cobrada via internet. Para o nível superior o valor é de R$ 38,00; para o nível médio, R$28,00, e para o nível fundamental, R$ 14,00.
O candidato deve optar por apenas um cargo. Aquele que fizer a inscrição nas agências dos Correios deverá efetuar o pagamento na própria agência recebedora da inscrição. Já o candidato que optar pela inscrição via internet deverá efetuar o pagamento por meio de boleto bancário a ser impresso conforme instruções especificadas no endereço da FUNDEP, no link concursos. As inscrições pela internet somente terão validade após pagamento do boleto, até a data do vencimento, em qualquer agência bancária. O comprovante definitivo de inscrição com horário e local das provas será encaminhado à residência do candidato pelos Correios.
Cargos
No nível superior, são oferecidos os cargos de Técnico Superior em Biblioteconomia I; Professor de Português; Professor de Inglês; Professor de Matemática; Professor de Geografia; Professor de História; Professor de Biologia; Professor de Física; Professor de Química; Professor de Educação Artística; Professor de Educação Física; Professor de Área Técnica - Processamento de Dados; Professor de Área Técnica de Química; Professor de Área Técnica de Segurança do Trabalho.
No nível médio, Assistente Técnico de Biblioteca II; Auxiliar de Secretaria Escolar II; Disciplinário Escolar; Secretário Escolar.
Para nível fundamental e alfabetizado, Auxiliar de Serviços II e Auxiliar de Serviços III.
Os salários variam de R$ 300,00 a R$ 1.027,12.
Pode se candidatar quem comprovar:
a) ser brasileiro nato ou naturalizado, ou cidadão português, ou que foi deferida a igualdade nas condições previstas no parágrafo 1º do artigo 12 da Constituição Federal;
b) estar em dia com as obrigações eleitorais;
c) estar em dia com as obrigações militares, se do sexo masculino;
d)ter 18 (dezoito) anos completos na data da posse;
e) estar em gozo dos direitos políticos;
f) possuir a habilitação exigida para o cargo pretendido;
g) declarar, no Requerimento de Inscrição, que atende às condições exigidas e se submete às normas expressas neste Edital.
Nos links abaixo, os editais do concurso.
Edital Final- Errata

Programa Completo- Caderno de Textos - 1ª Conferência de Educação- Regimento Interno - Funec


4. UFBA DISCUTE A OBRA DE FRIEDRICH ENGELS
Entre os dias 12 e 16 de dezembro, será realizado na UFBA um colóquio acadêmico dedicado à discussão da obra do pensador alemão Friedrich Engels (1820-1895).
PROGRAMAÇÃO 1- 12/12, 9hs: Conferência de abertura: Friedrich Engels, ciência e revolução / Conferencista: Armando Boito Jr (UNICAMP).

2- 12/12, 14/16hs Os estudos engelsianos sobre as revoltas camponesas na Alemanha / Mesa: José Carlos Rui (Revista Princípios)

3- 13/12, 10/12hs: Friedrich Engels: modernização industrial e conflito social no século XIX / Mesa: Aldrin Castellucci (UNEB); Antonio Luigi Negro (UFBA) .

4- 13/12, 14/16hs: Engels e a filosofia / Mesa: José Crisóstomo de Souza (UFBA); Milton Barbosa (Escola Baiana de Medicina).

5- 14/12, 10/12hs: Engels e a crítica da ciência econômica / Mesa: Mauro C.B. Moura (UFBA), Renildo Sousa (UNEB).

6- 14/12, 14/16hs: Engels e a etnologia evolucionista / Mesa: Maria do Rosário Carvalho (UFBA), Ilka Bichara (UFBA).

7- 15/12, 10/12hs: Engels e as ciências da natureza / Mesa: Naomar Almeida (UFBA), Olival Freire Filho (UFBA)

8- 15/12, 14/16hs: Engels e a evolução da Ciência da Guerra no século XIX / Mesa: Muniz Ferreira (UFBA); João Quartim de Moraes (UNICAMP).

9- 16/12, 10/12hs: Friedrich Engels e a abordagem científica dos temas religiosos / Mesa: Elizete Silva (UEFS), Ileana Limonta (UFBA)

10- 16/12, 14/16hs: A contribuição engelsiana à elaboração do marxismo clássico / Conferencista: João Quartim de Moraes (UNICAMP).


5. Programa para quem está entrando de férias: Conheça novos artistas mineiros – pintura, escultura, artesanato. A exposição estará no salão do Tribunal de Contas, na Raja Gabaglia, até o dia 12 de dezembro. Prestigie!!!





Entrevista especial

Zigmunt Baumann fala sobre a impossibilidade de se ter uma identidade no mundo de hoje

Náufragos num mundo líquido

José Castello
Em 1994, um pôster espalhado pelas ruas de Berlim brincava com as dificuldades que temos, hoje em dia, para definir o que é a identidade. “Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia – grega. Seu café – brasileiro. Seus números – árabes. Só o seu vizinho é um estrangeiro”, estava escrito, em tom de pilhéria, mas também de desafio aos alemães. Com a chegada cada vez mais intensa de migrantes árabes, asiáticos, sul-americanos, a xenofobia e o racismo cresciam em toda a Europa. Ainda crescem. Mas os europeus – se é que ainda podemos imaginar um europeu puro – teimam em pensar, muitas vezes, que estrangeiros são os outros.

Em todo o mundo, não só na Europa, as dificuldades são as mesmas. Na forma de uma piada, o pôster espalhado por Berlim já apontava, uma década atrás, para o colapso da idéia de identidade. Falência de uma noção clássica que é, agora, objeto de um livro, “Identidade” (Jorge Zahar Editor, 112 páginas, R$ 19,00) do sociólogo polonês - a propósito, naturalizado britânico - Zymund Bauman. O livro é a transcrição de uma longa conversa, através de e-mails, que o sociólogo travou com o intelectual italiano Benedetto Vecchi. Nela, Bauman trata não exatamente do tema da identidade, mas da impossibilidade de se fixar, hoje, uma identidade, qualquer identidade, e dos perigos mortais que esse esforço envolve.

Não faz muito tempo, a Jorge Zahar lançou também “Vidas desperdiçadas”, brilhante ensaio de Bauman sobre a produção em massa, em todo o planeta, de pessoas não só desprovidas de uma identidade, mas de trabalho, de dignidade, de um chão - “refugos humanos”, como ele prefere chamá-las. Tanto suas teses sobre a falência da identidade, como suas idéias a respeito das vidas humanas desperdiçadas se materializaram, nas últimas semanas, nos violentos protestos de migrantes e filhos de migrantes que se disseminaram por toda a França e países vizinhos.

Bauman é o autor da tese de que o mundo moderno e globalizado de hoje - em fragmentos, inconstante, frágil - se tornou “líquido”. As fronteiras se esfacelaram, as seguranças se dissolveram, e vivemos, em conseqüência, à deriva, com a mesma perplexidade dos náufragos. Tal liquidez atinge não só a vida cotidiana, mas também a vida privada. A idéia está exposta em outro livro perturbador, “Amor líquido”, já lançado no Brasil pela mesma Jorge Zahar.

Se vivemos em um mundo líquido, no qual os limites se evaporaram e as fronteiras se esgarçaram, como pensar uma idéia como a identidade, que inclui, ao contrário, limites, segurança e nitidez? No entanto, “ter uma identidade”, ou conservá-la a qualquer preço, se tornou a grande obsessão do mundo moderno. Essa obsessão se manifesta não apenas no fundamentalismo xiita do mundo islâmico, mas também no fundamentalismo cristão do presidente Bush. Nenhuma parte do mundo a ela está imune.

Zygmunt Bauman, que completa oitenta anos de idade agora em dezembro, nasceu em uma família judia polonesa. Na Segunda Guerra, lutou contra o nazismo. Depois da invasão soviética na Polônia, nos anos 50, e influenciado pelo pensamento do pensador italiano Antonio Gramsci, afastou-se da ideologia oficial soviética. Refugiou-se na Inglaterra, onde ainda hoje vive, e se naturalizou inglês. Continua a dar aulas na Leeds University. Também por e-mail, Bauman conversou com NoMínimo a respeito de seu esforço para repensar um mundo que se mostra, cada vez mais, obcecado pelas verdades fixas e pelos dogmas e que, em conseqüência, se torna cada vez mais resistente ao pensamento.

A convulsão social na França, em que migrantes ou filhos de migrantes desesperançados partem para a violência para exigir seu lugar na república francesa, confirma, ou ao contrário desmente, suas teses a respeito da idéia de identidade?

Por que desmentiriam? Os revoltosos franceses são pessoas que tentam se tornar diferentes daquilo que são, sujeitos que passaram a se sentir inseguros a respeito do que são, inseguros a respeito do que gostariam de ser e do que podem ser. É uma equação cheia de variáveis desconhecidas! Eu já disse muitas vezes que essas “batalhas de reconhecimento”, em que grupos sociais exploram os limites de resistência do adversário e, também, as dimensões do território sobre o qual podem avançar, essas lutas tendem a se tornar uma norma, e não mais uma exceção, no mundo de hoje. O caso francês repercute com mais força na opinião pública só porque tem dimensões dramáticas e espetaculares, e também por causa de sua dimensão étnica (racial?) e religiosa. Mas, na verdade, o que ocorre na França é só uma continuação de tantas “batalhas de reconhecimento” rotineiras travadas hoje em diferentes frentes sociais e em diferentes fronteiras.

Em nossa “modernidade líquida”, como o senhor a chama, as identidades fixas se tornam cada vez mais irreais e inoperantes. No entanto, “ter uma identidade” se tornou, no mundo de hoje, uma verdadeira obsessão.

De fato, dadas as condições líquidas do mundo moderno, ter uma identidade fixa se tornou um projeto sinistro e, mais que isso, uma terrível ameaça. Veja a grande contradição em que estamos confinados! “Ter uma identidade” significa estar claramente definido, inclui continuidade e consistência. Mas, ao mesmo tempo, nas condições fluidas do mundo de hoje, almejar continuidade e consistência se tornou uma estratégia suicida e fracassada.

A idéia de identidade ganhou importância no momento em que tanto a noção de individualidade como a de coletividade começaram a falhar. Mas a idéia de identidade carrega, em si, um paradoxo, porque ela tanto aponta para o desejo de uma emancipação individual, como para o de integração a um grupo. Logo, a busca da identidade se dá sempre em duas direções. É uma busca que se faz sempre sob fogo cruzado e sob a pressão de duas forças contraditórias. É uma luta que se torna vã, já que leva os que a travam a navegar entre dois extremos inconciliáveis: o da individualidade absoluta, e o da entrega absoluta. A individualidade absoluta é inatingível. Enquanto a entrega absoluta faz desaparecer todo aquele que dela se aproxima.

Por esse motivo, a busca da identidade gera perigos potencialmente mortais, tanto para a individualidade, como para a coletividade, embora ambas apelem para ela como uma arma de auto-afirmação. A estrada para a identidade é uma rota de batalhas intermináveis entre o desejo de liberdade e o desejo de segurança, caminho, ainda por cima, assombrado pelo medo da solidão e o pavor da impotência. Por esse motivo, a “guerra pela identidade” é sempre sem conclusão e é, provavelmente, uma guerra sem vencedores, embora a “causa da identidade” possa continuar a ser ostentada.

A expansão do fundamentalismo religioso parece ser um efeito dessa obsessão pela identidade na esfera de massa.

Mark Juergensmeyer, um professor da Universidade da Califórnia, já analisou essa intricada mistura de religião, nacionalismo e violência que o mundo de hoje cozinha a fogo brando, mas que, cada vez com mais freqüência, eclode em violência. Existem muitos motivos econômicos, políticos e sociais para isso, é claro, e Juergensmeyer admite isso. Mas existe, também, uma crescente “politização da religião”. Ele estuda a proliferação dessa violência não só entre os Sikhs, na Índia, mas também na Cashemira, no Sri Lanka, Irã, Egito, Palestina, Israel. Lugares em que as fronteiras tribais, ou de classe, são travadas através da religião e o sangue é derramado em nome de valores como a virtude, a piedade e a santidade. Juergensmeyer descobriu, em todos esses lugares, um mesmo padrão fundamental: o que ocorre não é apenas a “politização da religião”, mas também a “espiritualização da política”. Reivindicações não religiosas, no passado expressas em vocabulário marxista, ou nacionalista, tendem a ser, cada vez mais, transcritas para o vocabulário religioso. Ainda que as queixas - o sentimento de alienação, de marginalização e de frustração - sejam basicamente as mesmas.

Professor de religião na Universidade de Salem, o sociólogo Charles Kimball observa que o mesmo fenômeno de “espiritualização da política” se dissemina no vocabulário corrente dos administradores norte-americanos. O presidente Bush, que desenvolveu criativamente uma linguagem introduzida na política americana por Ronald Reagan, costuma falar de um “dualismo cósmico”, que separa as boas nações, lideradas pelos Estados Unidos, das nações do mal. São políticos que acreditam que as influências nefastas de Satã se infiltram em tudo, penetram secretamente tanto os artigos da mídia liberal como as canções de Barbara Streisand.

Nessa visão da política, na qual a Bíblia é lida como uma verdade literal, qualquer dissidência é vista como a ação do Anti-Cristo. Isso não só legitima a intolerância e as formas antidemocráticas, como estimula um crescente autoritarismo que zomba, cada vez com mais veemência, de qualquer apelo para a razão, para o diálogo e para o humanismo.

No mundo líquido de hoje, que lugar sobra para a idéia de liberdade?

A mobilidade e instabilidade que caracterizam o mundo contemporâneo tendem a ser vistas, muitas vezes, como um sinal de liberdade. Pode-se argumentar, no entanto, que ter uma identidade fluida não é exatamente uma prova de liberdade mas, ao contrário, uma submissão obrigatória e interminável a essa guerra de libertação. A identidade deixou de ser um legado confortável, ainda que de difícil manejo, deixou de ser um compromisso “para sempre” com valores que se supõem eternos, para se tornar, em vez disso, uma tarefa sem fim para indivíduos que se sentem órfãos. O que se passa na França não é um caso isolado, é apenas a continuação dessa luta.

Em seu livro, o senhor afirma que a identidade não passa de uma ficção. Que tipo de ficção?

Andrzej Stasiuk, o importante romancista polonês que é um analista sagaz das condições humanas no mundo contemporâneo, sugere que a possibilidade de se tornar alguém é o substituto moderno para as velhas idéias de salvação e de redenção. Outro escritor polonês, Slawomir Mrozek, concorda com a hipótese de Stasiuk. Nos tempos antigos, quando nos sentíamos infelizes, acusávamos a Deus, que era então o gerente do mundo. Para nós, Deus era o culpado de nossa infelicidade, de nossos fracassos, porque não tinha feito seu trabalho a contento. Então, nós o matamos e assumimos a direção da casa. Acontece que a qualidade do trabalho não melhorou com a mudança da gerência...

O sonho e a esperança de um mundo melhor passaram a ser colocados, desde então, em nossos próprios Eus. Não há mais limites para nossa ambição de ter um Eu cada vez maior, e por isso desprezamos todos os limites. Mas será essa tarefa, de inventar a si mesmo e ao mundo, realmente possível? O sofrimento imposto por um mundo limitado foi substituído por um sofrimento, não menos doloroso, provocado pela interminável obrigação de escolher, quando não temos nenhuma confiança nas escolhas que fazemos e nos seus resultados.

Mrozek compara o mundo em que vivemos, a propósito, a um mercado cheio de roupas extravagantes e invadido por uma multidão de pessoas que ali chegam em busca de seus verdadeiros Eus. Todos podem mudar de roupa à vontade, quantas vezes quiserem, o que lhes permite experimentar uma grande sensação de liberdade. Nesse mercado imaginário, podemos procurar pelos nossos próprios Eus, e isso é muito divertido - contanto que o Eu verdadeiro nunca seja encontrado. Porque, se for, se o achamos, a brincadeira termina.

A busca ardente de uma identidade reafirma a inconstância e a precariedade do mundo globalizado. Um mundo que se define pela fraqueza, pela desorientação e pela perplexidade. Como ficam as relações pessoais, em particular as relações amorosas?

Nos tempos líquidos de hoje, e mais do que nunca, todos precisamos das mãos amigas de companheiros leais, de companheiros “até a morte”. Mas compromissos “até a morte” são também assustadores. Compromissos eternos limitam e frustram os movimentos que o desconhecido e o futuro exigem de nós. Contudo, sem compromissos firmes e sem sacrifício pessoal, o amor verdadeiro é inimaginável. A esperança para quem desiste das relações estáveis é a de que a quantidade substitua a qualidade. Toda relação amorosa é frágil, então é melhor ter muitas relações amorosas porque assim sempre terei alguém em algum lugar que estará disponível para me dar a mão, para me compreender e para simpatizar comigo. Eis porque muitas pessoas tentam, hoje, reprimir seus sentimentos. Mas os sentimentos são teimosos, eles não são fáceis de apagar como, por exemplo, os contratos jurídicos.

O mais fácil é sempre romper uma relação. Quando duas pessoas se encontram, cada uma delas traz consigo uma diferente biografia, um passado diferente, que precisam ser conciliados. E a conciliação é impensável sem o compromisso e sem o auto-sacrifício. Minha mulher, Janina, e eu, provavelmente achamos que o auto-sacrifício é mais aceitável do que a hipótese de estar separado um do outro. Mas, para se tornar uma experiência doce, o auto-sacrifício deve estar temperado por um amor profundo. Contudo, o amor profundo pode se tornar um peso, se não for construído com uma dose de sacrifício pessoal.

No mundo de hoje, ainda existe lugar para a esperança?

O professor de filosofia social em Stanford, Jean-Pierre Dupuy escreveu, recentemente, que profetizar, tão acaloradamente quanto se possa, o advento de uma catástrofe inevitável é a única coisa que podemos fazer para tornar evitável uma catástrofe inevitável. Por isso, Dupuy conclui que nós estamos condenados a uma eterna vigilância. Um lapso, um só lapso na vigilância é uma condição necessária para que advenha a catástrofe inevitável. Profetas insistem na iminência desta catástrofe inevitável não porque persigam lauréis acadêmicos, mas porque esperam que o futuro mostre que eles estavam errados. E porque eles não vêem outra maneira de prevenir a catástrofe a não ser a de oferecer suas profecias para que elas possam ser refutadas.

Se não repetirmos a profecia da catástrofe inevitável e não a levarmos a sério, teremos poucas esperanças de torná-la evitável. Portanto, a única coisa que podemos fazer contra este medo crescente é levá-lo muito a sério, descer até suas raízes e continuar o trabalho de dissipá-lo. O século 21 pode vir a ser o século da catástrofe inevitável. Ou pode vir a ser o século de uma nova negociação entre os intelectuais e o povo, um novo laço que possa nos conduzir para a vida. Resta acreditar que a escolha entre essas duas alternativas, entre esses dois futuros, possa ser ainda nossa.

O senhor é freqüentemente acusado de ser um pensador pessimista. O senhor é pessimista?

Não, não sou pessimista. Otimistas são as pessoas que acreditam que o mundo que temos hoje, o mundo em que vivemos, é o melhor mundo possível. Pessimistas, por outro lado, são as pessoas que suspeitam que os otimistas podem estar com a razão... Na verdade, eu não sou nem pessimista, nem otimista. Eu acredito que um mundo melhor é possível. Bem, vamos tratar, então, de melhorá-lo um pouco.

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