Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

28.2.07

Número 080



EDITORIAL

Ainda continuamos com o tema da violência. Esta semana, pesquisando, descobri um artigo do Renato Janine Ribeiro, publicado na Folha de Domingo, 18/2. Podemos não concordar muito com o que ele fala, mas pelo menos foi o primeiro intelectual que vi falando coisas sem muita hipocrisia, como sói acontecer...Se você não teve condições de ler, a internet o ajuda:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u68751.shtml

Só um parágrafo para te animar a ler o artigo inteiro:

Se as pessoas merecem morrer, e se é péssimo o Estado se igualar a quem tira a vida de outro, por outro lado é uma tremenda hipocrisia deixar à livre iniciativa dos presos ou aos justiceiros de esquina a tarefa de matar quem não merece viver. Abrimos mão da responsabilidade, que pode ter uma sociedade, de decidir --no caso, quem deve viver e quem merece morrer. Tudo isso traz questões adicionais. É-se humano somente por se nascer com certas características? Ou a humanidade se constrói, se conquista -e também se perde? Alguém tem direito, só por ser bípede implume, de fazer o que quiser sem perder direitos?

Os dados da pesquisa feita pela OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, a Ciência e a Cultura), com apoio do Ministério da Saúde, dão conta de que o número de homicídios nas grandes cidades está praticamente estacionado, enquanto aumenta em cidades do interior do país.
De acordo com a Folha online, “Das dez cidades com maior taxa de mortalidade, quatro estão em Mato Grosso: Colniza (1º), Juruena (2º), São José do Xingu (5º), Aripuanã (8º). De acordo com a Agência Brasil, os outros municípios são Coronel Sapucaia (MS), em 3º, Serra (ES), em 4º, Vila Boa (GO), em 6º, Tailândia (PA), em 7º, Ilha de Itamaracá (PE), em 9º, e Macaé (RJ), em 10º.” A primeira capital a aparecer na lista é Recife, em 13º lugar.
Espantoso? Talvez não...

Bem, neste número, uma contribuição interessante, da minha ex-aluna e agora professora Mara Motta, está logo ai, na seção Falam amigos e amigas. Ela levou os textos que publicamos na penúltima edição do Boletim para a sala de aula e me mandou os resultados. Não deixem de ler.
Em Falando de História, Lamarca, o guerrilheiro apaixonado. Na seção Brasil, os deputados que mamam nas tetas mais gordas e o lançamento de um programa de rádio sobre o trabalho escravo.
Em Nuestra América, dois artigos discutem o interesse dos Estados Unidos se associarem ao Brasil para a produção do etanol. Há argumentos favoráveis e contrários. Opine também! E na seção Internacional, Kofi Anan propõe a “aliança das civilizações”. E há as Notícias e os Livros e Revistas.
Um abraço.


FALAM AMIGOS E AMIGAS

Minha ex-aluna e agora colega Mara Motta me enviou email relatando o resultado do trabalho feito com os alunos dela... Valeu, Mara!!!

Professor Ricardo,
Receber o Boletim Mineiro de História semanalmente é um privilégio!
Leio regularmente o Boletim, levo as informações para os meus colegas de trabalho e para os meus alunos.
A proposta de debater sobre a violência, foi levada na íntegra para as turmas de 3º período da EJA da E.M. Vicente Estevão dos Santos. Após a leitura do material e discussão em sala, vários alunos se manifestaram por escrito. E na minha opinião atitudes como: o Boletim, a proposta do debate, a divulgação entre diferentes setores da sociedade significam formar cidadãos críticos e participativos.
Professor Ricardo, parabéns pela iniciativa.
Um forte abraço, de sua sempre aluna, Mara Motta.

A seguir, a manifestação dos alunos.

Indignação

Eu, meio indignado.
Nós, cidadãos indignados.
Todo o mundo indignado.
E ninguém faz nada para mudar.
Infelizmente somos peça de uma bomba relógio.
Marcando os minutos para explodir. Daqui a alguns minutos,
Horas, dias, anos. Quem sabe?
O que vai acontecer com o mundo?
E ninguém faz nada.
Marcos Sander.

A “coisa” está tão grave, que fico em cima do muro. Menores matando, roubando, traficando, violentando... Nesses momentos acredito na maioridade aos dezesseis anos. Porém estes menores servem de escudo para o crime organizado. É muito complicado.
Girlerno Ferreira.

Devido aos acontecimentos que diariamente aparecem na imprensa, acredito que as autoridades deviam rever o Estatuto da Infância e Adolescência. Os jovens roubam, assassinam em troca de qualquer coisa e ainda a mandado de adultos. Acredito que as autoridades deveriam fazer os jovens assumir responsabilidades.
Roncále Ângelo de Souza

Na minha opinião, a maioridade aos dezesseis anos é um assunto polêmico. Tanto é que o Brasil inteiro quer opinar. Acredito que a opinião de cada um é uma atitude relevante aos acontecimentos que agravam a cada dia. Eu acho que qualquer adolescente com dezesseis anos sabe muito bem o que está fazendo.
Antônio custódio de Abreu

Sou a favor da maioridade aos dezesseis anos. Por que os adultos usam os jovens para cometer crimes, mas os jovens sabem muito bem o que fazem. Mas os pais têm uma parcela de culpa, junto com os Direitos Humanos. Os pais devem manter os valores nos quais acreditam e punir seus filhos sem ter que se preocupar com Direitos Humanos, dentro da família quem estabelece as regras são os pais.
Eunice R.S.R.

Sou a favor da maioridade aos dezesseis anos. Menores cometem crimes, não são punidos como deveriam. Se está punição acontecesse talvez estes jovens aprenderiam a lição.
Anderson Duarte Alves

Sou contra a maioridade aos dezesseis anos. Precisamos lembrar que muitos jovens são vítimas de adultos.
Aloísio de Souza Barbosa


FALANDO DE HISTORIA

EXCLUSIVO
O guerrilheiro apaixonado
As cartas escritas pelo capitão Carlos Lamarca à sua amada Iara Lavelberg dias antes das trágicas mortes de ambos, em 1971, revelam o lado passional de revolucionário implacável. Nos textos, demonstrações de afeto, ciúme e a amarga constatação do quanto a distância da companheira o torturava.
Leia em: http://www.terra.com.br/istoe/1948/brasil/1948_guerrilheiro_apaixonado.htm


BRASIL

1. Deputados que mamam numa teta mais gorda
www.tamoscomraiva.blogger.com.br

O deputado José Janene, do PP paranaense, vai desaparecer da vida política do Brasil. Mas, não se enganem: ele não foi cassado, como esperaríamos no final do ano passado. Nem sofreu um ataque cardíaco, como dois médicos -- camaradas do deputado -- confirmaram ser possível. Ele apenas conseguiu uma aposentadoria na Câmara dos Deputados, que vai lhe render, por mês, um ganho líquido de R$ 12.847,20. O valor mais alto entre as 13 aposentadorias de deputados que aconteceram apenas desde o dia 15 de janeiro deste ano.
Ele alegou ter sérios problemas cardíacos, atestados por três juntas médicas do próprio Congresso. Quem autorizou sua despedida foi Aldo Rebelo (PCdoB-SP), um dia antes de ceder a presidência da Câmara para Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ou seja, Aldo também se despediu de seu trono fazendo uma boa ação.
Vale a pena a gente relembrar certas coisas sobre Janene, para tentar comprovar seu merecimento. A CPI do mensalão incluiu seu nome entre os 18 deputados acusados de participar do esquema do mensalão. Ele não apenas participou, mas foi acusado de ser um dos mandantes da quadrilha. E de receber R$ 4,1 MILHÕES no valerioduto. Custou a ser julgado pela CPI, porque vivia em licença médica. E, no dia do que seria sua cassação, foi beneficiado pela crise dos aeroportos, porque vários deputados chegaram atrasados ao Congresso e a sessão não teve quórum. Assim, foi absolvido, mesmo tendo recebido 210 votos a favor de sua cassação (o mínimo necessário seria de 254).
Além disso, no final do ano passado, o Ministério Público denunciou o deputado por crimes contra a ordem tributária. O MP descobriu irregularidades nas declarações de imposto de renda de Janene, entre 1996 e 1999. Sua dívida com os cofres públicos somaria R$ 5,7 milhões. O que pareceu irregular ao MP? O fato de muito dinheiro não ter sua origem comprovada. Realmente, é estranho o fato de, num espaço de dez dias, em dezembro de 2003, Janene e a mulher comprarem três carrões -- um Mitsubishi de R$ 83 mil, um Audi alemão A4 de R$ 173 mil e um Audi A3 no valor de R$ 65 mil. Esses, além dos outros dois que já tinham comprado no mesmo ano: a picape Chevrolet S10 Executive de R$ 74 mil e a picape Ford F-350 por R$ 48 mil. Mas não podemos nos esquecer da compra de 11 fazendas no curto período de dois anos, entre 2003 e 2004. Juntas, essas propriedades foram avaliadas em 7 milhões de reais. Nem com salário de deputado...
Talvez por isso 200 famílias do MST tenham escolhido justamente uma fazenda de Janene para ocupar desde setembro do ano passado. Mas se meteram com o cara errado! Em 16 de janeiro deste ano, o deputado contratou 30 pistoleiros para arrancar à força os sem-terra de sua fazenda. Sorte que ninguém ficou ferido, porque senão o deputado teria que acrescentar mais um processo à lista de 13 ações civis públicas que já enfrenta na justiça paranaense. Isso, além dos 11 inquéritos e uma ação penal em andamento no Supremo.
Realmente, José Janene merece ganhar a mais alta aposentadoria do Congresso, de R$ 12.847,20 por mês. Talvez assim nossa casa legisladora diminua seu índice de corrupção...
Agora, vamos aos outros 12 deputados que resolveram mamar com sossego nas tetas da União. Lembrando que, ao todo, os 13 recém-aposentados vão trazer um gasto de R$ 94 mil mensais à Câmara.
São eles: Alberto Goldman (PSDB-SP) - 26% do vencimento mais 11/35 do vencimento
Alceste Madeira de Almeida (PMDB-PR) - 26%
Alceu de Deus Collares (PDT-RS) - 39% mais 8/35
Benedito de Carvalho Sá (PSB-PI) - 26% mais 8/35
Chico Vigilante (PT-DF) - 26% dos vencimentos (IPC)
Iberê Paiva Ferreira de Souza (PSB-RN) - 52% (IPC) mais 12/35 (regra atual)
Jairo Carneiro (PFL-BA) - 39% mais 8/35
João Hermann Neto (PDT-SP) - 32,5% mais 8/35
José Janene (PP-PR) - vencimento integral (invalidez)
Nilton Gomes Oliveira (PP-ES) - 26% mais 8/35
Paulo Delgado (PT-MG) - 39% mais 8/35
Romel Anízio Jorge (PP-MG) - 26% mais 8/35
Silas Brasileiro (PMDB-MG) - 26% mais 8/35
Dos treze senhores acima, três são mineiros. Talvez o Estado de Aécio Neves crie condições naturais para a picaretagem. Paulo Delgado receberá R$ 7.946,90 mensais. Os outros dois vão ganhar R$ 6.276,77 cada. A regra é clara: se até 1997 os parlamentares deveriam ter 50 anos de idade e pelo menos 8 de contribuição para se aposentarem, hoje precisam ter pelo menos 60 anos de idade e 35 de contribuição. Só tem um detalhe: a maioria dos deputados que se aposentaram agora já tinha direitos adquiridos do antigo Instituto de Previdência dos Congressistas e deve receber proporcionalmente. No Estado de Minas de hoje: "Para fazer as contas da aposentadoria, a Câmara contou o tempo de contribuição dos deputados pelo regime antigo, do Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) e somou ainda a contribuição feita nas legislaturas mais recentes. Quem contribuiu, por exemplo, durante dois mandatos no regime antigo e mais dois mandatos no regime novo, terá aposentadoria de R$ 6.276,77 (R$ 3.340,27 pelas regras antigas e R$ 2.936,50 pelas regras atuais)."
É aí que chegamos aos 94 mil reais mensais gastos pela Câmara...
Só para fechar, por hoje: Juvenil Alves, o mais bem votado deputado federal mineiro, pelo PT, não só conseguiu ser diplomado deputado, como garantiu cadeira em duas comissões permanentes da Câmara (do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia). E na última sexta-feira, largou a sigla do PT. Ele está sob investigação da Polícia Federal, que o indiciou por crimes fiscais, e da Justiça Eleitoral, por suspeita de formação de caixa dois na última eleição. E, daqui pouco tempo, poderá se aposentar tranqüilamente como deputado, saindo ileso, como todos os outros, no grande ralo de sujeira que existe em Brasília.
Definitivamente, aposentar pelo Instituto de Seguridade Social dos Congressistas (ISSC) é muito mais negócio que aposentar pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que paga no máximo R$ 2.800, para quem contribuiu durante 35 anos. Por causa de uma letra diferente na sigla, os beneficiados do Parlamento não têm que se recadastrar em até 30 dias, precisam contribuir por muito menos tempo e levam uma bolada muito maior...

2. Repórter Brasil lança programa de rádio sobre trabalho escravo (clique no titulo)
Programa "Vozes da Liberdade" trará novidades sobre o combate à escravidão e dicas para os trabalhadores efetivarem seus direitos; boletim será distribuído semanalmente para rádios comerciais e comunitárias de todo o Brasil
Ouça o programa "Vozes da Liberdade" (clique para ouvir)


NUESTRA AMERICA

1. Descobri esta semana mais um blog interessante, do Jorge Hori, http://cndpla.blog.uol.com.br/

Indico artigo da mais alta importância, postado por ele no dia 26, segunda passada. Sob o título Novas Estratégias norte-americanas.
http://cndpla.blog.uol.com.br/

2. E a propósito, o jornal Brasil de Fato trouxe um contraponto:

O Mito dos Biocombustíveis
por JPereira — Última modificação 27/02/2007 17:08
Contribuidores: Edivan Pinto, Marluce Melo e Maria Luisa Mendonça

O papel do Brasil - na substituição dos combustíveis fósseis - seria fornecer energia barata para países ricos, representando uma nova fase da colonização.
22/02/2007
Edivan Pinto, Marluce Melo e Maria Luisa Mendonça *

Recentes estudos sobre os impactos causados pelos combustíveis fósseis contribuíram para colocar o tema dos biocombustíveis na ordem do dia. Atualmente, a matriz energética é composta por petróleo (35%), carvão (23%) e gás natural (21%). Apenas 10 dos países mais ricos consomem cerca de 80% da energia produzida no mundo. Entre estes, os Estados Unidos são responsáveis por 25% da poluição atmosférica. Analistas estimam que, dentro de 25 anos, a demanda mundial por petróleo, gás natural e carvão tenha um aumento de 80%.
A aceleração do aquecimento global é um fato que coloca em risco a vida do planeta. Porém, é preciso desmistificar a principal solução apontada atualmente, difundida através da propaganda sobre os supostos benefícios dos biocombustíveis. O conceito de energia "renovável" deve ser discutido a partir de uma visão mais ampla que considere os efeitos negativos destas fontes.
A propaganda do "combustível verde" ou "energia limpa" tem sido amplamente difundida no Brasil. "Usados em substituição aos derivados de petróleo, tanto o etanol quanto o biodiesel se convertem em ferramentas capazes de deter o aquecimento global", afirma texto da revista Globo Rural (Novembro, 2006).

Por outro lado, já existem diversos estudos que contradizem essa idéia. Especialista em genética e bioquímica, a professora Mãe-Wan - Ho, da Universidade de Hong Kong, explica que "os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erroneamente como ´neutros em carbono´, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera; quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia de fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas, dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra-estrutura para distribuição". Para a pesquisadora, os custos extras de energia e das emissões de carbono são ainda maiores quando os biocombustíveis são produzidos em um país e exportados para outro.

Um estudo do Gabinete Belga de Assuntos Científicos mostra resultados semelhantes. "O biodiesel provoca mais problemas de saúde e ambientais porque cria uma poluição mais pulverizada, libera mais poluentes que promovem a destruição da camada de ozônio".
Sobre a produção de etanol, Mãe-Wan - Ho explica que "não foi levada em consideração a enorme liberação de carbono do solo orgânico provocada pela cultura intensiva de cana-de-açúcar que substitui florestas e terras de pastagem que, se fossem regeneradas, poupariam mais de sete toneladas de dióxido de carbono por hectare por ano do que o bioetanol poupa". Além disso, cada litro de etanol produzido consome cerca de quatro litros de água, o que representa um risco de maior escassez de fontes naturais e aqüíferos.

No caso da soja, as estimativas mais otimistas indicam que o saldo de energia renovável produzido para cada unidade de energia fóssil gasto no cultivo é de menos de duas unidades. Isso se deve ao alto consumo de petróleo utilizado em fertilizantes e em máquinas agrícolas. Além disso, a expansão da soja tem causado enorme devastação das florestas e do cerrado no Brasil.
Mesmo assim, a soja tem sido apresentada pelo governo brasileiro como principal cultivo para biodiesel, pelo fato do Brasil ser um dos maiores produtores do mundo. "A cultura da soja desponta como a jóia da coroa do agronegócio brasileiro. A soja pode ser considerada a cunha que permitirá a abertura de mercados de biocombustíveis", afirmam pesquisadores da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. (Revista de Política Agrícola. Ano XIV- nº. 1 - jan/fev/mar. 2005).

O Papel do Brasil

Apesar de não contar com terras agrícolas suficientes para o aumento da produção, a União Européia estabeleceu que até 2010 seus países-membros devem adicionar 5,75% de biodiesel em seu combustível e, até 2015 esta meta seria de 8%. Porém, diversos analistas estimam que além das dificuldades práticas de implementação, dificilmente este projeto alcançaria os objetivos desejados. Segundo a professora Mae-Wan Ho, "se os 5,6 milhões de hectares de reservas da União Européia fossem cultivados com plantas energéticas, pouparíamos apenas de 1,3% a 1,5% das emissões de transportes rodoviários, ou seja, cerca de 0,3% do total de emissões de 15 países."

O governo dos Estados Unidos oferece incentivos fiscais para que a indústria aumente o percentual de biodiesel no diesel comum. Porém, seria necessário utilizar 121% de toda a área agrícola dos EUA para substituir a demanda atual de combustíveis fósseis naquele país.
Neste contexto, o papel do Brasil seria fornecer energia barata para países ricos, o que representa uma nova fase da colonização. As atuais políticas para o setor são sustentadas nos mesmos elementos que marcaram a colonização brasileira: apropriação de território, de bens naturais e de trabalho, o que representa maior concentração de terra, água, renda e poder.
Estima-se que mais de 90 milhões de hectares de terras poderiam ser utilizadas para produzir biocombustíveis. Além disso, a "eficiência" de nossa produção se deve à disponibilidade de mão-de-obra barata e até mesmo escrava. Essas características são difundidas por órgãos governamentais e por alguns intelectuais, que criam a idéia de que a produção de agroenergia traria grandes benefícios.

"Nosso país possui a maior extensão de terra do mundo que ainda pode ser incorporada ao processo produtivo", afirmam pesquisadores da Embrapa. Eles estimam que a produção de biomassa "poderá ser o mais importante componente do agronegócio brasileiro". Em relação à expansão da produção de etanol, concluem que há a "possibilidade de expansão da cana-de-açúcar em quase todo o território nacional".

Atualmente as usinas brasileiras têm capacidade de produzir 800 milhões de litros de biodiesel por ano, utilizados na mistura de 2% ao diesel comum. A meta estabelecida pelas empresas do setor é chegar a um bilhão de litros por ano até 2008, quando a previsão é adicionar 5% ao combustível fóssil.

Análises do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) indicam este tipo de investimento como prioridade e estimam a construção de cem usinas até 2010. Em 2004, o banco investiu R$580 milhões no setor e em 2006, este montante subiu para R$2,2 bilhões. O Brasil produz atualmente 17 bilhões de litros de álcool por ano. Segundo o BNDES, seriam necessários mais oito bilhões de litros somente para atender o mercado interno. Portanto, o banco prevê que o Brasil deve expandir sua produção para outros países. Com a pretensão de controlar 50% do mercado mundial de etanol, o BNDES estima que o Brasil deve chegar a produzir 110 bilhões de litros por ano.

"Apenas na região do cerrado, podem ser disponibilizados nos próximos anos para plantio de grãos mais de 20 milhões de hectares", revela relatório da Embrapa. No Nordeste, segundo os pesquisadores, "somente para a mamona há uma área de três milhões de hectares apta ao cultivo". Eles afirmam ainda que "A Amazônia brasileira possui o maior potencial para plantio de dendê no mundo, com área estimada de 70 milhões de hectares".

Todavia, este produto é conhecido como "diesel do desmatamento". A produção em massa do óleo de palma (como é conhecido em outros países) já causou a devastação de grandes extensões de florestas na Colômbia, Equador e Indonésia. Na Malásia, maior produtor mundial de óleo de palma, 87% das florestas foram devastadas.

Além da destruição ambiental e da utilização de terras agrícolas para a produção de biomassa, há outros efeitos poluidores neste processo, como a construção de infraestrutura de transporte e armazenamento, que demandam grande quantidade de energia. Seria necessário também aumentar o uso de máquinas agrícolas, de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) e de irrigação para garantir o aumento da produção.

O Brasil pode também cumprir a missão de legitimar a política externa do governo estadunidense. Em visita ao Brasil, em fevereiro de 2007, o subsecretário de Estado, Nicholas Burns, afirmou que "A pesquisa e o desenvolvimento de biocombustíveis podem ser o eixo simbólico de uma parceria nova e mais forte entre Brasil e Estados Unidos". Os dois países controlam 70% da produção mundial de etanol. Recentemente, em resposta ao impacto deste tema na sociedade, o governo Bush anunciou que pretende reduzir o consumo de petróleo em 20%. Segundo Burns, "A energia tende a distorcer o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo, como a Venezuela e o Irã". (Folha de S. Paulo, 7 de fevereiro de 2007).

A expansão da produção de bioenergia é de grande interesse para empresas de organismos geneticamente modificados, que esperam obter maior aceitação do público se difundirem os produtos transgênicos como fontes de energia "limpa".

"Todas as empresas que produzem cultivos transgênicos - Syngenta, Monsanto, Dupont, Dow, Bayer, BASF - têm investimentos em cultivos concebidos para a produção de biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel. Têm, além disso, acordos de colaboração com transnacionais como a Cargill, Archer, Daniel Midland, Bunge, que dominam o comércio mundial de cereais. Na maioria dos casos, a investigação está voltada para a obtenção de novos tipos de manipulação genética de milho, cana-de- açúcar, soja, dentre outros, convertendo-os em cultivos não comestíveis, o que aumenta dramaticamente os riscos que por si sós já implica a contaminação transgênica", explica Silvia Ribeiro, investigadora do Grupo ETC do México.

Segundo Eric Holt-Gimenez, coordenador da organização Food First, "Três grandes empresas (ADM, Cargill e Monsanto) estão forjando seu império: engenharia genética, processamento e transporte-uma aliança que vai amarrar a produção e a venda de etanol. E acrescenta que outras empresas do agronegócio como Bunge, Sygenta, Bayer e Dupont, aliadas à transnacionais de petróleo como Shell, TOTAL e British Petroleum, e também à automotoras como Volkswagen, Peugeot, Citroen, Renault e SAAB, formam uma parceria inédita visando grandes lucros com biocombustíveis.

O papel da agricultura camponesa

Edna Carmélio, coordenadora de biocombustíveis do Ministério de Desenvolvimento Agrário, afirma que "A produção do etanol é concentradora de renda; já a de biodiesel, mesmo não sendo exclusiva da agricultura familiar, tem forte componente social".

Experiências como a plantação da mamona por pequenos agricultores no Nordeste demonstraram o risco de dependência a grandes empresas agrícolas, que controlam os preços, o processamento e a distribuição da produção. Os camponeses são utilizados para dar legitimidade ao agronegócio, através da distribuição de certificados de "combustível social".

A expansão da produção de biocombustíveis coloca em risco a soberania alimentar e pode agravar profundamente o problema da fome no mundo. No México, por exemplo, o aumento das exportações de milho para abastecer o mercado de etanol nos Estados Unidos causou um aumento de 400% no preço do produto, que é a principal fonte de alimento da população.
Este modelo causa impactos negativos em comunidades camponesas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas, que têm seus territórios ameaçados pela constante expansão do capital. Silvia Ribeiro alerta que "agora são os automóveis, não as pessoas, os que demandam a produção anual de cereais. A quantidade de grãos que se exige para encher o reservatório de uma camionete com etanol é suficiente para alimentar uma pessoa durante um ano".

Alguns analistas empresariais até admitem que há problemas ambientais e risco à produção de alimentos, mas afirmam que precisamos escolher "o mal menor". Neste caso, defendem até mesmo a destruição de florestas com o objetivo de expandir seus lucros com a produção de bioenergia, também conhecida como "ouro verde".

Na verdade, uma mudança na matriz energética que buscasse realmente preservar a vida no planeta teria que significar também uma profunda transformação nos padrões atuais de consumo, no conceito de "desenvolvimento" e na própria organização de nossas sociedades. É preciso investir em alternativas como a energia eólica, solar, fotovoltaica, das marés, geotérmoca. Porém, discutir novas fontes de energia implica, em primeiro lugar, refletir a serviço de quem estará esta nova matriz. A construção de uma nova matriz energética deve levar em conta quem se beneficiará ou qual propósito servirá.

O modelo agrícola deve estar baseado na agroecologia e na diversificação da produção. É urgente resgatar e multiplicar experiências de agricultura camponesa, a partir da diversidade dos ecosistemas. Existem múltiplas tecnologias e conhecimentos tradicionais de produção como as agroflorestas, sistemas agropastoris, integrados e duradouros. Há também tecnologias e saberes locais de captação, armazenamento, manejo e usos de água para consumo e produção.


INTERNACIONAL

A aliança das civilizações

Em Istambul, numa de suas últimas ações como secretário-geral da ONU, Kofi Annan condena os que apostam no choque entre culturas, e destaca: as diferenças — de opinião, cultura, crença e modo de vida — foram sempre o motor que levou a humanidade adiante
Leia em: http://diplo.uol.com.br/2007-02,a1512


NOTICIAS

1. Notícia veiculada no Portal Terra:
A Fundação Carolina, na Espanha, irá conceder 60 bolsas de estudo para professores e pesquisadores brasileiros de universidades ou institutos e centros públicos de pesquisa. O projeto faz parte de uma parceria com o Banco Santander, a Universidade Politécnica de Madri e o Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC).
As bolsas terão duração mínima de um mês e máxima de três meses. Os selecionados receberão passagem aérea de ida e volta em classe turística à Espanha, além de uma mensalidade de 1,2 mil euros e seguro-médico. Do total de bolsas, 12 são para os centros que fazem parte da Universidade Politécnica de Madri, 12 para os centros do CSIC e outras 36 para as demais universidades, centros e institutos de pesquisas espanhóis, segundo informações da Agência Fapesp.
Interessados em se inscrever devem apresentar suas propostas até 10 de março, para atividades que começarem a partir de 15 de abril de 2007; e até 30 de junho, para atividades que começarem a partir de 1º de agosto. As bolsas poderão ser usadas até 28 de fevereiro de 2008.
A solicitação deve ser preenchida no site da Fundação Carolina, www.fundacioncarolina.es, item "Becas de Formación Permanente" (Bolsas de Formação Permanente), no qual estão disponíveis todas as informações e formulários.

2. No dia 05/03/07 as 17h vai acontecer a palestra com o Tema: Da luta de Mulheres a Luta Feminista: Brasil palco de Batalhas.
Mesa: Prª Drª Vanessa Cavalcanti, pós-doutora pela Universidade Complutense de Madri e professora do Mestrado e da Graduação das FJA, e a Mestranda em História Social (UFBA), membro da MAPS Ediane Lopes.
A Inscrição será feita no local pelo C. A de História das Faculdades Jorge Amado, no valor de 2,00.


LIVROS E REVISTAS

1. Já está à venda o número 76 da revista Novos Estudos, editada pelo Cebrap.
Artigos principais:
Da Morte Política à Consagração -
2. A Editora Contexto apresenta mais um importante lançamento na área de História:
HISTÓRIA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO - Peter N. Stearns
O livro chega em nosso estoque no dia 26/02 e em seguida poderá ser encontrado nas melhores livrarias do país e nos sites www.livrariacultura.com.br ou www.editoracontexto.com.br.

História das relações de gênero é uma exploração fascinante do que ocorre com as idéias estabelecidas sobre homens e mulheres quando sistemas culturais distintos entram em contato. Valendo-se de uma grande variedade de exemplos, da pré-história ao século XXI, e abarcando diferentes sociedades, da China às Américas, da África ao norte da Europa, passando por Oriente Médio, Rússia, Japão e Austrália, o historiador Peter N. Stearns delineia o quadro dos encontros culturais internacionais mais significativos e seus efeitos sobre as relações de gênero. O impacto do islamismo e das práticas de gênero do Oriente Médio na Índia e na África subsaariana; o resultado dos contatos da China com a condição feminina entre japoneses e mongóis; a influência colonial européia na América, Índia, África e Oceania; o impacto das ações internacionais no Oriente Médio; e os efeitos da atuação de organizações internacionais e do consumismo global são alguns dos assuntos discutidos neste livro.
O autorPeter N. Stearns é diretor e professor de História da George Mason University, autor de A infância (publicado no Brasil pela Contexto), Consumerism in World History (2001) e Western Civilization in World History (2003). Publicou também The Global Experience (2005) e World History in Brief (2004

Preço: R$ 39,00 Nº Págs.: 256


3. Educar para um Outro Mundo Possível
Em debate no SESC Pinheiros, em São Paulo, Moacir Gadotti lança livro. Oded Grajew, Antônio Martins e Salete Valesan compõem a mesa com o autor
O livro Educar para um Outro Mundo Possível, da editora Publisher Brasil, traz reflexões de Moacir Gadotti, educador e diretor geral do Instituto Paulo Freire, sobre a construção de um outro mundo e a nova educação que se faz necessária. A partir de inquietações, que o autor chama de “primeiras interrogações”, o livro tomou forma com base em seis perguntas: Por que devemos mudar o mundo? A quem interessa mudar o mundo? O que é esse outro mundo possível? Como construir esse outro mundo possível? Como tornar o Fórum Social Mundial mais do que um contraponto a Davos? O formato inicial do FSM estaria realmente esgotado?
leia mais


4. Nas bancas o número 17 da Revista de História da Biblioteca Nacional. O dossiê é “Elogio à preguiça”. A entrevistada é Manuela L. Carneiro da Cunha. Artigos sobre São Paulo no período entre-guerras – As tropas brasileiras no Oriente Médio – A conquista da Amazônia. Biografia de Dona Teresa Cristina, esposa ofuscada de Pedro II.

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