Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

9.1.08

Número 121





EDITORIAL

Há 20 anos atrás, no dia 4 de janeiro, eu completava 38 anos, mas recebi um presente muito amargo, como, aliás, boa parte dos brasileiros: Henfil se foi. Um dos mais talentosos cartunistas, o criador dos Fradinhos, do bode Orellana, da Graúna.

“Com traços singelos, geralmente em preto e branco, Henfil estreou em 1964, na Revista Alterosa, de Belo Horizonte, por convite do editor e escritor Roberto Dummond. No ano seguinte, suas caricaturas políticas para o Diário de Minas já chamavam atenção nacional. Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a colaborar com o Jornal dos Sports e as revistas Visão, Realidade, Placar e O Cruzeiro.
Junto com Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, Sérgio Porto, Millôr e toda ‘corja’ de maravilhosos jornalistas e pensadores brasileiros que integravam O Pasquim, Henfil foi um dos responsáveis pelo sucesso do jornal de oposição aos militares. Foi nele que Henfil lapidou o senso critico e de humor”. (Erick Araújo, do Portal UAI).

Dentre os muitos desenhos deixados por ele, vale ver e pensar sobre este:



Como percebi que a reprodução não ficou muito boa, transcrevo as falas do Baixinho:
no segundo quadro, ele, ao ver o cidadão amarrado e dependurado, diz: Revoltante!
E no terceiro quadro, ao balançar o cidadão, ele diz: É preciso garantir-lhe o direito de ir e vir...
Muita sutileza para os anos de chumbo...



FALAM AMIGOS E AMIGAS

Caro Professor Ricardo,

1. Mais um ano novo que chega e com ele a CONSOLIDACAO cada vez mais forte do BOLETIM MINEIRO DE HISTORIA. Sou um leitor assíduo.
Reafirmo a importância do BOLETIM MINEIRO DE HISTORIA no meu dia a dia. Espero continuar bebendo desta fonte por toda vida.
Quero daqui (Seatle) USA, onde passo o Natal com os meus filhos, lhe desejar um FELIZ 2008. Que este novo ano e outros que virão, sejam repletos de muita paz, saúde e prosperidade.
São os meus votos e da minha família.

Sebastião Elias de Oliveira
ex-aluno

2. Vânia me envia artigo de Boris Fausto, publicado na Folha.

Fim de ano: passado e futuro
BORIS FAUSTO
Há boas razões para ler com reservas as projeções indicativas do que será o mundo daqui a 50 anos, para não falar em séculos

COMO NINGUÉM ignora, o passado é o terreno próprio do historiador. Não é um terreno sólido, pronto a ser decifrado, desde que se utilizem os métodos adequados, como pensaram os positivistas no século 19. O passado se move, como o globo terrestre, entre outros fatores, em função das interpretações formuladas em épocas diversas, das propensões de cada historiador, da acessibilidade de novas fontes.
Para ficar num exemplo contemporâneo, nos últimos dez ou 15 anos, a história da União Soviética vem sendo mais bem conhecida graças não só a arquivos que burocratas russos em boa hora preservaram mas também à memória oral -o medo diminuiu e as pessoas, mesmo com reticências, começaram a falar do passado. Assim, vem sendo possível conhecer em toda sua dimensão a figura espantosa de Stálin, as minúcias dos campos de internamento (Gulag), assim como a intimidade da corte; ou levantar o véu que encobria a vida devassada da família e do cidadão comum.
Ao mesmo tempo, a imaginação é um elemento constitutivo de boa parte dos mergulhos no passado, seja nos textos que se referem a épocas remotas, seja nos que lidam com épocas recentes. Desse modo, a reconstituição da história de povos da chamada Antigüidade se faz em boa parte pela via de fragmentos materiais -inscrições, objetos etc.-, num trabalho em que a formulação de hipóteses prováveis para a identificação de usos, costumes e rituais tem um papel relevante.
A imaginação nutre também a história contrafatual (a que poderia ter sido) de qualquer época, incidindo com particular brilho na história contemporânea. Por exemplo, o que teria ocorrido se as tropas alemãs tivessem ocupado Moscou, como quase chegou a acontecer, ou chegassem a desembarcar na Inglaterra enquanto tentavam demolir o país com incessantes bombardeios na Segunda Guerra Mundial? O que teria acontecido se, em outubro de 1962, Kruschev não recuasse, após semanas de suspense, retirando os mísseis nucleares instalados em Cuba, num dos episódios mais dramáticos da Guerra Fria? Como estaríamos hoje se a ação terrorista do 11 de Setembro tivesse sido desbaratada durante seus preparativos?
Por outro lado, a grande maioria dos historiadores se recusa -ou pelo menos hesita- a penetrar no futuro -um terreno gelatinoso que não lhes é próprio. Aí parecem acompanhar a sabedoria popular: "O futuro a Deus pertence". Mas, como o poeta Drummond, num belo verso, lembrou que "o último dia do ano não é o último dia do tempo", quem sabe valha a pena imaginar o que nos reserva o futuro, pensado em sentido coletivo.
Esse exercício pode ser feito de várias maneiras, seja pela lente das projeções tidas como científicas, seja pelas lentes da imaginação. Há boas razões para ler com reservas as projeções indicativas do que será o mundo daqui a 50 anos, para não falar o que será o mundo daqui a séculos.
Dito de outro modo, aqui prevalecem esmagadoramente as lentes da imaginação, mas uma imaginação diversa da que se lança ao passado, pois tudo no futuro é nebuloso. Melhor será, pois, evitar afirmações e envolver a imaginação na moldura de perguntas. Na minha perspectiva, a partir de seleção mínima, faria ao futuro algumas perguntas.
O mundo se encaminha para a hegemonia da China ou para vários focos de polaridade, incluindo os Estados Unidos, a própria China e, quem sabe, a União Européia? Em algumas ou muitas décadas, o Brasil vai não só crescer mas tornar-se socialmente mais justo, não precisando se embalar nos duvidosos indicadores de poder de compra que tendem a ocultar nossas visíveis e constrangedoras carências? Ainda haverá campo para um socialismo com face humana, diverso dos fracassados modelos do passado e contraposto aos aspectos mais selvagens do capitalismo?
Por último, mas não na ordem de importância, serão tomadas medidas globais efetivas para impedir a mudança climática e a devastação do planeta ou as discussões nos foros privilegiados vão se arrastar, enquanto a humanidade caminha para o abismo num prazo maior ou menor? Depois dessas perguntas e divagações, acho melhor abandoná-las e me concentrar, humildemente, em 2008. Que todos nós tenhamos um bom ano, em que as alegrias superem as inevitáveis tristezas.
BORIS FAUSTO, historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP. É autor de, entre outras obras, "A Revolução de 30" (Companhia das Letras).

FALANDO DE HISTORIA

No portal Terra, a notícia, que talvez não seja mais surpresa para ninguém:

Ditadura argentina teve base no Brasil
O depoimento de Néstor Norberto Cendon, carcereiro, denuncia que a Argentina tinha bases no Brasil durante a Operação Condor, entre as décadas de 1970 e 1980. A operação trata da formação de um sistema de inteligência para troca de informações entre as ditaduras latino-americanas sobre os oposicionistas ao regime militar. Durante a Condor, houve mortes e desaparecimentos de opositores do regime. As informações são da Folha de S.Paulo.
O depoimento, prestado em 1984, faz parte de um processo que condenou, na Argentina, o general Cristino Nicolaides, 83 anos, ex-comandante do Exército e membro da quarta junta militar que governou o país em 1982 e 1983, por mortes e desaparecimentos ocorridos na época. A condenção de Nicolaides e outros seis militares e um policial ocorreu no último dia 18.
O documento foi obtido pelo presidente do Movimento Nacional de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, Jair Krischke. Segundo o processo, as bases argentinas ficavam em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de um posto na fronteira, no interior do Rio Grande do Sul.
O objetivo seria "detectar pessoas vinculadas à 'subversão', controlá-las e manterem-se informados sobre todos seus movimentos". Os militares que trabalhavam no Brasil, estavam vinculados ao Batalhão de Inteligência 601, que seria um centro militar de interrogatórios e de tortura do regime.
Além do Brasil, a ditadura argentina teve bases no Paraguai, Bolívia, Peru, e Uruguai, dentro do que o carcereiro informou fez parte da Operação Morcego.
Redação Terra

E na Folha de São Paulo, Carlos Heitor Cony abordou o asunto:
CARLOS HEITOR CONY
Um pouco da Operação Condor
Ela não foi mencionada entre as hipóteses que cercaram a morte de JK e Letelier, ligado a Allende

NA ITÁLIA , um juiz fez a Operação Condor voltar ao noticiário. Para quem acompanhou a série de reportagens do jornalista José Mitchell, no "Jornal do Brasil", em 2000, nada de novo está sendo revelado agora. Os militares brasileiros citados pelo magistrado italiano, em diferentes graus de responsabilidade, haviam sido arrolados entre as autoridades que de uma forma ou outra tiveram participação na "limpeza do terreno" feita pela operação em países do Cone Sul que estavam sob ditaduras de direita: Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
Situa-se o nascimento da Operação Condor em 28 de agosto de 1975, embora a gestação tenha começado nove meses antes, mas não de forma orgânica: foram movimentos isolados, de grupos autônomos, atiradores livres que se anteciparam ao mecanismo oficial das ditaduras e iniciaram o expurgo de elementos que ameaçavam a paz dos regimes totalitários naquela parte da América do Sul.
Naquela data (28 de agosto de 1975), o coronel Manuel Contreras Sepúlveda, chefe da Direção da Inteligência Nacional do Chile (Dina), subordinada à Presidência da República ocupada pelo general Augusto Pinochet, enviou ao general João Baptista de Oliveira Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações do Brasil (SNI) um ofício confidencial que pode ser considerado a certidão de nascimento da Operação Condor."Distinguido Senhor General, Recebi seu informe de 21 de agosto de 1975 e agradeço a oportuna e precisa informação, expressando minha satisfação por sua colaboração que devemos estreitar ainda mais. Em resposta, cumpre-me comunicar-lhe o seguinte: 1) Compartilho sua preocupação com o possível triunfo do Partido Democrático americano nas próximas eleições presidenciais. Também temos conhecimento do reiterado apoio dos democratas a Kubitschek e Letelier que no futuro poderia influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul do nosso hemisfério; 2) O plano proposto pelo senhor para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democráticos e democratas cristãos da América Latina e da Europa conta com o nosso decidido apoio."O ofício contém mais dois parágrafos pontuais da situação que Contreras e Figueiredo temiam: "À medida que for nos chegando a informação relativa à atividade política dos liberados e suas eventuais ligações com os exilados brasileiros, logo lhe transmitiremos."
Onze meses depois, a 22 de agosto de 1976, num acidente da estrada Rio-São Paulo, morria Juscelino Kubitschek, um dos citados por Manuel Contreras no ofício a João Figueiredo. E um mês depois, a 21 de setembro do mesmo ano, em Washington, morria num atentado a bomba Orlando Letelier, que fez parte do governo de Salvador Allende, deposto pelo golpe militar de Pinochet. Tal como Kubitschek, fora também citado no ofício do chefe do Dina para o chefe do SNI.O atentado de Washington foi apurado pelo FBI e incriminou o coronel Contreras, que cumpre pena de prisão perpétua no Chile.
A Operação Condor não foi mencionada entre as hipóteses que cercaram a morte de JK e Letelier. Tampouco foi lembrada em outros episódios da mesma época, como as mortes seguidas, do ex-presidente João Goulart, em dezembro de 1976, e do ex-governador Carlos Lacerda, em maio de 1977.Quanto a Goulart, foi pedida mais tarde a exumação de seu corpo pelo juiz Juan Espinoza, do tribunal argentino de Curuzu Guatiá. O governo brasileiro mandou emissários para conversar com as autoridades argentinas, e a exumação não se realizou.
O eixo formado pela Dina e SNI deu apenas cobertura política e policial para a Operação Condor, que tratou de limpar o terreno horizontalmente, caçando o que se poderia classificar de "baixo clero" da contestação aos regimes militares do Cone Sul.
Mas a limpeza, no sentido vertical (JK? Jango? Lacerda?), incluiu certamente o general Carlos Prats, ex-comandante-em-chefe do Exército chileno ao tempo de Allende, vítima de uma bomba que o matou em Buenos Aires. Em igual contexto, foram mortos no Uruguai o senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Héctor Gutiérrez, suspeitos de envolvimento com os tupamaros.


BRASIL

Rudá Ricci, na revista virtual Espaço Acadêmico, traz instigantes considerações a respeito da educação brasileira, notadamente o ensino médio e o universitário.

Ascensão e Queda do Império Universitário Brasileiro
por Rudá Ricci

Com a criação da USP, em 1934, nascia um pensamento científico charmoso e com vocação ao poder político. Inicialmente, pensava o Brasil e o articulava ao mundo. Não por outro motivo, as ciências humanas ganharam grande projeção desde então, porque desvelavam um Brasil submerso. As nações indígenas ganharam os livros e, mais tarde, as capas da revista Manchete, além dos documentários chapa-branca de Amaral Neto. A vocação política do mundo universitário cresceu, atingiu os cargos de elaboração governamental, gerou referências para a esquerda (como nas manifestações da Maria Antônia ou a candidatura a senador de Fernando Henrique Cardoso). Nos anos de chumbo, da USP nasceram centros de pesquisa independentes, como o CEBRAP, que passaram a estudar o mundo do trabalho e as reformas democráticas necessárias, as mudanças na economia nacional. A USP continua o top da academia nacional, com 42 mil estudantes (terceira do país em número de alunos, perdendo apenas para duas universidades particulares). Mas nos anos 90 houve uma acelerada e radical inversão da realidade universitária. Ao redor de 80% das vagas universitárias se concentraram em faculdades particulares, dado o boom de abertura de universidades privadas no interior do país. Houve avanços: as vagas noturnas das faculdades particulares interiorizaram o estudo universitário e abriram oportunidades para mulheres e trabalhadores.

Mas o crescimento de vagas foi desordenado e provocou a queda de qualidade. A “Geografia da Educação”, elaborado pelo Ministério da Educação, revelou que as faculdades particulares do país possuem o dobro de alunos por sala que as públicas, menos doutores e um ínfimo número de docentes com dedicação exclusiva (contrato em tempo integral). Há uma impressão generalizada que houve muita ingerência política regional e local na abertura de cursos que nem sempre mantiveram relação com a vocação de desenvolvimento da sua localidade. Marilena Chauí, numa apresentação memorável num dos encontros da ANPED (maior encontro nacional de educação) lamentava a transformação da universidade brasileira de instituição em organização. Chauí explicava que uma instituição se volta para a sociedade e a organização para si mesma, voltada para sua sobrevivência e crescimento.
Agora, no fechar das cortinas de 2007, ficamos sabendo que o número de formados em universidades públicas caiu em 9,5% nos últimos dois anos. O dado surgiu a partir do Censo da Educação Superior. A perda tem relação direta com a queda de financiamento público (ou privatização acelerada do ensino universitário). Trabalho e descontentamento com os cursos são apontados como outros obstáculos.
O problema é mais grave na medida em que se sabe que as faculdades do interior brasileiro enfrentam grandes dificuldades desde 2005. A inadimplência chega à média de 40% (caso de São Paulo, o Estado mais rico do país). A concorrência entre pequenas faculdades chega às raias do desespero. O ataque ao Ensino Médio é cada vez maior e, muitas vezes, obriga uma faculdade a se conveniar com uma rede de Ensino Médio para possibilitar a fidelização do futuro universitário. A situação parece ainda mais crítica na medida em que caem as matrículas no Ensino Médio (1,5% entre 2004 e 2005 e 1,4% entre 2005 e 2006) e aumenta a procura pela modalidade EJA-Médio (Educação de Jovens e Adultos - Ensino Médio) em 10% entre 2005 e 2006. O Brasil bate recordes de criação de empregos. Projeta-se para 2008 a criação de 2,5 milhões de novos empregos, fomentados pela abertura de vagas na construção civil, rodovias, hidrelétricas e indústrias. Este é o motor que gera tal aumento de vagas nos cursos de EJA.

Assim, parece ser a hora de repensarmos toda a porta de saída do ensino regular e ingresso no mundo do trabalho. O Brasil possui uma cultura – grande parte desenvolvida pelo glamour universitário do século XIX e ampliado com a criação da USP – de valorização do título universitário para ingresso e evolução no mercado de trabalho. Mas, a proliferação de vagas nas faculdades particulares banalizou o ensino acadêmico. É de se questionar, portanto, os motivos para não transformarmos o Ensino Médio e o EJA em modalidades próprias e não “ritos de passagem”. No caso do Ensino Médio regular, trata-se de uma passagem para o mundo universitário. No caso do EJA, uma certificação para melhores postos de trabalho, normalmente semi-qualificados. Mas onde estaria o motivo para não transformar, como ocorre na Europa (sul da Alemanha, em especial), o Ensino Médio e EJA em modalidades específicas, de alto padrão de qualidade, para formação de quadros técnicos totalmente direcionados para a vocação regional do mercado de trabalho? Tal estratégia poderia redefinir a dimensão do ensino universitário brasileiro, mais voltado para a pesquisa acadêmica e/ou pura, diretamente vinculado à trajetória de investigação e carreira acadêmica.
Não se trata de uma dicotomia exógena, mas de uma leitura mais precisa da demanda indicada pelos próprios jovens brasileiros.
Haverá, possivelmente, nos próximos anos, um movimento de oligopolização do ensino universitário privado do país. Muitas faculdades serão adquiridas por grupos mais sólidos ou mais profissionalizados. Em alguns casos, grupos econômicos mais agressivos e com menor vocação educacional, avançarão o sinal para fazer um bom negócio a partir da crise cada vez mais profunda de pequenas instituições acadêmicas. A luta pela sobrevivência será mais aguda e é necessário redirecioná-la para que não se torne selvagem. Um Acordo Nacional Estratégico da Educação Brasileira precisa ser firmado para definir as identidades de cada segmento do ensino brasileiro, sua vocação e foco de atuação, assim como os vasos comunicantes entre eles, através de programas de extensão definidos não como marketing institucional, mas como projeto de desenvolvimento do país.
Como sugeria Marilena Chauí, é fundamental recuperarmos o projeto societal das universidades e diminuir seu aspecto cada vez mais comunitário, internista e mercadológico. Mas esta necessidade envolve o Ensino Médio e o EJA. Afinal, qual são seus objetivos? Continuaremos com os velhos rituais de passagem, que os limita às técnicas de memorização de fatos e informações a serem descarregados nos exames de seleção à Universidade ou reproduzidos em atividades repetitivas de postos de trabalho constantemente ameaçados pelas novas tecnologias ou subemprego?
Um dia, Florestan Fernandes perguntou-se a respeito do objetivo do ensino universitário, seu papel social para o país. O mundo acadêmico se limitou a tal ponto que não temos mais nenhum acadêmico que se faça a mesma pergunta.
http://www.espacoacademico.com.br/- © Copyleft 2001-2008
É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída

NUESTRA AMERICA

Jovens à margem da sociedade
Por Fabiana Frayssinet [Terça-Feira, 8 de Janeiro de 2008 às 09:57hs]

Sete milhões de brasileiros e quase 800 mil argentinos engrossam um verdadeiro exército de jovens latino-americanos sem trabalho e fora do sistema educacional, que ameaçam reproduzir a pobreza se não forem tomadas medidas contundentes para reincluí-los, alertam especialistas. No Brasil esse contingente representa quase 20% da população entre 15 e 24 anos de idade, segundo o Informe de Desenvolvimento Juvenil elaborado pelo psicólogo Júlio Jacobo Waiselfisz.
Jorge Werthein, diretor da Rede de Informação Tecnológica Latino-americana (Ritla), que encomendou o estudo, aponta como causa dessa situação a “estrutural e histórica desigualdade”, que, como destaca, “é uma realidade em toda a América Latina”. O problema se reflete na entrada no mercado de trabalho, nos serviços de saúde, nas altas taxas de mortalidade, na falta de acesso à educação e até na queda da qualidade do ensino público.
Werthein afirmou, ainda, que “o aumento da vulnerabilidade traz como conseqüência mais violência”. Em países como Alemanha, Espanha e França há um homicídio para cada cem mil jovens, enquanto na Rússia ou em nações latino-americanas como Brasil, Colômbia e Venezuela são 50 as mortes violentas para cada cem mil jovens. Esses números são confirmados pelo Estudo brasileiro. Os jovens são os que mais morrem vitimas de homicídios ou em acidentes automobilísticos porque “são os mais vulneráveis, ousados, onipotentes, os mais excluídos da sociedade, isto é, se envolvem mais rapidamente em crimes como o trafico de drogas”, acrescentou.
Da falta de perspectivas, esses jovens são contundentes ao dizer, por exemplo, “prefiro ser parte do tráfico, embora viva pouco, porque desse modo terei as coisas que outros têm, como uma moto ou um tênis de marca”. É “isso que, lamentavelmente, vivemos em muitos países e reproduzindo em outros da América Latina com o surgimento de gangs”, descreveu Werthein. A investigação do sociólogo Waiselfisz também indica que 9,3% dos jovens brancos na região conseguem terminar o ensino básico, enquanto no caso dos negros apenas 7,7% o conseguem.
Porém, nem tudo é tão negativo para Werthein. O especialista afirmou que planos implementados no Brasil nos últimos tempos permitiram, por exemplo, avanços na universalização da matrícula no ensino primário, que ficou em 97%, e na luta contra o analfabetismo entre os jovens, que caiu para 2,4%. Nesse contexto de pensar o futuro, Werthein entende que é prioridade para a região a implementação de planos educacionais de longo prazo (30 ou 40 anos) como a Argentina começou a fazer.
O diretor da Ritla destacou que, embora no Brasil ainda não haja uma definição nesse sentido, “a novidade é que começou uma verdadeira mudança conceitual importantíssima” há dois anos, quando o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a educação como uma prioridade e lançou, mais recentemente, um plano educacional para os próximos 15 anos. Dentro do grande guarda-chuva dessas políticas de longo incentivo, Werthein mencionou iniciativas com as aplicadas pela Ritla, através da inclusão digital, “porque é impressionante a atração que tem sobre os jovens”. Programas que não só melhoram o acesso e a qualidade da informação, mas também permitem a criação de postos de trabalho para jovens nas áreas técnica ou docente.
Werthein também se mostra otimista em relação à Argentina, pois percebe que existe uma atenção especial para reverter o ciclo de exclusão e pobreza há quatro anos, quando chegou ao poder o centro-esquerdista Nestor Kirchner, substituído no mês passado por sua mulher, Cristina Fernández. Porém, a situação ainda é dramática nesse país, alertou. Um estudo da Organização do Trabalho indica que 756 mil jovens argentinos com idades entre 18 e 25 anos não estudam nem trabalham, 76% deles são mulheres, que abandonaram o ensino secundário.
Guillermo Pérez Sosto, co-autor do informe Trabalho Decente e Juventude, explicou à IPS que mais de 70% dessas mulheres são de famílias pobres, indigentes e, portanto, vulneráveis. “As mulheres, quando provêm do setor mais excluído, são muito passivas. Supõem-se que muitas tiveram filhos ainda na adolescência e permanecem circunscritas ao âmbito doméstico, por isso são tão invisíveis”, disse Sosto. Vê-se que é “comum deixarem a escola para trabalhar, mas que em seguida perdem o emprego e não procuram outro”.
Como conseqüências sociais, o especialista concorda com Werthein que “a causa deste fenômeno é a deserção escolar e daí caem no trabalho precário”, que hoje na Argentina ocupa 62% do total de jovens empregados. Como no Brasil, Sosto destacou os efeitos agravantes e nocivos do aumento da oferta consumista. Para conseguir produtos fora de seu alcance os jovens pobres e excluídos fazem “como os antigos lixeiros”, explicou o sociólogo. “Vão para as ruas sem um percurso prévio, vão em “busca da moeda”, como dizem, e a conseguem limpando pára-brisa nos semáforos, pedindo dinheiro ou se aproveitando de algum distraído”, afirmou.
Este especialista acredita que a única forma efetiva de realizar mudanças é eliminando as causas com ações preventivas para que os jovens não deixem de estudar, que haja tutores para buscá-los quando abandonam as aulas, que se interessem pelo que lhes acontece, bem trabalhar para que haja menos adolescentes grávidas e menos viciados. Entretanto, com as mulheres é mais fácil, acrescentou. “As meninas não querem trabalhar, e não está claro se querem voltar a estudar, pois não dizem nada sobre isso nas entrevistas. Se o sistema educacional fosse mais acolhedor e o mercado de trabalho menos precário, seria mais fácil para eles e para elas”, ressaltou Sosto.
Há experiências de sucesso para melhorar essa situação, mas “que não chegam ao núcleo duro da inatividade”, disse o especialista. Entre elas, um programa implementado em conjunto em 2006 pelo Ministério da Educação da Argentina e a montadora de automóveis Toyota. A idéia visava jovens sem emprego e que não haviam terminado os estudos secundários para capacitá-los e inserí-los no mercado de trabalho. Enquanto se capacitavam para trabalhar na área de produção recebiam salário de 900 pesos (US$ 300) e quando terminavam o estudo entravam como operários na Toyota, com salário de 2.400 pesos (US$ 800). Foram criadas quotas para 300 jovens; 2.600 foram entrevistados, mas nem todos tinham o perfil requerido, que era capacidade de aprendizagem e passar nos exames psicológicos, por isso entraram apenas 60 pessoas, lamentou Sosto.
O Uruguai também não escapa da problemática dos jovens sem emprego nem estudos básicos concluídos. Segundo a pesquisa domiciliar de 2006 do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 25% dos jovens entre 18 e 24 anos estão excluídos do sistema de trabalho e de ensino. O ritmo de crescimento deste problema era, então, de 3% ao ano. Para combater esta exclusão juvenil, o governo esquerdista de Tabaré Vázquez, que assumiu em 2005, lançou o programa Projoven, vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social, criado pela atual administração, que implementa ações de capacitação para a inserção trabalhista com enfoque de competências e perspectiva de gênero. O objetivo é capacitar os jovens para sua inserção no mercado de trabalho e na educação.
“Em todos os casos se trabalha a partir de uma forte articulação com o mercado de trabalho, com o principio de dupla pertinência, através do qual são articuladas as demandas das empresas e se atende as necessidades das pessoas que se capacitam”, disse em um documento entregue à IPS o diretor da Área de Programas do Instituto Nacional da Juventude, Ricardo Amorín. Apesar deste programa, a porcentagem, de jovens que trabalham caiu entre 2005 e 2006 de 55% para 52%. Esses números são maiores nas áreas mais vulneráveis, entre os pobres e as mulheres do interior do país.
No México a situação também é complexa, com três em cada 10 jovens entre 20 e 29 anos desempregados e um em cada quatro também sem estudar, segundo a Pesquisa Nacional de Ocupação e Emprego 2006. O presidente Felipe Calderón se comprometeu a criar entre um e 1,2 milhão de empregos por ano, quantidade de postos de trabalho necessária para atender a chegada de jovens ao mercado de trabalho. Para isso lançou, entre outras medidas, o Programa de Primeiro Emprego, que consiste em subsidiar em até 12 meses o total da contribuição patronal para o Seguro Social para quem der o primeiro emprego a uma pessoa. Até novembro, apenas 12 mil novos postos de trabalho foram criados por este plano, isto é, quase nada.
O economista Abraham Aparício, da Universidade Nacional Autônoma do México, disse à IPS que esta situação provoca direta e indiretamente a erosão do capital humano e mantém a pobreza e a brecha entre ricos e pobres. Também incentiva a economia informal, o que tem impacto na arrecadação do Estado. Outra conseqüência é o aumento da criminalidade. Aparício citou como “válvulas de escape” o emprego na economia informal, que concentra cerca de 17 milhões de pessoas, e a emigração, considerando que cerca de 500 mil mexicanos deixam o país a cada ano para irem morar nos Estados Unidos.
Na capital mexicana, com nove milhões de habitantes e onde governo o esquerdista Partido da Revolução Democrática desde 1997, são implementados programas de apoio a jovens. Um deles criou a figura do tutor social por bairro (onde há mais desemprego e violência juvenil). O tutor, cuja tarefa é financiada pelo município, cuida de atrair grupos de jovens para diversas atividades comunitárias, esportivas e culturais.
Fabiana Frayssinet, IPS (do site da Revista Fórum – Um outro mundo é possível).


INTERNACIONAL

1. Neoterrorismo mapeado
EM 2008 NA IMAGEM CULTURAL... Últimas vagas para os próximos cursos desse mês de janeiro!
ARTE E CULTURA INCA
Arquitetura monumental e duradoura, ourivesaria e produção escultórica riquíssimas. Neste minicurso que terá início dia 08 de janeiro, a Arte e a Cultura Inca serão estudadas não somente como um grande Império Antigo, mas também como parte integrante da produção artística internacional, dispensando estereótipos e buscando em sua essência a importante história desse Império.
INSCRIÇÕES ABERTAS
Duração: 4 aulas 08/01 a 29/01 3ª feira das 19:00 às 21:00h
Valor: Parcela única de R$ 140,00
2. CULTURA E ARTE AFRO-BRASILEIRA
Em consonância com a Lei nº 10.639/03 que regulamenta o ensino de Cultura Afra brasileira nas Instituições de ensino brasileiras, ESTE CURSO INTRODUTÓRIO, Visa apresentar ALGUMAS reflexões sobre a história, a memória, e a arte afro-brasileiras, possibilitando desconstruir preconceitos e estereótipos, bem como reafirmar a África negra na formação da sociedade brasileira. Neste contexto, serão apresentadas, através de recursos audiovisuais, manifestações culturais, tais como festas, danças, música e artes plásticas.
INSCRIÇÕES ABERTAS Duração: 4 aulas 10/01 a 31/01 5ª feira das 19:00 às 21:00h
Valor: Parcela única de R$ 140,00
Instituto de Artes Imagem Cultural 21 2220-5243 / 9992-7191
imagemcultural@imagemcultural.com.br


LIVROS E REVISTAS

1. Nas Bancas o nº 4 da revista Leituras da História.
Entrevista com o historiador Paulo de Assunção, sobre a trajetória da família real portuguesa. Artigos sobre criptografia; o ostracismo grego; Guerra Fria revisitada; os ancestrais da Língua Portuguesa; Foucault: um historiador dos pensamentos.

2. Haverá água para todos? Esta é a pergunta de capa do nº 6 do jornal-revista Le Monde Diplomatique Brasil. Lá você poderá ler, além dessa matéria de capa, sobre os militares milionários do Paquistão, sobre o novo rosto da juventude latino-americana, patentes e remédios genéricos, o plebiscito na Venezuela, as omissões do Congresso norte-americano diante da guerra, a ameaça da guerrilha naxalita na Índia, agronegocio e monoculturas, a OMC e a luta pelo comércio justo, o gerenciamento capitalista do corpo, entre outros artigos. Confira!

3.

Nas bancas o número de janeiro da revista História Viva.

DOSSIÊ INVASÕES BÁRBARASARTIGOSBIOGRAFIA PADRE CÍCERO - A TORÁ NA TERRA DE CONFÚCIO - HAITI - REVOLUÇÃO NEGRA - OS BRITÂNICOS NA ARMADILHA IRAQUIANA - 200 ANOS DA VINDA DA FAMÍLIA REAL - O IMPÉRIO PORTUGUÊS DO OCIDENTE - DA COLÔNIA ATÉ HOJE: O GOSTO LUCRATIVO DA CANA -DE-AÇÚCAR

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