Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

29.11.06

Número 067


EDITORIAL

Entre muitos assuntos significativos, escolhi um para ser o tema deste editorial. Trata-se do já velho conhecido processo de precarização do trabalho, tão discutido e comentado por cientistas políticos, historiadores e sociólogos nas últimas décadas. Agora, chegamos ao ponto de até a carreira do professor ser terceirizada, o que implica, é claro, a perda de direitos históricos. A notícia é da Folha de São Paulo de ontem e me foi enviada pela professora Mônica Liz Miranda.

Folha de S.Paulo -

Em crise, escolas terceirizam professor

Só em SP, cerca de 15 mil docentes prestam serviços por meio de cooperativas, o que livra colégios de encargos trabalhistasModelo, que se consolidou há cerca de cinco anos, começa a ser contestado pela Justiça do Trabalho e é criticado por educadores
FÁBIO TAKAHASHI

DA REPORTAGEM LOCAL

A crise no setor particular de ensino fez com que as escolas aplicassem aos professores o mesmo que ocorreu com funcionários de limpeza e segurança: a terceirização. Somente em São Paulo, cerca de 15 mil educadores estão nessa situação.

O modelo, que se consolidou há cerca de cinco anos, começa a ser contestado pela Justiça do Trabalho e é criticado até pelos representantes dos donos de colégios e de universidades.

A terceirização nas escolas é feita por meio de uma cooperativa. A ação é vantajosa para as instituições porque elas se livram dos encargos trabalhistas, como fundo de garantia, férias e décimos terceiros salários.

O Sinpro-SP (sindicato dos professores da rede particular) estima a economia na folha de pagamento em até 50%. As cooperativas falam em 20%.

O lado negativo, afirmam os professores, é que os educadores ficam desprotegidos -não recebem nada se faltarem por doença ou se forem demitidos.Também há problemas pedagógicos, pois os professores não criam vínculo com as escolas, o que aumenta a rotatividade.

"O professor precisa estar envolvido com a instituição, participar do planejamento. Isso não ocorre com a terceirização", afirmou o diretor do Sinpro Walter Alves. "Em geral, as cooperativas servem só para o dono da escola não pagar encargos trabalhistas. Isso distorce o cooperativismo, que visa estimular o empreendedorismo do profissional", diz o advogado do Sinpro, José Sady.

O ensino privado vive crise. De 2002 a 2005, a média de alunos nas escolas básicas particulares de São Paulo caiu 10%. No ensino superior, estão ociosas cerca de 60% das vagas oferecidas nos vestibulares paulistas.

O sindicato dos professores já denunciou à Delegacia Regional do Trabalho em São Paulo 21 escolas na capital paulista e dez instituições de ensino superior por entender que contrataram cooperativas de forma irregular. Não há estudo que mostre quantos dos 7.000 estabelecimentos particulares do Estado adotaram o modelo.

A Federação das Cooperativas Educacionais de São Paulo estima haver 15 mil professores cooperados no Estado.

Para que a cooperativa seja legal, todos os professores devem ter poder de decisão e os lucros precisam ser divididos.

Além disso, não pode haver subordinação do docente ao dono da instituição, pois isso caracteriza vínculo empregatício, o que obriga o pagamento dos direitos trabalhistas.

A Justiça do Trabalho já julgou, em segunda instância, uma ação contra a Faculdade Sumaré, que tem 5.000 alunos e 180 professores (nenhum registrado), em três campi em São Paulo. Na ação, um professor conseguiu provar que era subordinado à escola.

O juiz relator, Salvador Franco de Lima Laurindo, disse que é evidente "que a adesão à cooperativa teve o mero propósito de compor uma simulação destinada a ocultar o vínculo de emprego". A cooperativa e a faculdade recorrem da decisão.

Afora esta lamentável notícia, o boletim tem muita coisa interessante. Na seção Falando de História, a Revolta da Chibata e a persistência do fascismo, em dois artigos que merecem discussão. Na seção Brasil, o debate sobre o desenvolvimento aparece em dois artigos e uma entrevista com o ex-ministro João Sayad. Em outro artigo, Franklin Martins critica as “brincadeiras de colegiais” da oposição, aliás de péssimo gosto; a Conferência de Açailândia sobre o trabalho escravo está presente em dois artigos. Um tema grave para professores é denunciado no artigo “Alunos da escola pública não aprendem História da África” e um tema fundamental da cidadania está expresso no artigo “Racismo e extermínio de jovens”.
Em
Nuestra América, dois artigos sobre o México: o governo “paralelo” de Obrador e a resistência em Oaxaca.
E na seção Internacional, Francisco Carlos Teixeira discute as cada vez menores opções para o fim da guerra no Iraque e Flávio Aguiar faz interessante comparação entre Maria Antonieta e Nancy Pelosi, a nova dirigente do Legislativo norte-americano.


FALAM AMIGOS E AMIGAS

Minha conterrânea, amiga e colaboradora Ana Cláudia me envia esta sugestão:

O jornal O Debate, de Belo Horizonte, publicou um artigo que escrevi sobre o centro-oeste mineiro. Quem se interessar em ler, o link é este: http://www.odebate.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=3758&Itemid=28


FALANDO DE HISTORIA



Franklin Martins, em seu blog, fala sobre a Revolta da Chibata

Em novembro de 1910, os marinheiros dos couraçados Minas Gerais e São Paulo, sob o comando de João Cândido, revoltaram-se contra os maus-tratos de que eram vítimas, assumiram o controle dos dois navios e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro se suas reivindicações não fosse atendidas. Para abrir as negociações, enviaram a carta que se segue ao presidente da República, Hermes da Fonseca. O governo dispôs-se a perdoar os cabeças do movimento e estudar a abolição dos castigos na Armada, se os navios fossem entregues aos oficiais. Os revoltosos toparam, mas o governo não cumpriu sua promessa. Cerca de 600 marinheiros foram presos; a maioria deles, enviada para a Amazônia, não sobreviveu muito tempo. Uma exceção foi João Cândido, batizado de “Almirante Negro”, que viveria até bem tarde. Chegou a ser homenageado, em vida, pelos marinheiros e fuzileiros sublevados em 1964.

Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910

Il.mo e Ex.mo Sr. Presidente da República Brasileira

Cumpre-nos comunicar a V. Ex.a, como Chefe da Nação brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais têm sido os causadores da Marinha brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Ex.a faça aos marinheiros brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir à Nação brasileira. Reformar o código imoral e vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário, que a acompanha.

Tem V. Ex.a o prazo de 12 horas para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada.

Bordo do encouraçado São Paulo, em 22 de novembro de 1910.

Nota: Não poderá ser interrompida a ida e volta do mensageiro.

2. Um bom artigo para ser discutido:

Luís Carlos Lopes

Fascismos líquidos

Os ideais do fascismo líquido penetraram nos sensos comuns, que são os suportes da opinião e da ação social. É possível, como na Alemanha de Hitler, comportar-se de modo fascista sem se ter plena consciência do fato. Basta ser racista, xenófobo, homofóbico, sexista e inimigo do pensamento crítico. - 24/11/2006

BRASIL

1. Diminuir gastos públicos; preservar os lucros privados (Jornal Brasil de Fato)

Governo estuda medidas para promover crescimento econômico. Do cardápio apresentado pelos técnicos do Planalto, constam as velhas fórmulas de reduzir os gastos públicos, cortar impostos e uma nova reforma da Previdência. No entanto, nem uma linha se fala sobre os lucros do setor financeiro com os serviços da dívida, que consomem 42% do orçamento - muito mais que a Previdência e o gasto social.

2. Liszt Vieira

Crescimento sem desenvolvimento?

O debate sobre o modelo de desenvolvimento obrigará o governo a fazer um certo desvio de rota. Será muito difícil manter um crescimento com redistribuição de renda sem alavancar uma política voltada ao setor produtivo, o que exige deslocamento de prioridades e visão em longo prazo.> LEIA MAIS 23/11/2006

3. ENTREVISTA – JOÃO SAYAD -

Economista critica política de juros altos e câmbio defasado. “Ela é exagerada. Ao invés de usarmos uma oportunidade, nós a desperdiçamos”. Para o ex-ministro do Planejamento, o apartheid social representa uma ameaça à democracia brasileira.

4. Oposição em clima de brincadeira colegial

Franklin Martins, em seu blog www.franklinmartins.com.br
22.11.2006 Coluna do iG

A oposição deixou claro ontem no Congresso que está inteiramente perdida. Na Câmara, foi derrotada ao propor a elevação do índice de reajuste das aposentadorias de 5,01% para 16,67%, medida que, se levada à prática, produziria um rombo nas contas públicas de R$ 8 bilhões. No Senado, comemorou em meio a gargalhadas a aprovação do projeto de Efraim Morais (PFL-PB), determinando o pagamento de benefício natalino no “Bolsa Família”. A novidade representa um custo adicional de R$ 700 milhões para o programa.

Nos discursos, os oposicionistas carregaram nas ironias: como pode um governo a favor dos humildes e dos aposentados ser contra medidas que botam mais dinheiro no bolso desses segmentos? Nas rodinhas de parlamentares, deputados e senadores do PFL e do PSDB divertiam-se por julgarem que estavam metendo o PT e seus aliados numa tremenda saia justa. Mas até que ponto isso é verdade? Não será a oposição que está entrando numa fria ao fazer brincadeira com coisa séria?

É bom lembrar que, no caso das aposentadorias, a oposição já tinha logrado aprovar no primeiro semestre o reajuste de 16,67%. Lula vetou-o, com o argumento de que a emenda era demagógica e eleitoreira. Não sofreu qualquer desgaste sério por isso, tanto que venceu as eleições com folga, inclusive entre os aposentados. No episódio, quem ficou mal na fotografia foi a oposição, que apenas montou uma armadilha para seu candidato na campanha eleitoral. Alckmin, que pregava um corte severo nos gastos públicos, foi obrigado, por honra da firma, a defender o reajuste irreal nos benefícios vetado pelo presidente. Ou seja, Lula não perdeu votos, mas Alckmin perdeu discurso.

Alguém acredita que, agora, ao patrocinar a aprovação do 13º benefício, a oposição conseguirá tirar do governo a paternidade do “Bolsa Família”? É claro que não. Ainda estão frescas as seguidas declarações de caciques do PSDB e do PFL contra o programa, muitas vezes rotulado pejorativamente de “Bolsa Esmola”. No máximo, a pirueta natalina passará a idéia de que a oposição não é coerente e, no afã de desgastar o governo, dispara para tudo que é lado. De quebra, dará a Lula oportunidade, mais uma vez, de fazer o discurso da seriedade fiscal.

Bem disse o historiador inglês Kenneth Maxwell, em entrevista recente à Folha de S. Paulo, que o Brasil está precisando de um partido conservador, que se assuma como conservador. Poderia o PFL ser esse partido? Talvez, mas antes precisa abandonar as brincadeiras juvenis do senador Efraim Morais, apoiadas com entusiasmo colegial pela bancada do partido no Senado. Poderia o PSDB ser essa alternativa? Talvez, desde que os líderes tucanos não tivessem vergonha de defender o processo de privatização e de reforma do Estado do governo Fernando Henrique. Na campanha, em vez de travar o debate político, preferiram vestir seu candidato a presidente com um jaleco cheio de logomarcas de estatais. Fizeram mais ou menos o que o senador paraibano fez agora com o projeto do 13º da “Bolsa Família”.

Não dá para entender uma oposição que não defende aquilo em que acredita e ainda morre de dar risadas quando tromba com seu próprio programa.

5. Especial: Conferência de Açailândia sobre Trabalho Escravo
"Carta de Açailândia" traz propostas para acabar com a escravidão

Reunidas na II Conferência Interparticipativa sobre Trabalho Escravo e Superexploração em Fazendas e Carvoarias, entidades de 11 estados divulgam documento reivindicando mais ações na luta contra o trabalho escravo
Para especialistas, fim do trabalho escravo requer medidas estruturais

A íntima ligação entre a persistência da escravidão e o modelo de desenvolvimento adotado no Brasil foi o tema central das palestras realizadas durante o terceiro dia Conferência, em Açailândia (MA)

6. Alunos de escola pública não aprendem História da África

Consulta em três capitais mostra que a formação de professores para essa área continua ineficiente quase quatro anos após a aprovação da lei que inclui no currículo escolar o ensino de história e cultura africana

7. Ariel de Castro Alves

Racismo e extermínio de jovens

A pena de morte está em pleno vigor nas periferias das grandes cidades. As vítimas são jovens, do sexo masculino, pobres, negros. No duelo permanente nas ruas, toda uma geração tem suas vidas ceifadas, num processo sangrento e duradouro. - 27/11/2006

NUESTRA AMERICA

1. "Governo paralelo" toma posse no México (Jornal Brasil de Fato)

Desde 20 de novembro, o México tem dois presidentes. Nesta data, André Manuel López Obrador tomou posse e lançou o "governo legítimo" com 20 propostas que contrariam o interesse da classe dominante. A iniciativa é um protesto frente ao poder institucional que reconheceu Felipe Calderón o vencedor das eleições, mesmo após as denúncias de fraudes*

2. Assembléias populares como mecanismo de pressão

Oaxaca resiste (Jornal Brasil de Fato)

Num estado empobrecido do México, movimentos sociais enfrentam paramilitares e exército e propõem, como alternativa ao governador corrupto, um regime de assembléias populares

* Os vários sentidos da luta popular

INTERNACIONAL

1. Francisco Carlos Teixeira

Para além do aeroporto de Bagdá

Quando planejou a guerra no Iraque, Donald Rumsfeld queria superar a “Síndrome do Vietnã” e mostrar que o poderio militar e tecnológico dos EUA poderia ser usado para alcançar fins políticos. Com o fracasso estratégico, são cada vez menos as opções para pôr fim à guerra. - 22/11/2006

2. Entre Maria Antonieta e Nancy Pelosi

A eleição nos EUA trouxe um novo apelo de mobilização para os neoliberais: ou assumem a posição empenhada de Nancy Pelosi, ou arriscam acabar como Maria Antonieta...

Flávio Aguiar

É, o meu amigo Saul Leblon assistiu a uns filmes, leu uns jornais e soltou a franga da imaginação...

I

"Duas mulheres.

Separadas pelas distâncias da história e os abismos da ideologia elas atraem as atenções de elites e setores intelectuais nos EUA e Europa. Uma delas é a democrata de opiniões contundentes, senadora Nancy Pelosi.A outra é Maria Antonieta, a rainha que perdeu a cabeça na Revolução Francesa de 1789. Liberal à moda antiga, com pendores sociais, eventualmente disposta a colocar focinheira nos mercados para salvaguardar a pele dos cidadãos, Ms. Pelosi será a primeira voz feminina a presidir o Congresso dos EUA, após a derrota republicana nas eleições parlamentares deste ano.

II

A senadora é contra a guerra no Iraque.Nancy Pelosi quer taxar os ricos. Defende o aumento salarial dos pobres. Pretende que o Banco Central tenha metas de emprego e crescimento. Ameaça enquadrar lobbies que monitoram o parlamento como se fosse umamarionete do grande monólogo mercadista. Um dos alvos cogitados por Ms. Pelozi é a indústria farmacêutica. No governo Bush essa indústria desfruta o privilégio de fixar preços dos remédios destinados ao sistema de saúde pública (Medicare, que atende a 1/3 da população), sem que o Estado tenha o direito sequer de contestar ou renegociar as tabelas. Trata-se de um exemplo edificante daquilo que os neoliberais entendem por livre mercado e democracia de um modo geral. Os monopólios privados se locupletam; o que é público se depaupera.

III

Culto à Antoniette.

Ao contrário de Ms. Pelozi, Maria Antonieta sempre ignorou o jogo da política, embora fosse peça-chave dentro dele. Enviada à França para um casamento de conveniências com Luís XVI, a princesa austríaca perderia acabeça na guilhotina da revolução de 1789. Sua história readquiriu certa notoriedade agora, a ponto de alguns críticos arriscarem a emergência de um "culto à Antoniette", naturalmente animado por intelectuais blasés àserviço do status quo.

IV

Camille Paglia.

A professora de literatura da Universidade da Philadelphia é uma das intelectuais que apontam, em artigo recente publicado no "O Estado de S.Paulo", certa nostalgia do ancièn-regime embutida numa série defilmes, livros e documentários que têm Maria Antonieta como personagem central. Parte desse material, como no caso do filme de Sofia Copolla, ("Marie Antoniette"), observa a rainha a partir de lentes de baixadefinição política, que atendem ao relativismo amplamente difundido na cultura pós-moderna.

V

O modo "Antoniette" de encarar o mundo.

Espécie de dasluzette avant la lettre, Maria Antonieta lixava-se para os riscos do desequilíbrio fiscal que devorava a Corte francesa no século XVIII. Ortodoxos da época apelidaram-na de Madame Déficit. Enquanto arealeza disseminava impostos, fome e revolta na tentativa desesperada de se manter no poder, Maria Antonieta desdenhava discussões e agendas de ajustes redentores. Talvez o desfrute cru dos privilégios, do qual erauma virtuose, tenham lhe dado essa intuição realista acerca das relações imiscíveis entre equilíbrio econômico e desigualdade social. Enquanto a disputa por farelos incendiava as ruas de Paris, ela desfilava seus vestidos de seda caríssimos, vaporosa como uma coluna social nos dias de hoje.

VI

"Se não há pão, comam brioches".

Historiadores juram que a frase-símbolo da frivolidade pública nunca foi pronunciada por ela. Mas as palavras colaram nela: Maria Antonieta foi e seguiu sendo o emblema mais lustroso de uma época de autismo social,outra vez em voga entre endinheirados urbi et orbe. Se a ninguém mais ocorre recomendar brioches, há outras receitas na moda. Nos salões do ambientalismo chique, por exemplo. Um pouco à "Antoniette", comemora-sea liderança brasileira no ranking mundial de reciclagem de latinhas de cerveja e refrigerantes. Considerando-se que o título representa a contraface de um país com cadeira cativa entre dez sociedades mais desiguais da face da Terra, estamos diante de um brioche de folha de flandres.

VII

A reciclagem da rainha francesa.

Segundo Camille Paglia, o culto à Antoniette refletiria uma espécie de auto-indulgência das elites face a um cenário de clivagem social infinitamente superior ao abismo entre nobres e plebeus no século XVIII.Quando o único projeto é resistir ao futuro, os acontecimentos da Bastilha servem de espelho para o presente. O espírito "Antoniette" funcionaria assim como ponto de fuga dos endinheirados de todas as cortes contemporâneas, que vêem estreitar-se o cerco da fome, da guerra, da doença, das imigrações e do terrorismo contra seus domínios. Além de aqui e ali eles verem, assustados, os de baixo se erguerem com maior oumenor fúria, maior ou menor organização, como acontece hoje por toda a América Latina.

VIII

Contraponto ao fatalismo linear.

Elegante e igualmente bem-posta na vida, mas discreta nos seus trajes alinhados, Nancy Pelosi adiciona certa dissonância ao autismo social do establishment norte-americano. Naturalmente, não há ecos jacobinos nasua voz. Desde Bill Clinton, os democratas dos EUA, a exemplo do PSDB no Brasil e do trabalhismo inglês, abraçaram o neoliberalismo. Nancy Pelosi é parte da engrenagem. Mas as bandeiras que empunhou na campanha sugerem uma trinca no descompromisso absoluto adotado pelos republicanos, emrelação a seus cidadãos e ao resto da humanidade. "Os EUA", rebate Nancy Pelosi, "têm que ser um farol para o mundo, não somente um míssil". Resta saber se há espaço para a uma reação Iluminista no coração do Império.

IX

O filósofo italiano Domenico Losurdo.

Professor da Universidade de Urbino, membro do comitê do Partito della Rifondazione Comunista, Domenico Losurdo ajuda os fatos com a força dos argumentos. Ele lembra, citando Marx, que um povo que oprime outro não pode ser livre. Haveria, na sua avaliação, uma incompatibilidade visceral entre imperialismo e democracia, mesmo na nação opressora. Se na esfera política a trajetória recente de Bush Jr deixa rastros queemprestam uma consistência ainda que hesitante a essa tese – lembremo-nos do Patriot Act, das denúncias de espionagem contra os cidadãos e da legalização da tortura contra suspeitos de terrorismo etc – no campo econômico as evidências são mais eloqüentes.

X

US$ 2 trilhões foram investidos na guerra do Iraque.

É mais ou menos o equivalente a dois anos e meio de deslocamento integral do PIB brasileiro para os campos de batalha.Enquanto isso, o salário mínimo dos norte-americanos encontra-se congelado desde 1996.Reajustá-lo é uma das bandeiras de Ms. Pelosi e dos democratas. Há insatisfação palpável do eleitor médio com a fatura que o neoliberalismo têm debitado na sua conta. A participação dos salários na renda dos EUAencontra-se no nível mais baixo dos últimos dez anos. O desemprego não é crítico, mas a qualidade do trabalho e o leque dos direitos definham. A fome atinge 35 milhões de pessoas no país, informa pesquisa nacional doDepartamento de Agricultura (cuja divulgação foi adiada por um mês para ajudar os republicanos nas eleições). Ou seja, 12% dos norte-americanos vivem sob permanente insegurança alimentar e 60% deles passaram fomedurante muitos dias ao longo de 200. Motivo: falta de dinheiro. O crescimento da renda não tem acompanhado o crescimento da economia. De 2000 a 2005, a produção norte-americana cresceu 16,6%. A renda do trabalhador aumentou apenas 7,2%. Mas entre os mais pobres a evolução foi ainda pior: seus rendimentos cresceram apenas 3% entre 1989 e 2006. No caso dos ricos, ao contrário, houve um salto de 42% no mesmo período. Desempenho só inferior ao impulso observado na faixa dos endinheirados. Os milionários norte-americanos, 1% da população, contra 12,6% dos pobres, viram seus ingressos aumentarem nada menos que 75% desde 1989. Enquanto isso, fábricas se deslocam para fora do país. Cidades e populações ficam à deriva num mar de desalento e alcoolismo. Em vez de negociar reajustes, o outrora poderoso sindicato United Auto Workers negocia o tamanho das demissões. No momento, sua agenda inclui a barganha de critérios para um corte de 75 mil vagas na Ford Motor Company. Ao arrocho salarial, seguem-se a deterioração das pensões e acrise na saúde pública. A velhice outrora ancorada em aposentadoria feliz e férias em Aruba agora é sinônimo de incerteza social e humana.

XI

China permite guerra sem inflação.

Os EUA tiveram êxito indiscutível em articular seu sistema monetário à expansão da economia chinesa nos últimos anos. Extraíram daí inúmeros benefícios. Sustentaram, por exemplo, a expansão do consumo com baixosíndices de inflação para o conjunto da sociedade. Como um dínamo de correias duplas, a China inunda os EUA de produtos baratos, não apenas bugigangas, mas também automóveis e TVs de cristal líquido, produzidasem grande escala a preços imbatíveis. A China deslocou o Japão e já é o terceiro investidor mundial em pesquisa & desenvolvimento, com 14,8% do total aplicado, contra 31,9% dos EUA e 23,2% da Europa. De cada US$ 100 dólares de insumos injetados no sistema produtivo norte-americano, US$ 25 derivam de importações. Isso explica o déficit comercial gigantesco superior a US$ 780 bilhões este ano. Importações da China e lesteasiático respondem por 41% desse total. Na roldana inversa, os chineses – que já acumulam reservas da ordem de US$ 1 trilhão – compram volumes crescentes de títulos do Tesouro norte-ameriano. Criou-se assim umainteração sistêmica. Os EUA importam preços baratos da China. Os chineses ajudam o governo Bush a cobrir e expandir seus déficits internos e externos. E a exportar "democracia" no pente da metralhadora, sem pressões inflacionárias que possam esfarelar a riqueza financeira concentrada nos diferentes fundos de aplicação.

XII

EUA internalizam a produtividade chinesa.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo observa que essa endogamia internalizou na economia norte-americana os saltos de produtividade extraídos dos trabalhadores chineses, cuja remuneração é uma dezena de vezes inferior à hora/trabalho da mão-de-obra qualificada dos EUA. O resultado disso é o longo ciclo de inflação baixa que embala a pança protuberante dos mercados financeiros na vigília dioturna dos ativos. Grandes monopólios também não têm do que se queixar. Ostentam lucratividade recorde nas triangulações com as filiais chinesas, o que atrai acionistas e investidores de todo o mundo para seus papéis e ações.

XIII

Há um preço para a estabilidade monetária.

Lá como cá, seu preço é instabilidade social. O operariado industrial está desaparecendo nos EUA. Mesmo com todas as concessões relativas à redução de salários, benefícios e promoções, os melhores empregoscontinuam a se evaporar para ressurgir do outro lado do mundo personificados em operários chineses ou técnicos indus. Durante a bolha de expansão da informática, o argumento era de que o mercado vivia umatransição entre o velho e o novo emprego. A culpa era dos velhos assalariados. Estes não reuniam os quesitos necessários à empregabilidade diante das novas condições do capitalismo mundial. Mas a bolha estourou e grande parte das oportunidades de trabalho prometidas – legiões de atendentes de call-centers ou equipes técnicas de CTIs – estão sendo terceirizados continuamente para economias com mão-de-obra barata e adestrada.

XIV

Três bilhões na fila do emprego.

A alta difusão da tecnologia digital associada à queda das barreiras comerciais acelerou essa unificação do mercado de trabalho em todo o planeta nos últimos 15 anos. Entre 1990 e 2000 a oferta mundial detrabalhadores saltou de 1,46 bilhão para 2,93 bilhões. Graças ao ingresso da China, Índia e economias do leste europeu, um grande investidor dispõe hoje de três bilhões de candidatos na fila do emprego para leiloar seu projeto a um custo mínimo de mão-de-obra. Economistas como Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, acreditam que possa levar de 30 a 50 anos para que essa enorme sobra de gente seja "enxugada" do mercado de trabalho planetário. Só depois disso é que os níveis salariais nas economias mais ricas voltariam a ser competitivos, com possibilidade de reabilitação de antigos padrões de renda e benefícios.

XV

Neoliberais imitam Maria Antonieta.

O modo "Marie Antoniette" de olhar a cena histórica assemelha-se um pouco à atitude dos neoliberais face a esse horizonte pouco encorajador. Miram a arena com indiferença enquanto os leões devoram os lutadores ejá lambem os beiços para as arquibancadas. Não há nada a fazer, dizem governantes e consultores associados, exceto render-se aos mercados e aguardar que eles recomponham, "num outro patamar", o equilíbrio que naverdade nunca foram capazes de propiciar em termos de direitos dos cidadãos.

XVI

Democracia versus capitalismo.

O ambiente, porém, pode tornar-se irrespirável antes que sobrevenha um novo ciclo virtuoso. O filósofo Domenico Losurdo nos lembra que a democracia não pode definir-se independentemente dos excluídos. O recado que as urnas enviaram a Bush – e mesmo aos democratas – parece sugerir algo nessa linha, recolocando timidamente a agenda de um velho embate entre mercados e cidadãos. Resta saber como as novas lideranças, aexemplo de Nancy Pelosi, vão lidar com essa trinca na camada de gelo fino sobre a qual se equilibram precariamente os interesses dos mercados e os da democracia. São antigas as desconfianças acerca do convívioamigável entre democracia e capitalismo. Os movimentos em marcha no coração do império talvez permitam avaliar melhor a partir de agora se as relações de vizinhança ainda desfrutam de alguma tolerância ou se oestoque de boas maneiras já se exauriu.

* Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.



NOTICIAS

1. O III Seminário Pronex: Direitos e Cidadania acontecerá entre os dias 27 e 29 de novembro e abordará os seguintes temas: "Dever e direito à memória"; "Política e poder"; "Cidadania, violência e mídia"; "Mídia e reconhecimento de direitos"; "Cidade e cidadania"; "Cidadania e direitos culturais"; "Cidadania e Justiça do Trabalho"; "Movimentos negros e reconhecimento de direitos no Brasil"; "Accountability e responsabilidade social".
Dias: 27, 28 e 29 de novembro

Local: FGV - Praia de Botafogo, 190 – 10º andar - Auditório Bradesco

Programação completa no Portal do CPDOC: JC Online, em 21/11

4. Armas na mochila: escola de Brasília vive dia de medo

Na terça-feira um revolver calibre 32 e uma faca foram encontrados na mochila de uma estudante. As armas pertenciam a dois colegas seus, de 12 e 13 anos, que as usariam para matar um rapaz de 16 anos. Jornal de Brasília, em 22/11

5. Educação latino-americana passa por avaliação

O Brasil e 16 países latinos participaram de um estudo da Unesco sobre o desempenho escolar de alunos de 3ª e 6ª séries do Ensino Fundamental. Todos fizeram provas e responderam a um questionário sobre o ambiente escolar e o familiar. Estadão, em 23/11

6. O jornalista Raimundo Pereira debaterá, na próxima quinta-feira, dia 30, o tema mídia e democracia, no auditório do Conselho Regional de Psicologia (Rua Timbiras, 1532, 6º andar – Lourdes). Colaborador da CartaCapital, Raimundo Pereira foi autor de reportagem publicada pela revista com críticas à cobertura da mídia nas eleições presidenciais deste ano.
Atualmente, é diretor da Oficina de Informações ( www.oficinainforma.com.br), projeto que surgiu em 1997 com a proposta de realizar uma imprensa popular, dedicada à análise dos grandes fatos e idéias correntes. Raimundo Pereira é também editor das revistas Reportagem e Retrato do Brasil. Trabalhou nos jornais Opinião, Movimento e Folha da Tarde e nas revistas Veja, Realidade e IstoÉ.
O debate é promovido pelo Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (SINPRO-MG), Conselho Regional de Psicologia, Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Diretório Acadêmico de Comunicação do UNI-BH e Centro de Estudos Sindicais. A entrada é gratuita. Será emitido certificado de participação.
Debate:
A mídia e a democracia
Data: 30/11/06 – quinta-feira
Horário: 19h30
Local: Auditório do Conselho Regional de Psicologia (Rua Timbiras, 1532, 6º andar – Lourdes)

7. Seminário relembra João Goulart
Seminário nacional "João Goulart: 30 anos de esquecimento"
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Departamento de História
Dias 6 a 8 de Dezembro - Capela Ecumênica da UERJ

8. Uma exposição que é um elogio ao Brasil
"Impressões Originais: A Gravura Desde o Século XV", em cartaz no CCBB São Paulo, mostra, entre outros, parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio, com gravuras de Dürer, Holbein, Cranach, e Callot.
> LEIA MAIS Arte & Cultura 28/11/2006


LIVROS E REVISTAS

1. João Goulart: entre a memória e a história.

Marieta de Moraes Ferreira (org). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 192p.
A figura e o governo de João Goulart têm ocupado um lugar secundário na literatura sobre o golpe militar de 1964. Os principais impasses de seu governo, seu papel no momento do golpe e sua atuação no exílio permanecem obscuros, sem merecer maior atenção de estudiosos e pesquisadores. Esta coletânea é uma excelente oportunidade de começar a conhecer Jango, o personagem político, compreendendo melhor não só seu tempo e seus problemas, mas as questões do Brasil de hoje.
Sumário:
João Goulart: entre a memória e a história Marieta de Moraes Ferreira
Memórias em disputa: Jango, ministro do Trabalho ou trabalhadores?Angela de Castro Gomes
O período Jango e a questão agrária: luta política e afirmação de novos atores Mario Grynszpan
A política macroeconômica e reformismo social: impasses de um governo sitiadoHildete Pereira de Melo, Carlos Pinkusfeld Bastos e Victor Leonardo de Araújo
1964: a imprensa ajudou a derrubar o governo Goulart Alzira Alves de Abreu
João Goulart e a mobilização anticomunista de 1961-64 Rodrigo Patto Sá Motta
Duas paixões meteóricas: UnB e Jango, primeiras notas Helena Bomeny
A Frente Ampla de oposição ao regime militar Célia Maria Leite Costa


2.

Sai nova edição do 'Guia Brasileiro de Produção Cultural' Educar para a Cultura: ao completar treze anos de existência e cinco edições, o guia volta renovado e ampliado, consolidando-se como instrumento de educação e profissionalização da atividade cultural brasileira.

3. Prezados colegas e amigos!Convido todos vocês para o lançamento do livro Democracia e Referendo no Brasil, organizado por Magna Inácio, Raquel Novais e Fátima Anastasia e do qual sou uma dasautoras juntamente com o Paulo Magalhães.Dia 29 de novembro de 2006, quarta-feira Das 19 às 22 horasLivraria Café com letrasRua Antônio de Albuquerque, 781- Savassi - BH - MGInformações (31)34994656 ou 3225-9973Beijos e aguardo vocês!Luciana Santana

SITES INTERESSANTES

1. A página Estante Virtual, tem como propósito a divulgação, na íntegra, de obras produzidas pelo CPDOC não disponíveis para venda, por estarem esgotadas ou por terem sido produzidas para distribuição restrita. Novos livros foram incluídos: "O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise política" e "Militares e política na Nova República".
Acesse: www.cpdoc.fgv.br/producao_intelectual

2. REVISTA HISTÓRICA Nº 16
www.historica.arquivoestado.sp.gov.br

a) Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário Elizabeth Ribeiro Azevedo
http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/materia01/

b) Um discurso sobre o Brasil: uma análise do jornal Minerva Brasiliense - Rio de Janeiro (1843-1845) Lílian Martins de Lima http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/materia02/

c) Quando o homem domina o tempo: a geração beatnik e a gênese de mitos modernos Emilio Cordeiro http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/materia03/

d) Imagens de uma época: John Kennedy http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/imagemepoca/

3. Para quem curte fotografia e é interessado em patrimônio, nada melhor que dar uma olhada nas fotos da exposição Amantes da Fotografia, promovida pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Algumas fotos podem ser vistas no www.nominimo.ig.com.br. É só procurar na coluna da direita, na seção Ensaio e clicar para ver uma dezena de belíssimas fotografias.

4. A revista Estudos, editada pelo Cebrap, agora pode ser lida na internet. Consulte no endereço abaixo:

http://novosestudos.uol.com.br/

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