Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

1.8.07

Número 100



Bem, aqui estamos.... este é o Boletim de número




Para quem não sabe, a idéia deste Boletim nasceu quando eu era coordenador do Laboratório de Documentação, Ensino e Pesquisa em História, do UNI-BH, onde eu lecionava desde 1986. Quando fui coordenador do curso, tive condições, graças ao apoio institucional, de criar o Laboratório, que tem crescido constantemente. E em 2003 eu estava na condição de coordenador do mesmo, quando tive a idéia de criar um Boletim informativo, semanal, destinado, a princípio, apenas aos alunos e ex-alunos. Quando deixei o UNI, em julho de 2004, lamentavelmente o Boletim deixou de ser feito. E vários ex-alunos me cobravam, daí surgiu a idéia de criar o Boletim Mineiro de História. Que hoje, felizmente, tem leitores não apenas entre os alunos e ex-alunos, mas ao ser colocado na forma de um blog, assumiu uma dimensão muito mais ampla. E tem leitores até no exterior, modéstia à parte. Em Portugal, no Japão, na Inglaterra, nos States, no Canadá, na Austrália, temos leitores fiéis. Isso tudo nos anima a continuar, só esperando que você, leitor(a) participe um pouco mais, debatendo as questões que se colocam aqui, comentando os artigos, discordando... é tão fácil... basta colocar as idéias na telinha e mandar para o
bolminhistoria@yahoo.com.br. Na edição seguinte ele estará colocado aqui e pronto a ser lido e debatido também.
A todos vocês, leitores, meu muito obrigado. E vamos agora começar a caminhada rumo ao número 200!!!
Ricardo
Na edição de hoje o Boletim não está com aquelas seções todas que normalmente eu coloco. Recebi de várias pessoas, leitoras e leitores novos e antigos, várias colaborações, algumas escritas especialmente para este número. São artigos variados, mas todos me pareceram extremamente importantes e que estão dando um toque especial a esta comemoração. Somente o primeiro fui selecionado por mim, acho que não daria para não comentar nada a respeito deste assunto que começa a aparecer na grande mídia.

1. ARTIGO:
Quem são os golpistas do ''Cansei''

Por Altamiro Borges [Segunda-Feira, 30 de Julho de 2007 às 17:58hs]

Animados com o bombardeio midiático contra o governo Lula, ricos empresários, tucanos e demos (ex-pefelistas) lançaram em São Paulo o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, também batizado de ''Cansei''. Cinicamente, seus criadores garantem que a iniciativa é ''apartidária'', nascida após a tragédia do avião da TAM, e visa apenas protestar contra o caos reinante no país. Para dar uma aparência de legalidade, o movimento será liderado pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP). Talvez saudosos das ''Marchas da Família, com Deus e pela Liberdade'', promovidas às vésperas do golpe militar de 1964 com apoio da embaixada dos EUA, o ''Cansei'' pretende organizar manifestações e investir pesado em publicidade.
As emissoras de televisão, que rejeitam o fato de serem concessões públicas, já anunciaram que cederão seus milionários espaços na telinha. Entre as peças publicitárias já boladas ''gentilmente'' pelo publicitário Nizan Guanaes, marqueteiro-mor dos tucanos, encontram-se algumas pérolas bem ao gosto da burguesia rentista: ''Cansei do caos aéreo'', ''cansei de bala perdida'', ''cansei de pagar tanto imposto''. Estas e outras idéias teriam sido discutidas no luxuoso hotel do empresário João Dória Jr., em Campos do Jordão - cidade de veraneio paulista que reúne a nata da burguesia durante o inverno. Nos últimos dias, por lá passaram vários industriais, banqueiros, barões do agronegócio e políticos, como o ex-presidente FHC, o atual governador José Serra e o presidenciável derrotado Geraldo Alckmin.
Conspiração da ''elite branca'' - Até agora, a melhor definição sobre este movimento foi dada pelo ex-governador paulista Cláudio Lembo - que é dirigente do Demo, mas não é hipócrita e tem lapsos de sinceridade. Após anunciar sua adesão ao ''Cansei'', ele afirmou ironicamente que a iniciativa é liderada ''por um segmento da elite branca. Deve ter começado em Campos do Jordão''.
No último final de semana, todos estes conspiradores se encontraram no Mosteiro São Bento no badalado casamento da filha de Geraldo Alckmin, Sophia – que ficou famosa por ''trabalhar'' na boutique de contrabando Daslu. A luxuosa cerimônia reuniu centenas de magnatas, a cúpula da direita neoliberal, alguns ''jornalistas'' famosos e a atriz Regina Duarte, que durante a campanha presidencial de 2002 apareceu na telinha com a frase terrorista ''eu tenho medo [do Lula]''.
Com protestos de rua nas principais capitais do país e fartos investimentos em publicidade, o ''Cansei'' pretende satanizar o presidente Lula, culpando-o por todos os males do país. O eixo principal da campanha visa marcar o governo como incompetente, ''péssimo administrador'', para ver se desperta a ira das camadas médias e gera confusão entre os setores populares. ''A sociedade precisa demonstrar a sua indignação'', bate na tecla o falastrão João Dória. Uma rápida olhada na biografia dos mentores do movimento, porém, confirma que o objetivo desta ''elite branca'' é forçar a oposição de direita ao governo Lula e, se possível, repetir a façanha das ''Marchas com Deus'' em 1964.
O líder João Dória Jr. - João Dória Jr., principal porta-voz do movimento, é um notório direitista. Na campanha presidencial de 2006, o empresário promoveu milionários jantares de apoio ao candidato Geraldo Alckmin. Amigo íntimo de FHC, em outubro passado premiou o ex-presidente com uma escultura da artista Anita Kaufmann. Ele também é um elitista contumaz. Segundo reportagem da Veja, ''conhecido pelo dom de reunir convidados famosos em festas e eventos empresariais, João Dória Jr., 47 anos, faz questão de manter o seu visual tão impecável quanto suas duas mansões, uma nos Jardins e outra em Campos do Jordão. Ele só usa camisas feitas sob medida (quase todas com colarinho italiano e monograma) e termos Ermenegildo Zegna''. Seu patrimônio pessoal é calculado em R$ 70 milhões; é dono da empresa Dória Associados, de um centro de exposições e de uma editora; tem um helicóptero Bell-407 e acaba de comprar um jatinho Phenon.
Outro artigo da mesma revista confirma que o líder do ''Cansei'' não tem nada de apolítico ou apartidário. Formado numa família de velhas raposas da UDN e filho do deputado cassado João Dória, Junior circula pelos corredores do poder há muito tempo. Foi secretário municipal de turismo e presidente da Embratur (também afastado por denúncias de corrupção). Com toda esta ''bagagem'', fundou em 1996 a Grupo de Lideres Empresariais (Lide), que reúne 406 executivos e donos de empresas com faturamento acima de R$ 200 milhões. Juntos, estes empresários controlam cerca de 40% do PIB brasileiro. ''Quem é capaz de por presidentes de grandes bancos de braços esticados, dançando Macarena? Ou, apito na bota, distribuir tarefas para chefões da indústria e respectivas senhoras? Resposta: João Dória Jr., publicitário, jornalista, empresário e, acima de tudo, talentosíssimo no trato com os poderosos'', descreve o artigo bajulador.
Os outros conspiradores
- Luiz D'Urso, presidente da seção paulista da OAB, é outro conhecido direitista. Advogado de ilustres bilionários, inclusive do casal Hernandes da Igreja Renascer - detido nos EUA por evasão de divisas -, ele imprimiu uma marca reacionária à OAB de São Paulo. Chegou a promover atos contra os servidores públicos em greve e a se manifestar publicamente em defesa da Emenda 3, que estimula a precarizaçao do trabalho. No ano passado, em plena campanha eleitoral, propôs o impeachment do presidente Lula.
- Nizan Guanaes, dono da poderosa agência África, é o principal marqueteiro tucano. Dirigiu as campanhas de FHC e Serra. ''Não sei dizer não ao Fernando Henrique'', confessou ao jornalista Gilberto Dimenstein. Segundo o Observatório da Imprensa, ele gozou de amplo poder no reinado de FHC. ''Nizan passou a cuidar informalmente da imagem do presidente e tem ido pelo menos dois dias por semana a Brasília. 'Estou doando meu tempo e talento para algo em que acredito'''.
- Marcus Hadade, ex-presidente da Confederação Nacional dos Jovens Empresários, e Ronaldo Koloszuk, diretor do Comitê de Jovens Executivos da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), coordenaram a primeira manifestação pública do ''Cansei'', na tarde deste domingo. Ajudaram a puxar palavras de ordem bem ''apolíticas'' e singelas: ''Fora Lula'', ''relaxa e fora'', ''assassino'' e ''1, 2, 3, Lula no xadrez''. Foram assediados por empresários, arrivistas tucanos, madames e mauricinhos e patricinhas da classe ''mérdia''.
- Paulo Zottolo, presidente da multinacional Philips no Brasil, empresa que bancou os primeiros anúncios em jornais do ''Cansei''. A generosidade não deve ter pesado muito em seu bolso. Segundo reportagem da IstoÉ Dinheiro, ''seu salário na Philips está estimado em R$ 2 milhões por ano'' e a multinacional teve no ano passado um faturamento de R$ 4,7 bilhões no país. ''Somos pagadores de impostos e cansei de me indignar e não fazer nada'', esbraveja o magnata.
- Sidnei Basile, diretor da Editora Abril, responsável pela edição da revista golpista Veja. Ele já anunciou que a empresa cederá gratuitamente os espaços publicitários nos seus vários veículos. A famiglia Civita, hoje associada à empresa racista Nasper, da África do Sul, tornou-se o porta-voz da oposição de direita ao governo Lula, manipulando informações e estimulando preconceitos nos seus incautos leitores.


2. Cristina Souza, do blog Tamoscomraiva, que estamos sempre recomendando aqui, enviou sua contribuição para este número, acompanhada de palavras carinhosas de incentivo.
'Quero aproveitar este espaço para parabenizar o Ricardo pela iniciativa de levar sua lista de discussões para a blogosfera. O Boletim Mineiro de História vem conquistando leitores a cada novo número, e ganhando um tom e formato absolutamente profissionais. A cada edição, sabemos que novos artigos muito interessantes estarão dispostos nas seções Brasil, Mundo, História, etc. O mais bacana foi o Ricardo -- professor veterano de História -- não ter se limitado à sua área (risco que o Boletim poderia ter corrido, até pelo próprio nome e pelo público principal), mas expandido os horizontes para as atualidades que interessam a qualquer pessoa. Aliás, todas muito bem comentadas pelo Ricardo nos editoriais. O Boletim sempre foi grande parceiro do Tamos com Raiva e espero que essa relação continue por vários anos! Os blogueiros e os leitores só têm a ganhar com a troca de informação e a divulgação de dados nem sempre destacados pela grande mídia.
Parabéns pelo nº 100, Ricardo!'
Cristina Souza

Tragédia no ar

Enquanto o Brasil chora a perda de 200 pessoas no maior acidente aéreo da história do país, o Leste Europeu sofre com a morte de mais de 500 pessoas em uma semana. A diferença é que, lá, a causa das mortes não é diretamente técnica, humana ou política: o grande vilão é o calor.

O aquecimento atinge também outras regiões da Europa e alguns lugares da Ásia, com dados impressionantes:

* Entre 15 e 22 de julho, a taxa de mortalidade aumentou em 30% no centro da Hungria, causando a morte de 230 pessoas. Ao todo, naquele país, cerca de 500 pessoas faleceram. As temperaturas ficaram sempre acima dos 30 graus, chegando a 41,9 graus em algumas regiões.

* Na Romênia, 30 pessoas morreram no mesmo período, sendo 12 só nos dias 18 e 19 de julho. Em junho, outras 33 já tinham falecido, quase todas em locais públicos. Nesse país, as temperaturas beiraram os 40 graus. Cerca de 19 mil pessoas foram hospitalizadas.

* Na mesma semana, a Sérvia enfrentava mais de 50 focos de incêndio, provocados por um calor recorde com temperaturas de até 43 graus.

* Também na Macedônia, Grécia, Bósnia, Bulgária, Kosovo, Montenegro e, um pouco além, na Itália (na Sicília, a temperatura chegou aos 44ºC) os incêndios causaram mortes e várias cidades declararam estado de emergência por falta de água e de eletricidade.

* No mês passado os termômetros marcaram mais de 46 graus, matando quase 40 pessoas na Grécia, Turquia e Romênia. Também em junho, mais de 120 paquistaneses e indianos sucumbiram a temperaturas de cerca de 50 graus.

* A Inglaterra enfrenta as piores enchentes dos últimos 60 anos, que vêm causando diversos transtornos para a população.

* Se esse ritmo se mantiver, o número de mortos deste ano vai superar o recorde de 2003, quando 70 mil europeus morreram castigados pelas ondas de calor.

Quem mais sofre com o aquecimento global são os idosos, que formam a maioria das vítimas. As causas diretas das mortes são geralmente ataques cardíacos e problemas cardiovasculares que se agravam com o calor.

Mas existem muitas outras sérias conseqüências do aquecimento global. No começo do mês, a Organização Mundial de Saúde afirmou que a população dos países mais pobres vai sofrer muito mais com a mudança climática. Muitos países pobres da Ásia, como o Bangladesh, não terão estrutura para suportar as enchentes e inundações que se tornam cada vez mais freqüentes com o aquecimento global. Elas vão gerar mortes, disseminar dengue e malária e provocar a migração em massa para grandes centros, que tampouco estão preparados para receber tantas pessoas. A agricultura, a economia e – principalmente – a saúde nesses países correm grande risco de entrar em colapso. As geleiras do Himalaia estão derretendo, levando ao transbordamento de lagos no Nepal. A malária já prolifera no Butão e na Papua Nova Guiné e a Índia enfrenta inundações gravíssimas. Enquanto isso, vários rios do Amazonas, como o Madeira, passam por suas primeiras secas.

O calor também poderá causar ondas gigantes no litoral de Santos (SP), até o fim deste século, segundo pesquisa da USP em parceria com a Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica. Estima-se que o nível do mar pode aumentar em até 1,5 metro, com ondas de até quatro metros na Baía de Santos. Como conseqüência, a faixa de areia de várias praias diminuiria muito (fenômeno que já vimos observando no litoral da Bahia), mangues seriam inundados e espécies de moluscos, crustáceos e minhocas marinhas desapareceriam. Estamos falando da extinção de todo um tipo de vegetação (manguezais) e de várias espécies animais. Cerca de 90 % dos corais, que têm valor econômico anual de 30 bilhões de dólares, já desapareceram só nos últimos dez anos.

O cenário é macabro, sem muitos atenuantes. Primeiro, os velhos morrerão. Depois, os pobres serão vítimas de enchentes, doenças e fome. Países inteiros vão entrar em colapso. E, ao fim, a natureza não vai poupar nem os países ricos, responsáveis diretos pelas catástrofes naturais que estamos experimentando (com 90% de certeza, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da ONU). Os Estados Unidos – maiores emissores de gases do efeito estufa – já terão sofrido tempestades tropicais e furacões piores que o Katrina devastarão suas costas. A Holanda ficará submersa, a China não vai tolerar o peso da própria população, Tsunamis destruirão a Ásia, a seca devastará a África.

Segundo as estimativas da ONU, em nada menos que 13 aninhos, a temperatura média global já terá aumentado em 1ºC. Em pouco mais de 80 anos, serão pelo menos 4ºC a mais.Daí por diante, num pulo, toda a raça humana terá sido engolida pelo colapso econômico, social e natural causado pelo descontrole dos próprios humanos. E não há Protocolo de Kyoto, IPCC e outras pesquisas que ajude a frear por muito mais tempo o xeque-mate da Terra – até porque burradas homéricas de George Bush e companhia, principalmente da China, ajudaram a tornar a tragédia cada vez mais iminente. Talvez nossos netos já sintam na pele o começo do fim. E os filhos dos atuais paquistaneses já sintam o que os velhos húngaros estão experimentando.

Depois do fim dos homens, Gaia vai se recompor. E a gente espera que a sabedoria da evolução traga espécies menos ambiciosas e mais engajadas na proteção do próprio ecossistema.


3. O filósofo e professor Paulo Ghiraldelli Jr, de São Paulo, enviou-nos o texto abaixo, escrito por Otto Maria Carpeaux. É artigo dos mais relevantes e vale a pena ser refletido e comentado!

A idéia de universidade e as idéias das classes médias
Ensaio do livro A Cinza do Purgatório,
incluído nos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux

Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada"; e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes." No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.
A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam "acadêmicos".
A última vez que passei perto deste "templo das Musas", o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.
Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe." Aí está a questão da Universidade.
Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito "práticos", "úteis" para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.
Mas o que quer dizer "prático", "útil"? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.
Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências "inúteis". Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências "práticas", a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.
Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das "velhas" ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.
A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a Ecole Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittemberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, o Gebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.
As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina — Lima, México, Bogotá, Córdova — são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais." Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: "After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust." (New England’s First Fruits, 1643.) ("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpertuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó."
O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há mais "clercs", só há estudantes.
Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.
Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres", sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres"; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão"; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes.
Estudantes "pobres", há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes "ricos". São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.
Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso." (Citado pelo cardeal Newman, The idea of a university, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.
É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem "intelectuais". Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos "clercs", da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: "Nuevo bárbaro, retrasado com respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también — el ingeniero, el médico, el abogado, el científico." (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).
O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as "massas", como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos — as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.
O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado, não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de "pequenos intelectuais"; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e anti-intelectualista.
Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das "autoridades sociais", que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.
Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente anti-intelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo "moderno", contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.
No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.
Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo — e Sorel o previra bem — era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.
Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou, melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança, essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.
A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência anti-intelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de "clercs", de uma elite.
O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas, existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.
O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.
Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raiz todas las demás" (O. c., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.
"We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.

Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os "clercs". O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições.
Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind", de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, anti-utilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura".
Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto." — dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, "dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust"



4. Nossa colaboradora Maria Teresa Armonia comparece com suas ácidas, mas pertinentes, críticas:

O GRANDE MOUSE DA HISTÓRIA...

Maria Tereza Armonia *

Se eu fosse um grande mouse acoplado a uma potente placa-mãe e tivesse poderes irrestritos, deletaria todas as safadezas do Brasil.
Sabe quando a gente tira aquele dia para fazer limpeza no computador e sai deletando aquele email que tem anos está no Outlook, ou aquele artigo que ficou guardado esperando ser lido e nunca foi, aquela figura linda dos jardins de tulipas holandesas que nunca teve serventia alguma?Já pensou?
Não ia sobrar arquivo pra contar história!
Quando menos esperasse, se alguém fosse pego com dinheiro nas cuecas, deletava. Ou, se desembarcasse em aeroportos com 11 malas de dinheiro - dólares, reais e alguns chequinhos, deletava também.
Se alguém gostasse muito de viajar à custa do erário, pimba!, estava deletado...Ministro que não vigiasse a sua Pasta, deixando-se corromper e permitindo aos seus funcionários corromperem-se, deletado!
E aquele deputado que fala sem provas mas põe todo o mundo de orelha em pé?!?!...deletado!Nisso aí já foi uma limpeza de muitos Gigabytes de descaramento...(O computador vai ficando limpinho!)...
Presidente de partido que pagasse mensalão, deletado!
Assessor de irmão do irmão do primo do presidente do partido, encontrado com dinheiro alheio, deletado!Ex-presidente que vendeu as grandes empresas do governo por parcos reais, deletado!Político safado que recebe mensalão, idem!
O mesmo valendo para políticos religiosos, que espoliassem dinheiro dos necessitados em troca de um pedacinho no céu, hein?, fazer o que com ele?Mais Gigabytes de descaramento no lixo....
Eleitor que votasse sem consciência, deletado!
Eleitor que votasse em troca de portas e dormentes, recurso muito usado em terras mineiras, deletado!Corruptor, corruptível, corrompido e outras tranqueiras, deletado!
(Nestas alturas, nem sei mais se eu queria ser um grande mouse ou uma 9 mm, daquelas que bandido tem, mas polícia nunca viu a cor...)
Chiiiiiii!!!!!!!!!!, foi tudo pro lixo! Acabou o Brasil!
(O último a ser deletado, gentileza desligar a máquina, please?!?!?!?!?)...


* Maria Tereza Armonia nasceu em Juiz de Fora, e mora hoje na capital mineira, Belo Horizonte, é professora, pedagoga, mestre em educação e doutoranda, e idealizadora do site Tempo de Poesia.

5. Nossa grande colaboradora Ana Cláudia não deixou por menos...mandou um belo artigo:

TAM, VÔO 3054 Carniceiros de tragédias
Por Urariano Mota em 24/7/2007

O acidente, o desprezo por vidas ocorrido com o Airbus A320 da TAM, tem oferecido um show macabro, um espetáculo que mostra a degradação da sociedade brasileira. Corrigimos. Escrevemos sociedade brasileira e escrevemos mal porque devemos reescrever: o desastre do avião da TAM tem gerado um espetáculo que mostra a degradação da imprensa brasileira. E assim reescrevemos para ficar nos limites da mais refreada ponderação. Se liberamos as rédeas, deveremos com mais verdade escrever: a negligência da TAM tem gerado um show do nível do que se chama elite, que domina a imprensa do Brasil. Para não adjetivar, deveríamos dizer dessa elite: que gente! E com isso quereríamos apenas escrever: procura-se, com urgência, uma nova definição de gente. A realidade, mais uma vez, corre à frente dos dicionários.
No Brasil de hoje, depois dessa tragédia da TAM, uma prova de equilíbrio mental é o espanto ante o que se vê. Há um circo de horrores maior que o número de mortos. Os vivos, na televisão, nos periódicos, nas revistas, pulam de alegria diante de mais uma desgraça onde o culpado deverá ser, tem que ser, é o governo brasileiro. Abutres, urubus, compará-los a estes seria uma profunda ofensa para os animais que voam e comem carniça. Talvez fosse melhor chamá-los de especialistas em oportunidades de cemitérios, uma expressão gentil que significa papa-defuntos para um golpe.
Apertem o cinto, reprimam o vômito, porque um passeio pela grande mídia vai começar.
"O que ocorreu não foi acidente, foi crime
Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, ‘GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS’. O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime.... Talvez o presidente não se importe tanto, afinal, quem viaja de avião não é beneficiário de sua bolsa-esmola, não faz parte do seu particular curral eleitoral cevado com o dinheiro que ele arranca de nós. Devem fazer parte das tais ‘elites’, que é como ele escarnece da classe média que faz (apesar do governo) o país crescer".
Um sistema em xeque

Percebam o nível de pensamento e de qualidade da expressão. Se o parágrafo acima fosse escrito por um colegial e publicado em uma folha de adolescentes – perdão, adolescentes, pois queremos dizer, adolescentes com um nível de aprendizado abaixo de médio – compreenderíamos que assim se fizesse. Mas isso foi escrito, pelo menos se assina como tal, por um psicanalista que afirma ter 59 anos e se publicou no Folha de S.Paulo, em 19 de julho de 2007.
Se permitem um abuso de tautologia, o articulista afirma que o governo do Brasil sabia que perto de 200 pessoas iriam morrer em um avião da TAM – e não só nada fez para evitar esse extermínio, como, até, está muito satisfeito, porque, afinal, quem viaja de avião merece morrer desse modo cruel, porque não faz parte do seu curral de mendigos. Muito bem. Mas o que dizer de tão rico pensamento se publicar no jornal de maior circulação do Brasil, e não em um pedaço de papel qualquer? Falhou o controle de qualidade, poderia ser respondido. Mas se olhamos o resto da edição, teremos que responder: pelo contrário, este foi o pensamento à altura da qualidade dos textos desse mesmo dia. Mirem, com os cintos bem apertados:
"Incompetência, imprudência, tragédia. A despeito das causas do acidente com o Airbus A-320 da TAM, o desastre potencializa a crise da aviação civil, escancara a precariedade do transporte aéreo brasileiro e torna ainda mais urgente uma redefinição ambiciosa e profunda do sistema. É inacreditável que reiteradas demonstrações de inépcia, ao longo de dez meses de crise, não tenham rendido nenhuma demissão no alto escalão do governo Lula" [do editorial].
"E as circunstâncias eram desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, as reformas são recentes, faltam as ranhuras (riscos para produzir mais atrito nas rodas). Pairando sobre o vôo 3054, havia também o Boeing da Gol e dez meses de crise, greve e prisão de controladores, nevoeiros, trocas de acusações, panes de rádios, suspeitas quanto aos radares. Um sistema em xeque. Seus operadores, sob profundo estresse. Pequenos erros podem virar grandes tragédias. E há a falta de comando do governo e a ganância das companhias" [de uma articulista, no mesmo dia].
"Esmolas oficiais"
Note-se, no editorial, a frase "a despeito das causas do acidente com o Airbus A-320", o que em bom português quer dizer: ainda que haja causas do acidente contra o sucesso do acidente, não importa a causa do acidente. Isto não é bem um ato falho. É a perseguição de um objetivo, que não se consegue disfarçar. Observem ainda a frase da articulista, depois: "Pairando sobre o vôo 3054, havia também o Boeing da Gol e dez meses de crise, greve e prisão de controladores...". Percebem? Há um céu acima da aviação do Brasil. Sem dúvida, este céu é o governo Lula e as tragédias que teria gerado. Nesse azul ou névoas, que importa a causa da última desgraça? O acidente virou pretexto. A sentença está perfeita e irretocável, antes do julgamento. Mas apertem o cinto.
"Duzentas pessoas estão mortas, duzentas famílias choram suas perdas, a maior cidade brasileira convive com os escombros à margem de uma de suas avenidas mais movimentadas, o País está aturdido com a tragédia de dramaticidade acentuada por ter sido anunciada e o cidadão que, embalado pelos números de pesquisas, se pretende a síntese do Brasil, tira o corpo fora.
Ontem, 48 horas depois do segundo sinistro aéreo gravíssimo em 10 meses de exposição do colapso do setor aéreo, o presidente Luiz Inácio da Silva ainda examinava a conveniência de se dirigir à Nação hoje, quatro dias depois... Estas sim (é que são, as pesquisas) o termômetro das ações do Palácio do Planalto, que trata como cidadãos de segunda pessoas que supõe sejam de primeira classe porque viajam de avião, lêem jornais, compram ingressos para ir ao Maracanã, vivem do trabalho, não estão entre o público alvo das esmolas oficiais."
Em busca da morte
O trecho acima é um clássico do oportunismo brasileiro. Há desgraça, estou presente. Há cadáveres, vou cheirar sua carniça. Publicado em 20 de julho, vem de uma senhora que escreve artigos sob encomenda e aplauso da reação do Brasil. Atende pelo nome de Dora Kramer, mas é tão exemplar e repetida em suas frases e convicções, que poderíamos dizer ser este um pseudônimo coletivo de jornalistas, quer se chamem Ricardo Noblat, Merval Pereira, Eliane Cantanhêde, quer se chamem Ali Kamel, Augusto Nunes, James qualquer coisa, ou discípulos mais medíocres que se espelham nesses insuperáveis mestres. Ela escreve em O Estado de S.Paulo, mas poderia ser em qualquer outro periódico da nossa mais alta inteligência: Folha de S.Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Zero Hora, Veja e outros que a poeira dos próximos 10 anos irá comer. Sem sequer um dobre de sinos.

Pero não esmoreçamos. Há um pouco mais. Os grandes portais, portadas, também não iriam deixar tamanho sofrimento escapar. Passemos pelo UOL, "o maior provedor de acesso à internet do Brasil. O maior provedor de conteúdo em língua portuguesa do mundo", como ele próprio se anuncia. O portal solicitava, incentivava: "Você tirou alguma foto do local do acidente com o avião da TAM, em São Paulo? Envie para vocemanda@uol.com.br".

No que foi atendido, em profusão, e com profusão, até a morbidez mais descarada e aberta. E o efeito conseguido foi um segundo desastre. Não sei se os devoradores de mortos sabem de um limite para o horror que, ao ser ultrapassado, gera o seu contrário, a letargia, o deboche, a zombaria. Há uma lei do trágico, da tragédia, que impõe limites para o despudor, para o exibicionismo. Em busca da morte flagrada, o portal recebeu e publicou, com destaque na home, a foto de um corpo em queda, a cair entre chamas, do alto do edifício da TAM Express. Que pena. A imagem era falsa, não passava de fotomontagem. Era uma brincadeira... Em nome da justiça deve ser mencionado que o portal, ao ser descoberta a fraude, retirou a foto e se penitenciou com um "Erramos".
Telenovela invade jornalismo
Mas não desistiu do supremo objeto de ser mais lido, pois publicou uma entrevista com outros abutres profissionais, ao reproduzir texto da Agência Estado:

"O presidente da Federação Internacional de Controladores de Vôo (Ifatca), Marc Baumgartner, declara que não é seguro voar ao Brasil e acusa o governo de estar `brincando com a vida das pessoas´."
E mais:
"`O governo sabia de todos os problemas em Congonhas e não fez nada. Eu não voarei no Brasil como passageiro. É assustador´", declara o presidente. Para ele, novos acidentes podem ocorrer a qualquer momento se o governo não modificar sua postura. Baumgartner alerta que o governo é o principal responsável por não ter tomado medidas necessárias. "O acidente é conseqüência da lógica dos problemas estruturais enfrentados no Brasil e da tentativa dos militares de tentar esconder qualquer tipo de problema ou aspecto que não esteja indo bem."
Mas voemos mais. Nem o céu é o limite.

A Rede Globo de Televisão deu um show de teledramaturgia. Aliás, o sonho dessa emissora é ser Hollywood nos trópicos, cinematográfica que é em todos os programas. O gênero de telenovela há muito invadiu o seu jornalismo. Em dúvida, vejam por favor qualquer peça, qualquer jóia do Jornal Nacional. Os títulos são um primor de folhetim:
"O maior desastre da aviação brasileira ... Duas tragédias em dez meses... Tristeza e indignação na madrugada em São Paulo... A aflição das famílias das vítimas em Porto Alegre... O medo de quem mora próximo a Congonhas".
"O apagão virou rotina"

Em qualquer desses capítulos de telenovela, que são mostrados como breves documentários, como autênticos momentos-verdade, há um conjunto de imagens espetaculares, fogo, choro, convulsões, desespero e reconstituições por meio de recursos de computador que, misturados à narração do repórter, são uma aula, uma lição de insuflar emoção nas... reportagens. Lágrimas, choros, prantos, fotos de crianças mortas, de jovens sem vida no vigor dos seus anos:

"O abraço solidário na hora da dor. Em Congonhas, parentes buscam informações. São momentos de desespero e angústia pra quem nunca imaginou estar tão perto de uma tragédia.
Carmen Elisabete perdeu as filhas Júlia e Maria Isabel, e a mãe, que viajava de férias com as netas. ‘Minha mãe era apaixonada por elas, fazia tudo por elas’, chora a professora. Outra mãe perde as forças ao saber que os filhos de 12 e 17 anos nunca mais chegariam.
Depois da confirmação dos nomes, os parentes das vítimas enfrentam o doloroso calvário da identificação dos corpos: 86 pessoas foram trazidas para um hotel em São Paulo, onde recebem assistência médica e psicológica. Boa parte veio de avião de Porto Alegre trazendo documentos, fotos, fichas médicas e histórias daqueles que perderam.
É por causa da insegurança aérea que a tia de Michele, outra vítima, manda um recado. ‘Para que as autoridades tomem vergonha na cara e comecem a fazer alguma coisa pra esse país ir pra frente’, diz a advogada Sônia Miranda Vieira."
Berlusconi não sabe o quanto aprenderia com uma semana de estágio na redação do Jornal Nacional. Ali, ele veria, por exemplo, editoriais de tragédias com ares de reportagens. Porque, entre imagens, há também espaço para a narração de textos com recuo no tempo:

"Num período de dez meses, que começou em setembro do ano passado, os brasileiros assistiram às duas maiores tragédias aéreas da nossa aviação. Enfrentaram nos aeroportos uma seqüência assustadora de problemas e aborrecimentos.
Em setembro do ano passado, um Boeing da Gol e o jato Legacy se chocaram, matando 154 pessoas. A tragédia marcou o começo de uma crise que se arrasta há quase dez meses e expôs as deficiências do sistema aéreo brasileiro. Os controladores de vôo, insatisfeitos, iniciaram uma queda de braço com o comando da Aeronáutica, fizeram operações padrão com atrasos e cancelamentos de vôo. O apagão virou rotina..."
Quanta pedagogia...
Os últimos capítulos dessa teledramaturgia de cadáveres foram: em 19/7, a descoberta de que o avião possuía um defeito no reversor da turbina direita muito antes da explosão do dia 17 de julho – o que, é claro, não retira a culpa do governo, sem dúvida; em 20/7, a divulgação de imagens do assessor especial do presidente da República, filmado na privacidade, às 20h30 no interior da sua sala, a fazer gestos que significam coito, ("estão fodidos"). Isto significa, na tradução da luta política, um escárnio, um insulto à memória das vítimas, porque o governo estaria a comemorar uma nova versão para os 200 mortos, os fodidos. Conforme palavras da... reportagem:

"A imagem é do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e de um funcionário, assistindo ao Jornal Nacional de ontem. A notícia da possibilidade de ter havido problema mecânico no avião da TAM foi recebida com uma reação de Marco Aurélio e outros gestos obscenos...

`Olha, foi uma das cenas mais dantescas, mais cruéis que eu já vi. A nação inteira chorando, o PAN parando pra chorar e o Palácio festejando. O cara levantando as mãos, dizendo que a culpa não é do governo! Claro que é do governo. Agora, mesmo que não fosse do governo, comemorar é uma bofetada no povo brasileiro´, afirmou o senador Pedro Simon...

Parentes de vítimas do acidente estão indignados. `Isso é um descaso com a gente. Estamos indignados. Já não bastasse toda a dor que a gente tem tido, ter que passar por isso agora´, chora Renato César Rubinick, pai de duas vítimas."
Aguardemos os próximos capítulos. Quanta pedagogia houve na condução dessa tragédia por nossa imprensa. A lição desta semana foi que uma guerra não se faz somente com bombas, fuzis e metralhadoras. O fundamental é que possua cadáveres.

6. Ivana Gouvêa colabora com um artigo também falando sobre a mídia e o acidente da TAM

Mauro Carrara

Em 68 anos de vida, e muitas décadas de jornalismo pelo mundo afora, jamais havia testemunhado cobertura tão politizada (e vergonhosa) de uma tragédia. O caso do vôo 3054 deverá, no futuro, servir aos professores de comunicação como uma anti-receita de conduta em casos dessa natureza.
Até agora estou estarrecido com a edição maquiavélica do Jornal Nacional, na noite de 18 de Julho. A dor e o desespero das famílias foram transformados emuma peça de propaganda eleitoral. Apresentou-se a comoção, “prova" sugerida e o "culpado" por tudo.

Ultimamente, sempre que há mutreta e grave manipulação dos humores nacionais,verifica-se sempre a participação de um mestre oculto: o Sr. Ali Kamel, poderoso demiurgo das sombras a serviço das Organizações Globo. Na revista Veja e no jornal O Globo, esse homem de comunicação foi adestrado para a função que hoje executa com inegável competência: instaurar a desconfiança e destruir imagens públicas.
Na quarta-feira, ainda que sobrassem indícios de que o acidente não tinha sido causado por problemas na pista de Congonhas, todos os telejornais da Globo insistiram na teoria. Depoimentos dissonantes, como o do professor Duarte, da UFRJ, foram grosseiramente limados, desemoldurados, para que não fossem compreendidos e assimilados pelo público.

A edição do Jornal Nacional de 18/07/2007 deve ser gravada e guardada. Em termos de distorção nada fica a dever àquela que reproduziu seletivamente trechos do último debate eleitoral de 1989. Mostrou gente desesperada, e arrancou lágrimas,até deste jornalista acostumado a ver o sofrimento humano. Em seguida, rumou para Brasília, a indicar solenemente o "culpado".

Num trecho hard-core colocou na tela, como inquisidores impolutos, o rei das menininhas do Amazonas, senador Arthur Virgílio, e o sai-de-finho Raul Jungmann, que até agora não explicou a história do desvio dos R$ 33 milhões no Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Não estranhamente, o Jornal Nacional de Ali Kamel desconsiderou duas entrevistas fundamentais à compreensão das causas do acidente: uma do presidente da TAM,Marco Bologna, e outra do superintendente de engenharia da infraero, Armando Schneider Filho. Motivo evidente: ambos descartaram a ausência do grooving como causa do acidente.
No momento da exibição do Jornal Nacional, o planeta bem informado já sabia de outros detalhes fundamentais à explicação da tragédia. O avião havia percorrido a pista numa velocidade quatro vezes maior que o padrão na aterrissagem. Meu sobrinho me disse que seria como se alguém entrasse a 100 km/h no drive-thru do Habib's.
O assunto também foi ignorado pelo JN. E por quê? Porque provocava fissuras no denso muro da tese vigente.
Logo depois da tragédia, a Rede Globo de Televisão expediu seu "parecer técnico" determinando a causa da tragédia: a ausência das ranhuras na pista. Segundo esse raciocínio, a responsabilidade seria da Infraero e, por tabela, do Governo Federal. Conclusão final da Rede Globo e de Ali Kamel, repassada insistentemente a todos os brasileiros: Lula matara 200 pessoas!

Como referência de informação, a Rede Globo contaminou o resto da cobertura, influenciando todas as concorrentes e oferecendo munição a todos os articulistas anti-governo, de Norte a Sul do Brasil. De Daniel Piza, do Estadão, a Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, todos se puseram a incriminar o Governo Federal.

A bola de neve, ou de fogo, inflamou internautas em todo os país, e não somente estes, posto que gente na rua repetia nos pontos de ônibus e nos botecos a tese do "grooving" e do Lula assassino.
Causa mais estranheza a rapidez com que a Rede Globo montou seu discurso acusador, logo convertido em "reconstituições por computador" que indicavam uma suposta derrapagem. Foi rapidíssima no gatilho e evitou que qualquer outra hipótese ganhasse força.

Durante dois dias, pouca gente questionou essa teoria. Quem já pousou em Congonhas sabe que uma "derrapagem" não levaria o avião para o outro lado da Avenida Washington Luís.

A Rede Globo de Televisão, de Ali Kamel, construiu, portanto, aproveitando-se da tragédia, uma poderosa peça publicitária eleitoral. Manipulou, distorceu, comoveu e incitou o ódio contra o Presidente da República. Por vezes, sutilmente; por vezes, com agressividade.

Cabe ao povo brasileiro decidir, na próxima renovação de concessão, de que maneira se pode coibir a utilização do corredor público de ondas para fins eleitoreiros, ou golpistas.
* Incrível é que William Bonner, com seu pragmatismo bonachão, aparentemente não percebeu nada disso.

7. Vânia, professora e ex-colega de Colégio Promove, também enviou sua colaboração. Um dos poucos artigos sensatos que a Folha publicou, ao que parece:

FERNANDO RODRIGUES
A politização das mortes

BRASÍLIA - A politização da tragédia do acidente do Airbus da TAM está no ar. Contaminou governo e oposição. Desde o "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia até o desastrado deputado federal Efraim Filho (DEM-PB). O governo torce freneticamente para que as investigações concluam pela irrelevância da pista de Congonhas no acidente. Daí Marco Aurélio ter comemorado de maneira efusiva ao saber do defeito num equipamento do avião (o sistema de reversão da turbina direita). Da mesma forma, o político paraibano Efraim Filho foi comissionado pelo Democratas para faturar em Washington. Advogado de 28 anos, acompanhou a abertura da caixa-preta -mesmo sendo neófito em assuntos aeronáuticos. Sem cerimônia, apresentou uma conclusão peremptória sem base científica: o piloto da TAM não tentou arremeter. Quis frear e a pista escorregadia não teria permitido. Efraim Filho acabou recuando. Mas ficou o estigma. Ao escalar o rapaz para função tão relevante, o Democratas, nesse episódio, parece ter dado o pior de si. Em público, lulistas e oposicionistas fingem consternação. Nos bastidores, há uma torcida gigante sobre o resultado das apurações. Repórteres recebem telefonemas irados dos dois lados. Lulistas e oposicionistas cobram "imparcialidade", sobretudo quando se trata de noticiar algo que possa vir a favorecer o lado de quem reclama. Existem, é claro, aqui e ali, algumas cabeças ancoradas no bom senso. São a minoria. A regra mais geral tem sido politizar as notícias ao osso. Patético. O efeito eleitoral final será pequeno ou nenhum no longo prazo. Uma parcela ínfima do eleitorado viaja de avião. No fundo, o saldo para os partidos será talvez apenas uma degradação maior da imagem dos políticos como um todo. Tudo somado, péssimo para a democracia


8. Nosso colaborador emérito, prof. Antônio de Paiva Moura, enviou-nos a resenha de seu último livro, elaborada pelo prof. José Moreira de Souza, da Escola de Governo da Fundação João Pinheiro.

MOURA, Antonio de Paiva. América Latina: fatores ideológicos na colonização. Belo Horizonte: Fundação Cultural de Belo Horizonte. 2007.

José Moreira de SOUZA*.

Os companheiros da Comissão Mineira de Folclore já estão habituados à leitura ou a consulta das obras do colega Antonio Moura. No final dos anos 70 e ao longo dos 80 Moura criou e manteve o Centro de Informações Folclóricas, empreendimento até hoje não imitado. Publicou dois catálogos bibliográficos, um sistematizando os estudos sobre o negro em Minas Gerais e, outro de maior fôlego, focalizando as fontes bibliográficas para estudo de Minas. Com apoio do Instituto Francisca de Souza Peixoto, de Cataguases, produziu vários CDs de documentação da cultura de Minas por regiões. Entre seus diversos estudos, merece atenção a monografia sobre a festa do Rosário de Diamantina. Nesta obra, o autor acompanha pacientemente as transformações da festa ao longo do século XX.
Em América Latina: fatores ideológicos na colonização, Moura revela ao público sua dedicação como estudioso da História da Arte, tema ao qual se dedica como professor. Trata-se de uma obra singular entre as do gênero , por ser singular inaugura a “Coleção UNI-BH”, imprimindo ao Conselho Editorial a responsabilidade de avaliar novas obras segundo a qualidade imprimida à que se analisa. América Latina: fatores ideológicos na colonização não é uma obra de História no sentido convencional, mas é dirigida aos que estudam história. Mais que isto, ao se dirigir aos que estudam história, Moura convida todos os leitores a percorrer as obras dedicadas ao estudo da História, o que deve significar, ninguém pode viver sua época sem percorrer atentamente a sua formação.
O autor chama a atenção do leitor para a construção das interpretações que devem ser consideradas verdadeiras nas obras de história e que não são outra coisa do que uma versão conveniente a um determinado grupo interessado nessa verdade, por mais que se submeta à verdade de sua época, por mais que procure um Mecenas que o proteja e patrocine, registra e denuncia uma outra verdade escondida. Atento à utopia, a obra de Moura cuida de articular o discurso da verdade que se quer impor e a verdade que resiste a se ocultar. Dedicado à leitura de documentos, no capítulo V, o autor dá vida a uma obra publicada em folhetins no ano de 1869 com o título de Páginas da História do Brasil escrita no ano 2000. Nessa obra, Joaquim Felício dos Santos inagina o Brasil do futuro e atribui um mínimo de lucidez ao imperador interpretando as diretrizes do Império e sua fragilidade.
A última transcrição de uma obra literária é como que uma mensagem para todos nós, membros da Comissão Mineira de Folclore:
Os autores que falam em nome de uma tradição são justamente aqueles que mais fazem por destruí-la e contribuem para a sua corrupção [...] uma lamentável confusão faz com que julguemos toda novidade malsã e toda velharia saudável. (p. 221)
Uma das lições que fica para este leitor é que América Latina: fatores ideológicos na colonização é também um guia de leitura, insistindo no que caracteriza o espírito do autor, apontar sendas e promover o diálogo.

Publicado no jornal “Carranca”, órgão informativo da Comissão Mineira de Folclore, ano XIV, junho de 2007.
*José Moreira de Souza é professor a Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, MG

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