Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

18.7.06

Numero 049

Editorial


Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis (foto Ricardo de Moura Faria)

A foto com que abrimos o nosso boletim de hoje é da ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, cidade que está sediando, esta semana, o Encontro da SBPC. Como noticiado no site da revista Ciência Hoje:

O lema da reunião da SBPC deste ano é “semear a interdisciplinaridade”, e começa a ser posto em prática no formato de algumas atividades. Uma das inovações do evento deste ano é a realização de grupos de trabalho interdisciplinares, nos quais especialistas de diferentes campos discutirão questões como biodiversidade, terapia gênica ou criminalidade. Outra novidade é a realização de encontros abertos, nos quais pesquisadores de várias instituições discutirão tópicos como política de florestas, nanotecnologia, propriedade intelectual ou a divulgação científica no Brasil. Os debates promovidos nesses encontros darão origem a documentos que devem orientar a atuação futura da SBPC. A programação conta ainda com eventos consagrados em reuniões anteriores, como a feira de livros, a Expociência – agora chamada ExpoT&C – ou a SBPC Jovem, que espera reunir cerca de 3 mil jovens em sua 14ª edição.

Numa semana repleta de coisas interessantes para serem discutidas, avultou o recrudescimento da violência em São Paulo, novamente orquestrada pelo PCC. Como sempre, a mídia escandaliza, aterroriza, mas são poucos os jornalistas capazes de fazerem análises consistentes a respeito do problema. Exceção são os das mídias alternativas, a quem damos a voz. Também a destacar o número especial da revista Ciência Hoje, que tem como dossiê “o caos urbano”. A indicação da revista está mais para o final do Boletim.


CRISE DA SEGURANÇA

Políticas sociais atacam causas da violência, diz especialista

Dois meses após a semana de pânico que envolveu São Paulo, em maio último, o medo volta a tomar conta do Estado. Mas, para especialista, tal crise do sistema de segurança dificilmente se resolverá no médio e longo prazo com aumento da repressão. Combinadas, devem vir políticas de mudanças urbanas e de redução dos problemas sociais. > LEIA MAIS Direitos Humanos 13/07/2006


A imprensa precisa gritar
Por Alberto Dines em 14/7/2006

Continua a vergonhosa exploração eleitoral da nova onda de ataques do PCC. Tanto o governo como a oposição não parecem ter pudor em tirar proveitos desta tragédia cívica. E alguém precisa dizer isso.
Os jornalões nacionais só noticiaram a ofensiva, ontem, quinta-feira, mas a função da imprensa, sobretudo nesta Era da Internet, não consiste apenas em informar. Cabe a ela analisar, contribuir para a formação de juízos já que o cidadão está hoje mais desnorteado do que nunca.
Na quinta-feira, o Estadão simplesmente não se manifestou a respeito da nova ofensiva terrorista. A Folha identificou o ponto crucial: a retórica dos políticos confunde e ofende a opinião pública. O Globo tocou igualmente na questão central: se as autoridades não se entenderem a crise se converterá em barbárie.
Mas em situações de emergência como esta, se a imprensa quer influir precisa falar mais alto. Gritar.
O leitor médio não costuma ler os editoriais, a não ser quando eles vão para a primeira página. Em momentos como este é que a imprensa torna-se indispensável. Por isso não pode ficar aos sussurros.

Leia também:

1. SP SOB ATAQUE

Folha pede a cabeça de Saulo AbreuLuiz Antonio Magalhães Jornal de Debates
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=389JDB016

2. NOVOS ATAQUES EM SÃO PAULO

Na periferia, o ovo da serpente Paulo Lima Jornal de Debates
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=390JDB001

3. Flávio Aguiar

Só falta o forno

Os acontecimentos do presídio em Araraquara, ressalvadas as proporções numéricas e a situação histórica, fazem pensar em algo semelhante ao destino de Eichmann e à análise feita por Hannah Arendt sobre ele. Como se pode chegar a esse ponto? - 17/07/2006


E, finalmente, Josias de Souza, em seu blog http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/
faz uma crítica importante:

O Brasil ama o caos

Em respeito aos cadáveres produzidos pela onda de violência que engolfa o cotidiano de São Paulo a nação deveria responder a algumas perguntas cruciais: quando começa o caos? Será que já começou? Teria o país realizado o desejo que persegue desde 1500?

Foge-se das respostas por medo de que elas conduzam à grande revelação. Que levem à verdade irrefutável. Que guiem à percepção de que o Brasil encontrou-se, finalmente, com o insondável. É uma pena. Corre-se o risco de deixar escapar a última chance para recomeçar do zero. Da capo, como dizem os músicos.

Se era de caos que o país precisava para construir um recomeço, haveria matéria-prima de sobra. A lógica deveria dar a luz a um entendimento. Mas a política, parafuso espanado que rodopia a esmo, não segue a lógica.

A lógica pede um compartilhamento de culpas. E, como sabem todos, ninguém é culpado pelo caos. Ou, por outra, todos são culpados, menos o último entrevistado. O caos é sempre culpa do outro. Não há quem se disponha a partilhar o caos.

De resto, um eventual entendimento deixaria os gestores do caos sem ter o que debater. Se o caos fosse eliminado eles seriam forçados a se dedicar a tarefas menores. Trabalhar, por exemplo. A resolução do caos transformaria o Brasil num tedioso inferno de problemas resolvidos.

O fim do caos também não faria bem à religião. Edir Macedo não teria mais demônios a exorcizar. E a manutenção da mansão de Miami ficaria comprometida. O extermínio do caos não dá lucro. Que seria da indústria de grades, de porteiros eletrônicos e de alarmes sem o caos? A que reengenharias teriam de se submeter as firmas de segurança privada, muitas delas comandadas por ex-comandantes da polícia?

A eliminação do caos também não interessa à academia. O caos é a musa dos intelectuais. Proporciona-lhes uma reconfortante sensação de utilidade. Dá-lhes boa consciência. Sem o caos, faltaria inspiração para as grandes teses. Haveria uma legião de doutorados no inócuo.

A imprensa tampouco se interessa pelo fim do caos. Sem a ameaça à ordem social, os Jornais não teriam o que pendurar nas manchetes. O caos dá às primeiras páginas a estética da urgência que seduz os leitores. Artigos como esse que você está lendo perderiam o sentido.

Como a ninguém interessa acabar com o caos, resta ao Brasil cumprir o seu destino de nação inviável. O caos eterno é a prova de que países também podem ficar de miolo mole, sair do sério e cometer suicídio. O Brasil é a inviabilidade "full time". Por sorte, o país é feito à base de caos. Se fosse feito de lógica, faltaria material.
Escrito por Josias de Souza


Falam amigos e amigas

Izabel Albuquerque me encaminha esta reportagem, muito a propósito das falcatruas que povoam este número do Boletim:

Brasil Museu vivo do Código Penal

Acredite: 22% dos parlamentares estão sob suspeita de ter cometido algum crime – numa lista que inclui seqüestro, extorsão, estelionato...
Diego Escosteguy

Em vinte anos de democracia, o Brasil sempre conviveu com algum escândalo no Congresso Nacional. Já se flagraram casos de má conduta individual, como o dos pianistas, que votavam em nome do colega, ou de parlamentares suspeitos de cobrar propina para favorecer um suspeito em investigações de CPI. Já houve, também, casos de delinqüência coletiva, como o célebre assalto da máfia dos anões ao Orçamento da União, que resultou na cassação de seis parlamentares, ou a violação do painel eletrônico do Senado, que mandou dois senadores de volta para casa. A atual safra de deputados e senadores, que partem agora para tentar se reeleger (ou não) nas eleições de outubro próximo, bateu todos os recordes e superou as piores expectativas – das propinas cobradas por Severino Cavalcanti à máfia dos sanguessugas ou à turba dos mensaleiros. Na semana passada, um levantamento de VEJA descobriu que, entre os 594 parlamentares, nada menos que 130 estão sob investigação por suspeita de ter cometido uma gama de mais de vinte crimes. Ou seja: a nuvem da suspeita cobre hoje 22% do Congresso.

O plantel de suspeitos representa um volume enorme, mas, na prática, é ainda maior que isso. O levantamento de VEJA inclui apenas os parlamentares cujos supostos crimes já tenham sido tipificados – seja ainda na fase de investigações do Ministério Público, seja na etapa de denúncia ao Supremo Tribunal Federal. Os 94 deputados e senadores da lista atual (veja a relação completa) respondem a 154 processos. São oitenta deputados e catorze senadores de todos os partidos. Com esse critério, VEJA não incluiu, portanto, o nome de 57 parlamentares que estão sendo investigados pelo Ministério Público sob suspeita de envolvimento com a máfia dos sanguessugas porque, como o caso corre sob sigilo judicial, não há informações precisas acerca da identidade de cada um deles nem dos crimes dos quais são suspeitos. Na semana passada, a revista conseguiu apurar o nome de 44 dos 57 parlamentares investigados, mas não descobriu seus supostos crimes. Considerando que, desses 44 sanguessugas, oito já estão na lista pública de VEJA, pode-se concluir que hoje – pelo menos – 130 parlamentares estão sob investigação.

"São dados assustadores. A delinqüência está cada vez mais generalizada no Congresso", resume o professor David Fleischer, do departamento de ciência política da Universidade de Brasília (UnB). O cenário não choca apenas pela quantidade de suspeitos, mas também pela qualidade dos crimes. Na lista, há crimes que costumam aparecer na biografia de bandidos comuns, como estelionato, seqüestro, extorsão, formação de quadrilha. Isso acontece porque o instituto da imunidade parlamentar, que surgiu no século XVII com o objetivo de garantir a liberdade de opinião e voto dos parlamentares sob a monarquia inglesa, foi inteiramente desfigurado sob o ar dos trópicos. Aqui, a imunidade parlamentar, que dá uma série de privilégios legais ao deputado ou senador, em vez de ficar restrita à palavra e ao voto, que são instrumentos essenciais no desempenho da função parlamentar, foi ampliada para crimes comuns – como estelionato, seqüestro, extorsão, formação de quadrilha. Isso explica um fenômeno bem brasileiro: o excesso de bandidos concorrendo a uma cadeira de parlamentar na eleição.

O quadro fica ainda mais grave quando a imunidade parlamentar se associa ao uso abusivo de outra prerrogativa – o foro privilegiado, pelo qual os deputados e senadores acusados de qualquer crime, até mesmo um homicídio, só podem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte judiciária do país. O problema é que, até hoje, o STF jamais condenou um único parlamentar. Os processos, sem exceção, acabaram arquivados ou os réus foram inocentados. Naturalmente, um processo sempre pode resultar na absolvição do réu, mas é improvável que todos os processos que não foram arquivados tenham – com justiça – terminado por decretar a inocência do acusado. "O STF é uma corte conservadora e sem estrutura para lidar com matéria penal", diz o sociólogo Luiz Werneck Vianna, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), ao externar uma interpretação com a qual concordam os próprios ministros do STF. Cientes dessa realidade, os políticos com algum problema na Justiça fazem de tudo para manter o mandato. E quem não tem mandato faz de tudo para ganhar um. É o caso, agora, do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, acusado de violar o sigilo bancário do caseiro que foi testemunha de seus encontros em uma casa em Brasília com a turminha da pesada formada durante sua passagem pela prefeitura de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Ou do ex-prefeito paulistano Paulo Maluf, dono de contas secretas no exterior com dezenas de milhões de dólares.

O que é cada crime (de que são acusados os congressistas)

FORMAÇÃO DE QUADRILHA - É a associação de quatro ou mais pessoas para cometer um crime
PECULATO - É quando um servidor público se vale do cargo para apropriar-se de dinheiro ou bem de outra pessoa
APROPRIAÇÃO INDÉBITA - É o crime de quem se apropria de um bem alheio sem o consentimento do dono
CRIME MILITAR - É o ato considerado ilegal dentro da caserna, que pode variar de insubordinação à deserção
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - É o crime que o agente público comete quando desvia verba pública, frauda licitação ou usa o cargo em benefício próprio ou de outrem
CRIME DE RESPONSABILIDADE - É a sanção aplicada ao agente público – presidente, ministros, governadores – que viola as funções de seu cargo
CORRUPÇÃO ATIVA - É o crime de oferecer uma vantagem indevida a um funcionário público CORRUPÇÃO PASSIVA - É quando o funcionário público aceita vantagem indevida em razão da função que ocupa
CRIME DE ESCRAVIDÃO - É manter trabalhadores em condições de trabalho análogas à de escravidão
CRIME CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO - Engloba crimes como a evasão de divisas e emissão falsa de moedas ou títulos
LAVAGEM DE DINHEIRO - É a dissimulação de recursos de origem ilícita com o objetivo de realocá-los no sistema financeiro
DECLARAÇÃO FALSA DE IMPOSTO DE RENDA - É o crime de prestar informações inverídicas à Receita Federal
CRIME DE ABORTO - É quando se interrompe uma gravidez de forma proposital fora dos casos previstos em lei
CRIME ELEITORAL - São os atos irregulares cometidos durante o pleito, que vão desde boca-de-urna indevida até a compra de votos
EXTORSÃO - É o crime de constranger alguém para obter uma vantagem econômica indevida
SONEGAÇÃO FISCAL - É quando o contribuinte burla o pagamento de impostos ao Fisco
FALSIDADE IDEOLÓGICA - É o ato de omitir a verdadeira identidade, fraudar uma assinatura, usar um documento falso
CRIME CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - Contempla uma gama de crimes cometidos por servidores públicos, como peculato, corrupção e concussão
GESTÃO FRAUDULENTA DE INSTITUIÇÃO FINANCEIRA - É a denominação genérica de atos ilícitos cometidos à frente de bancos ou operadoras de câmbio
SEQÜESTRO - É o crime de manter outra pessoa em cárcere privado contra a vontade dela
CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA - Designa atos ilícitos contra o Fisco, como fazer declarações falsas ou omitir informações tributárias
ESTELIONATO - É o crime de obter vantagem indevida ao induzir alguém a um erro
CRIME AMBIENTAL - É toda ação irregular que afete o meio ambiente, como desmatamento e extração ilegal de recursos naturais
PREVARICAÇÃO - É quando o servidor público deixa de cumprir atos que a obrigação funcional lhe impõe
LESÃO CORPORAL - É o crime de agredir outra pessoa ou ofender sua integridade física
CRIME CONTRA O CONSUMIDOR - Contempla uma gama de crimes tais como omitir o perigo de um produto ou dar informações enganosas
CONCUSSÃO- É quando o funcionário público exige, em razão do cargo que ocupa, vantagem de outra pessoa



Brasil

1. Neste domingo o jornal “Estado de Minas” abriu manchetes garrafais para denunciar a possível sabotagem da CEMIG pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Mas em nenhum momento o jornal falou sobre o que é o MAB, apenas tentou – o que é característico dele – criar o pânico em torno do movimento. O artigo a seguir tenta verificar o outro lado da questão.

Atingidos por Barragens podem estar sendo espionados pela Abin

Jornal mineiro afirma que Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Polícia Federal e os serviços de informações do Exército e das polícias Militar e Civil estariam investigando o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Minas Gerais. > LEIA MAIS Movimentos Sociais 18/07/2006


2. Ladislau Dowbor, em artigo extremamente importante, mostra como se faz para movimentar “o lado de baixo da economia”. É como ele denomina a informalidade presente na economia brasileira, que ocupa milhões de pessoas. E os problemas relacionados a essa situação são visíveis. Matéria publicada no site da revista Novae.inf.br

Responsabilidade social, tecnologias sociais e racionalidade econômica

Por Ladislau Dowbor*

Um traço marcante da nossa economia é a subutilização de recursos. Empregos formais no setor privado são cerca de 27 milhões, num universo de 93 milhões de pessoas que compõem a PEA (População Economicamente Ativa), e 121 milhões de pessoas em idade ativa (entre 15 e 64 anos de idade). O resultado é uma massa enorme de pessoas que sobrevivem das mais variadas maneiras, grande parte no setor informal, e no conjunto o resultado é a baixa produtividade sistêmica, e um imenso desperdício, sem falar nos dramas pessoais e sociais, inclusive de segurança. Basta lembrar que em São Paulo temos 27% de jovens (entre 15 e 24 anos de idade), que não estão nem trabalhando nem estudando. O palco está armado.
No plano da terra, temos como ordem de grandeza 150 milhões de hectares de terra parada ou subutilizada, imensas regiões que disfarçam o desperdício com a categoria aparentemente técnica de 'pecuária extensiva'. Palestra recente de Carlos Lopes, ex-representante das Nações Unidas no nosso país e hoje assessor direto de Kofi Annan, indicava que hoje o Brasil dispõe do maior estoque de terras agrícolas paradas do mundo. Segundo o IBGE, são 72 milhões de pessoas inseguras quanto à comida do amanhã, enquanto centenas de milhares de pessoas pedem terra para cultivar.
No plano das nossas poupanças, não andamos melhor. Com um volume de crédito da ordem de um quarto do PIB (Produto Interno Bruto), andamos em menos da metade que se usa em outros países. Pior ainda, os juros nos bancos comerciais - porque a Selic, com uma taxa real de 11% não é mais um drama central - atinge níveis estratosféricos. A Folha de S. Paulo de 9 de março apresenta um pequeno balanço dos juros praticados no mercado: 63% para capital de giro, 94% para empréstimo pessoal nos bancos, 103% no comércio, 156% no cheque especial, 220% no cartão de crédito, e 272% no empréstimo pessoal nas financeiras. Segundo a FSP de 5 de junho, "no ano passado, o lucro líquido de 127 bancos - responsáveis por 96% dos ativos totais do sistema - somou R$ 65,47 bilhões, um aumento de 38% em relação a 2004". O desvio das poupanças para aplicações financeiras limita o acesso ao financiamento simples e barato indispensável para dinamizar pequenas atividades produtivas de desenvolvimento local.
O que isto tem a ver com tecnologias sociais e racionalidade econômica? Basicamente, constata-se que a economia do País está organizada para um terço da população, a mais próspera, para grandes empreendimentos, e para a grande finança, todos utilizando tecnologia avançada, intensiva em conhecimento e em capital. Quem não está 'dentro' do processo, estaria simplesmente sofrendo de um problema individual, não possuindo o que se chama hoje de 'empregabilidade'. Abriremos mais cursos técnicos, e estas pessoas serão 'empregáveis'. Poucos se iludem com este tipo de solução fragmentada. Fazer funcionar o andar de baixo da economia envolve soluções criativas.
Um exemplo interessante é programa Prove (Programa de Verticalização da Pequena Produção Agrícola). Consiste em dotar o pequeno agricultor de um mínimo de equipamento para não vender o seu produto em bruto, quando os preços estão no chão, mas já minimamente transformados: farinha de mandioca em vez de mandioca, e assim por diante. Desmontado no Distrito Federal pelas nossas descontinuidades políticas absurdas, desenvolve-se em vários outros Estados, e inclusive em outros países.
Outro exemplo é o da região de São Joaquim, região que era de IDH mais baixo de Santa Catarina, onde pequenos produtores se organizaram em cooperativas, fizeram parcerias com universidades que ajudaram a definir a vocação econômica regional, e hoje é uma das regiões de mais rápido crescimento do País.
A cidade carioca de Piraí, para dar outro exemplo, montou o programa Piraí Digital, que assegura acesso à internet em banda larga para todos no município, generalizando ganhos de produtividade e atraindo empresas. Pequenos produtores com acesso à internet compram melhor, expandem as vendas. O acesso em bairros pobres muda o comportamento.
Outro exemplo ainda nos vem de Caxias do Sul (RS), onde pequenos produtores se organizaram em cooperativas, e criaram uma Agência de Garantia de Crédito (AGC), que junta os numerosos pedidos de pequenos empréstimos, e os transforma num pacote, evitando aos intermediários financeiros a constituição de inúmeros cadastros. A AGC levantou R$ 14 milhões de contribuições de prefeituras e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e calculando não mais de 5% de inadimplência, com 14 milhões passam a garantir 280 milhões em créditos.
Estes exemplos - e há inúmeros outros como o projeto Um Milhão de Cisternas da ASA (Articulação no Semi-Árido Brasileiro), as iniciativas do Grupo de Trabalho Amazônico etc. - mostram o leque das tecnologias sociais: instalações e pequeno equipamento no caso do Prove, tecnologia organizacional no caso de São Joaquim, conectividade que gera economias externas para todos os agentes econômicos no caso de Piraí, novas arquiteturas financeiras no caso de Caxias do Sul.
Precisamos conectar os dois raciocínios: os recursos subutilizados e tecnologias simples que possam facilitar a inserção produtiva da base do país. É ver o drama da exclusão pelo prisma positivo do leque de oportunidades que oferece, do horizonte interno de expansão econômica pela inclusão. Não há dúvida que as empresas podem encontrar um papel extremamente útil ao ajudar, cada uma na sua região, a generalizar este tipo de iniciativas, que dinamizam outro tipo de mercado, e geram um círculo virtuoso de crescimento. Ao invés de cada empresa apenas defender a sua fatia de mercado, ampliar o mercado como um todo. Não há dúvida que uma série de iniciativas como o Bolsa Família, o aumento do financiamento ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), o microcrédito, a melhor capacidade de compra do salário mínimo, o ProUni (Programa Universidade para Todos) e outras, ajudam todas a tirar o segmento mais pobre da população de uma marginalização obscena em termos éticos, e burra em termos econômicos. Mas, para irmos além da distribuição de renda, temos de criar dinâmicas de inclusão produtiva.
Esta opção implica gerar processos integrados de desenvolvimento local, envolvendo parcerias entre os diversos agentes, prefeituras, organizações da sociedade civil, sindicatos, empresas, universidades. O reequilíbrio econômico gerará melhor qualidade de vida para todos, a maré tem de levantar todos os barcos. Os que se concentram em administrar privilégios são espertos, mas precisamos mesmo é de gente com visão e generosidade.
*Ladislau Dowbor é professor titular de Economia e Administração da PUC de São Paulo, assessor de várias instituições da sociedade civil, e autor de numerosos estudos, disponíveis em http://dowbor.org.


3. Mário Maestri, de quem já recomendamos vários trabalhos aqui, publicou no site da revista Novae.inf.br uma contribuição à discussão sobre o Estatuto da Igualdade Social e Lei de Cotas, em discussão no Congresso Nacional.

Brasil: Da Luta Social à Luta Racial

Mário Maestri*

Em 29 de junho, os presidentes da Câmara e do Senado receberam manifesto contra os projetos de Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial que propõem privilégios raciais no ensino público e incentivos a empresas que apliquem essa orientação. O documento defende que a discriminação positiva de brasileiros com alguma afro-ascendência legaliza privilégios baseados na cor, ferindo o “princípio da igualdade política e jurídica dos cidadãos".
Os signatários do documento defendem a “construção de serviços públicos universais de qualidade nos setores de educação, saúde e previdência, em especial a criação de empregos” e que os projetos de lei acirram o “conflito” e a “intolerância” raciais. A declaração motivou nutridas respostas que, como habitual, reafirmaram as bondades das propostas e qualificaram a oposição a elas como, no mínimo, reações do elitismo branco.
A discriminação racial positiva possui argumentos aparentemente irretorquíveis. Devido ao passado escravista, os negros seriam explorados pelos brancos desde a fundação do Brasil. A situação de discriminação racial é dado objetivo possível de ser equilibrada apenas por discriminação positiva. Não podemos esperar os resultados de medidas universais – educação, saúde, etc. – que, sugere-se, não alcançariam resultados para a população negra. Elas deveriam ser substituídas por ações focalizadas.
É indiscutível que o afro-descendente constitui parte fundamental dos setores mais explorados e que o racismo segue motivando violências materiais e espirituais. Porém, as propostas de combate a essa realidade materializam projetos e interesses diversos. A defesa de discriminação racial positiva constitui a ponta de lança de programa de reorganização racial da sociedade brasileira de graves conseqüências.
A quem interessa?Mais de três décadas após a aplicação de vasto programa de discriminação racial positiva, a população afro-estadunidense pobre vive mergulhada na miséria relativa e absoluta e perde posições em comparação aos latinos e asiáticos. A prisão é hoje a grande solução para a questão negra nos EUA que, com 5% da população do planeta, possui 20% dos encarcerados. Deles, 50% são negros! No país mais rico do mundo, o jovem negro acaba normalmente nos braços da prisão e da droga e dificilmente em uma universidade ou emprego razoável. Não é um paradoxo que uma política fracassada seja apresentada no Brasil como panacéia dos males afro-brasileiros, já que, nos EUA, obteve seus objetivos reais, ou seja, aliviar sem solucionar as tensões sociais. O mito fundador estadunidense é a premiação do valor individual intrínseco na competição social, realidade que dividiria a sociedade em winners – vencedores – e losers – perdedores. O sucesso dos descendentes de anglo-saxões comprovaria apenas a superioridade branca sobre as raças africana, ameríndia, latina, etc. Essa concepção é apoiada por aristocracia operária branca – “blue collars” – favorável à opressão imperialista externa e social interna.Até a II Guerra, a violência social, policial e jurídica manteve a opressão da população de cor, essencial à super-exploração do trabalhador estadunidense. Nos anos 1950, a luta pela libertação nacional africana e, a seguir, a ascensão da mobilização social mundial, contribuíram para a radicalização dos afro-estadunidenses. Em plena Guerra Fria, o fato de que todos os postos de mando fossem ocupados quase exclusivamente por brancos desvelava impudicamente as violências da democracia estadunidense.Muito logo, generalizou-se a consciência da inapelável condenação da comunidade afro-estadunidense ao fracasso devido às seqüelas da escravidão, apesar da historiografia daquele país traçar cenários verdadeiramente idílicos do passado escravista, ao igual do que ocorre atualmente no Brasil. Impunham-se portanto medidas que desarmassem a crescente mobilização afro-estadunidense.
Para que nada mude O capital opõe-se aos direitos sociais universais, pelos seus custos econômicos, políticos e ideológicos. Apoiado em ideário igualitarista, os trabalhadores europeus conquistaram direitos sociais universais e gratuitos – saúde, educação, emprego, etc. A fragilidade dos trabalhadores estadunidenses ensejou que as caras políticas universais fossem substituídas por facilidades pontuais para membros das minorias nas universidades, serviços públicos, etc. Em vez de investimentos sociais maciços e modificações nas relações sociais, promoveu-se a progressão de alguns indivíduos das comunidades marginalizadas. Ao enegrecer relativamente a parte visível do Estado, Exército, mídia, etc., a política das cotas mitigava grave contradição da apologia do capitalismo e ampliava seu apoio entre os afro-estadunidenses. A operação estendia a esses últimos o mito da vitória pelos méritos individuais, ao favorecer a formação de classe média negra, ainda que raquítica, não raro fortemente preconceituosa com o sub-proletariado negro, devido à constrangedora proximidade com ele. Nos anos 1950, na Coréia, em nome da liberdade, generais brancos comandaram o ataque a amarelos diabolizados. Em 2006, midiáticos generais negros e latinos prestam igual serviço em forma racialmente correta. Ontem e hoje, os soldados estadunidenses que retornam mortos e estropiados continuam sendo sobretudo negros, latinos, asiáticos, etc., arrolados pelo açoite da necessidade econômica.A ilusão sobre mundo formado por grupos raciais, de culturas e valores únicos, que negociam através de seus líderes seus direitos, contribui para que o trabalhador estadunidense não tome consciência de suas necessidades. Aquela sociedade segue ignorando o princípio da solidariedade entre cidadãos irmanados por território, história, costumes, etc. comuns ou concorrentes, pois não consegue repousar sua identidade nacional no trabalho, categoria socializadora das diversidades humanas.Brasil: a cor da exploração No passado, a necessidade de incorporar extra-europeus ao sistema de domínio colonial lusitano impediu que aquelas classes dominantes assentassem sua dominação, como nas colônias anglo-saxônicas, também sobre a retórica do exclusivismo racial. Sequer o império brasileiro, também despoticamente apoiado na escravidão negra, incorporou em sua Constituição referências à diversidade das raças. Sobretudo após 1930, a ideologia da identidade nacional foi o discurso dominante no Brasil, que não excluía propostas de hierarquia racial e social. O conceito de comunidade nacional assumiu conteúdo progressista no contexto da conformação multirracial das classes trabalhadoras brasileiras, formadas por descendentes de europeus, nativos, africanos e multidões de indivíduos nascidos da miscigenação dessas e de outras comunidades. No Brasil moderno jamais houve exclusivismo racial na exploração do mundo do trabalho, mesmo cabendo em algumas regiões o papel de sub-proletariado sobretudo à população negra. A divisão do país em brancos exploradores e negros explorados é sandice ideológica apoiada em manipulação rústica das estatísticas, como assinalado no brilhante artigo de César Benjamin “Racismo não” [CAROS AMIGOS, set. 2002]. É também capenga a proposta de trabalhador branco privilegiado pela super-exploração do negro que, na realidade, desqualifica o valor e a capacidade contratual geral do trabalho. A racialização da sociedade brasileira é exotismo político introduzido nos anos 1990 por organizações estadunidenses desinteressadas como a Ford Foundation. Ela anunciou o fim das classes e proclamou que também o Brasil, ao igual que o grande irmão do Norte, seria formado, não por classes sociais, mas por comunidades de descendentes de africanos, lusitanos, italianos, etc., coeridas por valores culturais únicos e estranhos aos dos outros grupos étnicos.
Luta racialNo novo cenário de luta racial, a questão não seria mais pôr fim à exploração social mas democratizar racialmente o privilégio. A luta racial justificaria a progressão de indivíduos singulares, mesmo à custa da opressão, nem que seja para melhorar a “auto-estima” de membros de sua comunidade que permanecerão mergulhados na marginalidade. Um afro ou luso-descendente morando em cobertura da Vieira Souto seria conquista para os seus irmãos de raça condenados a morar até a morte em barracos na Rocinha.
A proposta de racialização da sociedade brasileira penetrou como faca quente em manteiga fresca, devido à violenta depressão dos valores universalistas, racionalistas, socialistas, etc., motivada pela vitória da contra-revolução neoliberal em fins dos anos 1980. Amplos setores da esquerda aceitaram-na sem crítica como parte das novas e antigas sensibilidades ambientalistas, feministas, anti-racistas, etc.
O movimento negro que, ao igual que os outros setores da esquerda no Brasil, sempre penou para estabelecer laços com a população marginalizada, substancialmente à proposta de racialização da sociedade que lhe prometia funções representativas diante do Estado e conquistas pontuais sobretudo para seus segmentos médios, mesmo que nada oferecesse à imensa população afro-descendente marginalizada. Desde então, para o gáudio do grande capital, consolida-se a proposta de luta social isolada pela divisão racial da miséria, em vez de combate unitário pelos amplos e gerais direitos da população.
* Mário Maestri, 58, dedica-se, há trinta anos, à história social da escravidão negra no Brasil. Escreveu, entre outros, O escravismo no Brasil, publicado pela Editora Atual. E-mail: maestri@via-rs.net


4. Eles não se emendam....Parte 1

Senadores ressuscitam "Código de Defesa dos Sonegadores"

Em vez de boicotar a votação da Super Receita, parlamentares do PSDB e PFL tentaram aprovar, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, um relatório com dispositivos de fragilização do Fisco e blindagem das empresas. > LEIA MAIS Economia 12/07/2006

5. Eles não se emendam... parte 2

A revista Istoé, traz, em seu site, matéria sobre projetos absurdos apresentados pelos “legisladores” brasileiros. Verifique alguns deles. Se estiver interessado em votar Qual o mais absurdo? Visite a página, leia a matéria completa e dê seu voto:
http://www.terra.com.br/istoe/materias_online/leis_absurdas.htm#

6. Eles não se emendam... parte 3

Severino vai voltar
Depois de renunciar e se livrar da cassação, ele tenta se eleger novamente deputado federal
Leia em: http://www.terra.com.br/istoe/ - há uma entrevista com ele, hilária, mas, ao mesmo tempo, reveladora de como anda a nossa política!!!

7. Eles não se emendam.... parte 4

Leia na Revista IstoE desta semana, ou então entre no site para verificar o mais novo escândalo, desta vez envolvendo o Poder Judiciário. Trata-se da atuação do lobista Roberto Bertholdo...que eu acho que deixa o Marcos Valério no chinelo. E a história ainda tem filhos de juizes vendendo sentenças... horror completo! Visão do inferno!!!
http://www.terra.com.br/istoe/

8. Reestruturação produtiva, reengenharia... e tantos outros conceitos recentemente incorporados ao mundo do trabalho, mostram-se agora em toda sua crueza. E o problema não é apenas de uma empresa brasileira: é todo o sistema que se envolve nessa luta para reduzir custos e se tornar cada vez mais competitivo... quem perde? Um doce a quem pensou que são os trabalhadores os que mais perdem...

DEMISSõES NA VOLKS: O BURACO é MAIS EMBAIXO? / Plano de dispensas da empresa no Brasil pode fazer parte de uma reestruturação produtiva na indústria automobilística mundial/Por Olavo Soares/Revista Fórum

A Volkswagen anunciou, no final de maio, o fechamento da unidade de São Bernardo, que estaria obsoleta e inviável para acompanhar a velocidade da tecnologia da indústria automobilística. Além disso, a empresa pretende realizar demissões em larga escala em outras três fábricas em Taubaté (SP), São José dos Pinhais (PR) e Rezende (RJ). Os cortes devem atingir 5.773 trabalhadores, um número significativo se considerarmos que a empresa tem 22 mil funcionários no Brasil.Claro que essas demissões em massa, por si só, já seriam notícia das mais alarmantes. Afinal, a quantidade de trabalhadores que perderá o emprego está longe de ser ínfima. Porém, um olhar mais atento sobre os fatos nos mostra que as demissões da Volks assustam não apenas por isso, mas por representarem uma tendência na economia mundial e que deve fazer mais estragos nos próximos anos. Leia mais: http://www.revistaforum.com.br/


Nuestra América

1. ENTREVISTA - JOSÉ MUJICA

Construir uma economia complementar é mais importante que comércio

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, o ministro de Pecuária e Agricultura do Uruguai, José Mujica, defende uma visão latinoamericana para o Mercosul e diz que proposta de um TLC entre Uruguai e EUA é uma quimera. "Devemos ficar menos preocupados com o comércio e mais com a construção de uma economia complementar. É nisso que estamos atrasados", defende. > LEIA MAIS Internacional 11/07/2006

2. Luiz Augusto Gollo

Pinochet, quem diria, acabou no CV

Pinochet liderou o golpe contra Salvador Allende, em setembro de 1973, e pôs seu amigo Manuel Contreras no comando da Dina, a Direção de Inteligência Nacional, órgão máximo da repressão. Agora, Contreras denuncia que fortuna de Pinochet veio do tráfico de cocaína. - 15/07/2006


Internacional

1. A crise no Oriente Médio cresce de forma assustadora. A invasão do Líbano por Israel é comentada por Pedro Dória, do site nominimo.com.br

Moto-contínuo
Israel entrou no Líbano.

Foi a primeira incursão de soldados desde 2000, quando o território libanês foi deixado oficialmente. A crise é séria, particularmente séria e nada simples de ser destrinchada. Como de hábito, falando francamente é difícil pinçar quem tem razão na história.
O território libanês foi invadido para que fosse tentado o resgate de dois soldados israelenses seqüestrados por guerrilheiros do Hezbollah. E, nisto, fica difícil Israel ter escolha. Tem que ir atrás dos seus.
O Hezbollah seqüestrou soldados imitando a tática recente do Hamas. A diferença é que o Hamas opera em território sob comando da Autoridade Palestina mas, oficialmente, parte de Israel. O Líbano é território estrangeiro.
A argumentação de Israel é que se o Líbano não faz nada para conter o Hezbollah então Israel pode, legitimamente, considerar o seqüestro de seus soldados um ato de guerra.
Aí já não é tanto verdade – faz parte do discurso diplomático mas é bem mais complicado que isso.
O governo em Beirute não tem controle sobre todo seu território – milícias, o Hezbollah particularmente forte, ainda mandam em trechos aqui e ali. A Guerra do Líbano já acabou faz muito tempo mas seus efeitos permanecem.
Em setembro de 2004, a ONU interveio no país e baixou a resolução 1.559. Ordenava ao governo que assumisse o controle total de seu território. No caso do Hezbollah, a milícia não se desfaz alegando que Israel ainda não deixou totalmente o Líbano.
É referência a um naco de terras muito pequeno, na fronteira entre Líbano, Síria e Israel. As Fazendas de Sheeba. Ficam ao lado das Colinas de Golan. Aquilo não é terra libanesa, segundo a ONU, é território sírio. Mas Israel de fato está lá e o Líbano jamais reconheceu que pertencem à Síria. Então o Hezbollah continua sua luta árdua para livrar-se do invasor israelense. É uma luta de mentira, cínica até. Não há tal invasor do território libanês.
Há algumas maneiras de tirar do Hezbollah o argumento. Um é Israel deixar o local. Não o faz porque, estas são as explicações oficiais, tal controle faz parte da política de segurança do fornecimento de água eternamente ameaçado pelos sírios; e porque isto é só uma desculpa – deixam as fazendas, o Hezbollah descola outro argumento. Seu problema é manter a agressão contra a “Palestina ocupada”.
A outra forma parte do Líbano: Beirute teria que reconhecer que não tem qualquer autoridade sobre o território. Aí fica sendo, oficialmente, o que de fato é – problema entre israelenses e sírios, nada tem uma milícia libanesa com isso.
Tentar resolver a questão por argumentos é inútil, nisso Israel tem razão. O que de fato a entrada de seus soldados em território estrangeiro – uma invasão – quer dizer?
Israel sabe que o governo libanês não tem controle sobre o Hezbollah. Isto é um problema. Tem que ir atrás de seus dois soldados, mas considerar como ato de guerra põe em risco a resolução 1.559. É exatamente o que querem Hezbollah e Síria.
A resolução foi a base legal para obrigar o exército sírio a deixar o Líbano. Afinal, a partir do momento em que não havia mais invasor estrangeiro e o governo libanês conseguiria, enfim, assumir todo seu território – então a proteção mui gentil e fraterna do governo sírio fez-se desnecessária.
A Síria era puramente um invasor, claro, mas um bom argumento como aquela resolução da ONU e a impopularidade após o assassinato (planejado pela espionagem síria) do ex-premiê Rafik Hariri convenceu que deixar o país era melhor.
É só que, no momento em que Israel invade de fato o Líbano, a Síria tem consigo a desculpa que sempre usou – a de que o amigo Líbano estava ameaçado. O Hezbollah tem, consigo, a justificativa para sua luta de libertação do Líbano constantemente invadido por Israel.
É um nó, no fim das contas, e nada simples – mas um daqueles em que, às vezes parece, o melhor que Israel tinha a fazer era fazer nada. E, no entanto, como abandonar dois garotos assustados? São soldados – faz parte do trabalho. Como tolerar o seqüestro de soldados? Como tolerar este seqüestro quando está cada vez mais evidente que é a nova tática dos grupos terroristas? E fazer algo é, justamente, dar de uma só vez uns quatro passos para trás.
O bicho se auto-alimenta.
Antes de mudar de assunto, duas coisas.
Bombardear o Aeroporto de Beirute, como Israel está fazendo, não tem nada de producente. Está impondo estragos e dor a quem não tem nada a ver com isto. Está enfraquecendo o governo e, portanto, fortalecendo o Hezbollah.
Dois, o professor blogueiro Juan Cole
tem razão:
A culpa é dos que rejeitaram a paz nos dois lados. O Processo de Paz de Oslo poderia ter evitado toda esta violência, como o premiê israelense Yitzhak Rabin percebia. Mas, no lado israelense, o Likud, partido de Bibi Netanyahy e Ariel Sharon e Ehud Olmert forçaram seu descarrilamento. No lado palestino, o Hamas o rejeitou. Se tivesse havido um processo de paz, os prisioneiros teriam sido libertados em troca do fim das hostilidades e não haveria qualquer motivação para a captura de soldados israelenses.
A chance existiu. E passou.

2. Ainda a crise no Oriente Médio, que não pára de se agravar:

Terrorismo de Estado e hipocrisia global: uma combinação explosiva

Com o apoio dos EUA, Israel pratica terrorismo de Estado ao matar civis, queimar crianças vivas no Líbano e destruir a infra-estrutura do país. Robert Fisk, jornalista inglês, critica hipocrisia global e diz que o está acontecendo na região é um escândalo. > LEIA MAIS Internacional 17/07/2006


3. O governo norte-americano sob críticas de seu próprio partido. É o que noticia o Observatório da Imprensa:

NYT publica carta crítica ao governo americano
em 11/7/2006

O New York Times publicou, no domingo (9/7), matéria que não deve ter agradado nada à Casa Branca, noticia a Editor & Publisher [9/7/06]. O jornal obteve uma carta enviada pelo deputado republicano Pete Hoekstra, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados, ao presidente George Bush no dia 18/5, acusando o governo de ter "violado a lei ao falhar em informar o Congresso sobre alguns programas do serviço secreto".
A carta, de quatro páginas, também alertava sobre os riscos do governo perder parte do apoio do partido em questões de segurança nacional. "Eu soube de algumas supostas atividades do serviço secreto sobre as quais nosso comitê não tomou conhecimento. Se as alegações forem verdadeiras, elas podem representar quebra de responsabilidade da administração, violação da lei e uma afronta direta a mim e aos membros deste comitê, que apoiou os esforços de reunir informações sobre nossos inimigos", escreveu Hoekstra, sem identificar quais seriam tais atividades.
As agências de inteligência dos EUA que conduzem programas secretos são obrigadas, pelo Ato de Segurança Nacional, a manter os Comitês de Inteligência do Congresso "completamente informados sobre todas as atividades". Com informações de Eric Lichtblau e Scott Shane [The New York Times, 9/7/06].


Livros e revistas

1. Revista Ciência Hoje nº 227
Cidades: caos e exclusão social

O processo de urbanização no país vem sofrendo mudanças nas últimas décadas. Mas a concentração da população nas metrópoles não só se mantém como vem se agravando, trazendo conseqüências como crescimento de favelas, segregação social, desemprego, violência, aumento da produção de lixo sem tratamento adequado, engarrafamentos quilométricos e muitos outros transtornos que tornam o dia-a-dia nas grandes cidades sofrido e caótico para seus habitantes. Nesta edição especial, trazemos quatro artigos que abordam esse tema e apontam possíveis soluções para algumas das principais mazelas da população urbana.

2. "Uma ilusão de desenvolvimento", de Lucio Flavio Rodrigues de Almeida, editora EDUFSC. O autor examina os principais estudos sobre o governo de Juscelino Kubitschek, rejeita a nostalgia dos "anos dourados" e apresenta uma analise critica do "nacionalismo triunfante", que foi a configuração especifica adquirida pelo nacional-populismo na segunda metade dos anos 50. Mais informações em www.sociologos.org.br/variedade/default.asp?id=51.

3. "Globalização e desigualdade", organizado por Marcio Moraes Valença e Rita de Cássia da Conceição Gomes, editora Natal: A.S. Mais informações pelo e-mail: aslivros@digi.com.br.

4. "Gênese de Deus e o Diabo na terra do sol", de Josette Monzani, editora Annablume. Trata-se de um estudo minucioso de uma das mais importantes obras de Glauber Rocha. Mais informações em www.annablume.com.br.

5. "Gestão de inovações no ensino médio: Argentina, Brasil, Espanha", organizado por Ana Vitar, Dagmar Zibas, Celso Ferretti e Gisela Lobo Tartuce, editora Liber Livro. Mais informações pelo e-mail: editora@liberlivro.com.br

6. Revista Caros Amigos, nº 112, de julho. Nas bancas. Bela entrevista com Oscar Niemeyer. Traz, ainda, além dos colunistas habituais, a relação de todos os deputados e candidatos a cargos do poder executivo de MG, SP, RJ e BA que teriam recebido dinheiro de Furnas, conforme lista cujo original apareceu e está em mãos da Polícia Federal. Traz também a conversa entre Marcola e os membros da CPI em Presidente Bernardes.


Sites interessantes

1. O novo numero da revista Esporte e Sociedade já esta' disponível em www.esportesociedade.com.

2. O novo número da Fênix - Revista de História e Estudos Culturais [Vol. 3, Ano III, nº 2 abril/maio/junho de 2006], avaliada pela CAPES com conceito "A" [QUALIS], já está disponível e pode ser consultado no seguinte endereço www.revistafenix.pro.br
Os editores aproveitam a oportunidade para lembrar que recebem artigos em fluxo contínuo.

Notícias

1. Está tudo pronto para o início de mais uma grande festa da ciência brasileira. Nesta semana, o campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, é o palco da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que celebra este ano sua 58ª edição. Na pauta do encontro, temas da ordem do dia da ciência e tecnologia no Brasil, como a implantação da TV digital, gripe aviária, mudanças climáticas globais, nanotecnologia, violência urbana e inclusão social, entre muitos outros.

As reuniões anuais da SBPC são uma ocasião única que o público tem para entrar em contato com a ciência e tecnologia de ponta feita no Brasil, apresentada por alguns de nossos principais pesquisadores. Poucas iniciativas têm o privilégio de reunir no mesmo evento nomes de destaque de áreas distintas, como Miguel Nicolelis, Carlos Nobre, Niède Guidon, Francisco Salzano e Marilena Chauí – todos eles confirmados na reunião de Florianópolis.

Ao longo de cinco dias, centenas de eventos simultâneos permitirão que os participantes montem sua programação em função de seus interesses. Os números da programação são superlativos: cerca de 600 palestrantes farão 50 conferências, 60 simpósios, 50 minicursos e 30 mesas-redondas, entre outras atividades. A reunião anual da SBPC se renova em 2006: a maior novidade é a transmissão de parte da programação pela internet. A previsão é que 65 atividades sejam difundidas em tempo real, totalizando 125 horas de transmissão nos cinco dias de evento. Para assistir à programação on-line, basta acessar www.sbpc.ufsc.br.

2. X ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH-PR. Tema: O Profissional da História. Período: 08 a 11 de Outubro de 2006. Local: Universidade Estadual de Maringá - Maringá-Pr. CRONOGRAMA: Para os Simpósios Temáticos, Mini-Cursos e Painéis, a inscrição das propostas acontece entre 07/07 e 23/07; para o evento, a inscrição pela internet acontece de 07/07 a 07/10 e a confirmação da inscrição via Internet em 08/10, junto à secretaria do evento; a entrega do texto integral para publicação nos anais deve acontecer até 20/09/2006. Informações mais detalhadas são encontradas na página da Anpuh-Pr ou com a comissão organizadora do evento através do e-mail xeranpuh.pr@gmail.com.

3. IX Encontro Regional da ANPUH-GO e a VI Semana de História, cujo tema é “História da Cultura e Escrita da História”, acontecem entre os dias 16 e 19 de outubro de 2006. As inscrições para apresentação de trabalho em mini-simpósios encerram-se no dia 18 de agosto de 2006. As inscrições estão sendo realizadas através do site http://anpuhgo.ubbihp.com.br. Para maiores informações ligar para (62) 3521-1013 ou enviar mensagens para anpuhgo@yahoo.com.br. O evento é uma realização conjunta da ANPUH-GO com o Departamento de História da FCHF, o Programa de Pós-Graduação em História da FCHF, o PRODOC/CAPES e a FCHF/UFG.

4. A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) divulga edital de inscrições do seu Concurso Publico. As inscrições deverão ser realizadas via Internet em www.covest.com.br, no periodo de 20/7/2006 ate' 4/8/2006. Para Pesquisador Assistente as vagas estão assim dispostas: Ciências Sociais - 2 vagas; Historia - 1 vaga; Antropologia - 1 vaga; Ciência Política - 1 vaga; Ciências Sociais ou das Ciências Sociais Aplicadas ou de Desenvolvimento Urbano e Regional - 2 vagas. Para Pesquisador Adjunto serão disponibilizadas três vagas na área de Ciências Sociais.
O salário é de R$ 3.781,30. O Edital completo está em:http://www.fundaj.gov.br/geral/ascom/edital_concurso.pdf

5. Estão abertas as inscrições para o Concurso Publico na área de Antropologia na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). O concurso e' para o preenchimento de uma vaga, na área de Teoria Antropológica. Mais informações em www.uenf.br/Uenf/index.html.

6. As inscrições para as provas de seleção do Mestrado do Programa de pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) poderão ser realizadas ate' 28/7/2006. Mais informações em www.ifch.unicamp.br/pos ou pelo tel.: (19) 3788-1614.

7. No próximo semestre, o Atelier/Escola Arte Minas estará oferecendo dois dos quatro módulos que compõem o curso de História da Arte, conforme segue:

1o. módulo: Da arte dos primórdios à Pré-Renascença
2o. módulo: Da Renascença ao Pós-Impressionismo (final do século XIX)
3o. módulo: Arte Moderna e vanguardas da primeira metade do século XX
4o. módulo: Arte Contemporânea (da Pop Art à atualidade)

Obs.: No próximo semestre, as aulas começarão na primeira semana de agosto e irão até o final de novembro (4 meses) e serão oferecidos apenas os seguintes módulos (os outros serão oferecidos em 2007):

- 2o. (aulas semanais às terças-feiras, das 19hs às 22hs)

- 4o. (aulas semanais às quintas-feira, das 19hs às 22hs)

Cada módulo possui a duração de um semestre letivo, ou seja, aproximadamente 4/5 meses. Os módulos são independentes, embora complementares.

Valor da mensalidade: R$140,00. Telefones para contato:
3297-3794 (atelier) / 9163-6020 (Léa) / 9163-7370 (Alderico).

8. Estão abertas as inscrições para o curso de pós-graduação em História, Patrimônio Cultural e Turismo, da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte.

Disciplinas: Metodologia científica - Historia de Minas I e II - Historia da Arte – Ética - Constituição e Preservação do Patrimônio Cultural - Turismo e Patrimônio Cultural em Minas Gerais - Seminário de Pesquisa.

O(a) aluno(a) pode optar por uma das seguintes formas de pagamento: 12 parcelas de 380,00 ou 18 de 280,00 ou 24 de 230,00.Inscrições abertas na Faculdade Estácio de Sá – Av. Francisco Sales, 23 - ou pelo site www.bh.estacio.br

9. Um novo olhar sobre o mundo e o Brasil

Temos o prazer de convidá-l@ a conhecer a nova edição internet do Le MondeDiplomatique-Brasil. Publicado mensalmente, em 23 idiomas e 34 países, o jornal tornou-se sinônimo de imprensa crítica e sem concessões à superficialidade. Está associado à idéia de que os cidadãos têm direito de compreender em profundidade o mundo e participar de sua transformação.O número de junho <http://www.diplo.com.br/2006-06,r89> está no ar.

A edição brasileira traz diversas novidades:

> Uma Biblioteca <http://www.diplo.com.br/temas> com mais de 1300 textos, divididos em 500 Fichas Temáticas que debatem assuntos-chaves para compreender a globalização e as alternativas.

> Dossiês com informações de fundo e pontos de vista incomuns sobre os fatos atuais mais relevantes. Três já estão no ar: 1 <http://www.diplo.com.br/2006-05,a1322>

2 <http://www.diplo.com.br/2006-05,a1324>

3 <http://www.diplo.com.br/2006-06,a1326>

> Breve, um Atlas da Globalização.

A nova edição internet é parte de um projeto maior, que visa lançar, em novembro próximo, a edição impressa <http://www.diplo.com.br/2006-05,a1323> do jornal.

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