Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

15.8.07

Número 102






EDITORIAL

Semana passada falei algumas poucas coisas a respeito do que tenho visto recentemente com relação à atuação da grande mídia. Volto ao assunto, para me explicar um pouco melhor, uma vez que as pessoas agora andam dizendo que todos os que criticam a falta de ética dos jornais, revistas e televisões são favoráveis à censura ou coisas semelhantes.

1. Não há dúvida que a liberdade de imprensa é fundamental para o fortalecimento da democracia. Isso é por demais óbvio para que alguém precise dissertar a respeito.

2. Não existem meios de comunicação imparciais. É também óbvio, apesar de nos cansarmos de ler e ouvir editoriais afirmando que “somos imparciais”... Em relação ao governo de um dado país, é claro que teremos órgãos que estarão ao seu lado e aqueles que não estarão.O fundamental, em meu entendimento, é que se mantenha o padrão ético e a equidade. Entendo por isso: que não se fabriquem os famosos “factóides”, que não se inventem notícias, que se tenha o compromisso de noticiar o que acontece dando a mesma relevância, ouvindo-se os dois lados e, sobretudo, que se evitem coisas do tipo que estamos – infelizmente – acostumados a ver nos meios de comunicação brasileiros com mais freqüência do que seria desejado. Acusa-se antes, sem provas, destroem-se pessoas e instituições antes que sejam julgadas por quem de direito.

3. Da mesma forma, há vilões que são inocentados pela imprensa antes que o sejam pelo poder Judiciário. Ou cujos crimes são relevados por que eles pertencem a um determinado segmento social, que paira acima de qualquer suspeita.

4. O que se viu com relação à queda do avião da TAM em julho, em meu entendimento, deixou isso muito claro. A manchete do “Estado de São Paulo” acusando o presidente Lula de ter matado 200 pessoas, no calor da hora, com milhares de parentes desesperados, ou o show de histeria protagonizado pelo senhor Datena, ou o tom fúnebre do casal 20 que apresenta o Jornal Nacional, fogem aos limites do bom senso e só prestam um desserviço à nossa já frágil democracia.

5. Dir-se-á que a queda do avião foi um fato da maior gravidade e merecia a relevância da mídia. Não questiono. É um fato que todos devemos lamentar, e é relevante, especialmente se, a partir do trágico acontecimento, forem todas as medidas para sanar os inumeráveis erros que se acumularam durante anos ( e não apenas no governo atual, e não apenas no Executivo Federal, mas também envolvendo o governo estadual e o municipal de São Paulo, com toda a irresponsabilidade de conceder alvarás para empresas, postos de gasolina, hotéis e altos edifícios de apartamentos numa área onde eles não poderiam estar, definitivamente.

6. Mas será que a relevância da notícia, para ficar apenas nos jornais da rede Globo, justificaria que praticamente em todos os jornais, durante quase um mês, reprisassem as cenas de horror? O editor William Bonner e também apresentador do Jornal Nacional aparecia exatamente no local do ocidente. Era tão relevante o acontecimento para justificar o deslocamento do editor para Congonhas? Aos que me responderem que sim, que era relevante o suficiente para justificar tudo isso, eu perguntaria: em nome da equidade de tratamento, o Massacre de Carajás também não foi relevante? Mas ele não apareceu durante um mês inteiro em todos os jornais da Globo. E se bem me recordo, nenhum editor do Jornal Nacional se deslocou para dar as informações de lá.


7. Mas o massacre de Carajás aconteceu em 1996... quem era o presidente do Brasil na época???? Ele ganhou uma manchete do Estadão dizendo que teria sido o responsável pelas mortes? E Vigário Geral? E o Carandiru? Todos esses fatos mereceram o mesmo destaque? Claro que não... Isso, na lógica do que estamos discutindo aqui, significa que esses acontecimentos não foram relevantes. Agora, imaginem se Carajás, Carandiru e Vigário Geral, em vez de pobres, negros, camponeses, sem terra, tivessem eliminado pessoas da classe média ou alta. Pior ainda: já imaginaram se tivessem ocorrido no governo do Lula?

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Neste número não temos o Nuestra América, nem indicação de livros e sites. Os assuntos, diversos, enviados por leitores, obrigaram-nos a suprimir algumas seções, para que não ficasse muito extenso. Chamo sua atenção particularmente para o discurso do senador Cristóvão Buarque no Senado, explicando porque aplaude o movimento “Cansei”.
Ah... antes que eu me esqueça, o terceiro capitulo da tenebrosa história judiciária escrito pelo jornalista José de Castro já está lá: http://www.tamoscomraiva.blogger.com.br/

FALAM AMIGOS E AMIGAS

1. Olá colega Ricardo Faria, me perdoe não ter enviado esta mensagem na postagem da última semana, quando nosso rico e democrático Boletim Mineiro de História completava seu centésimo número, afinal nas últimas semanas tenho vivido grande correria na minha vida profissional, assumindo novas turmas, sabe como é vida de professor! Sem contar com estudos, leituras, e claro, escrever, sempre quando o tempo o permite, postando minhas idéias em meu blog, que aqui aproveito para convidar vossos leitores para visitarem também meu blog e discutirem muitos assuntos comigo (www.tiagomentausandoarazao.blogspot.com)

Obrigado pela iniciativa deste boletim, deste espaço para a discussão, o debate intelectual, com respeito e responsabilidade, mesmo quando existem, graças aos deuses, divergências de idéias. Ou seja, o boletim mineiro de história faz justiça a própria história quando se mostra como um instrumento dialético, fazendo uso de todas as idéias, inclusive as que se contradizem, que se confrontam, pois este é o verdadeiro espírito empreendedor daqueles que se aventuram pelas humanidades e seus estudos, desde as antigas tradições hegeliana, marxiana, nas quais ainda podemos respirar, e se inspirar por que não?

Quero desde já, aproveitar a ocasião, e desculpar-me com aqueles que porventura algum dia tenha ofendido com minhas idéias, propostas, afinal, como historiador, filósofo, não posso, nunca, me furtar ao engajamento, ao posicionamento intelectual perante a história e os eventos de nosso país e do mundo que nos cerca. Coisa que não é exclusividade minha, pelo contrário, pois o colega Ricardo Faria possui o mesmo "espírito" que me alimenta.

Abraços liberais e nietzschianos para todos, em especial ao colega prof. Ricardo Faria, idealizador e promovedor de tão valoroso espaço virtual na forma, concreto nas idéias. Parabéns Boletim Mineiro, e vida longa....

Tiago Menta.

2. Parabéns pelo numero 100, Ricardo.Espero continuar recebendo o Boletim até mto depois do número 1000.! PARABENS!!! Abraços,
Maria José Dolabela


3. Parabéns pelo editorial! (número 101)
Brilhante!
Beijo.
Maria Teresa Armonia.

4. Achei seu editorial deste número fantástico, sem dúvida um dos melhores que já escreveu até hoje. Principalmente na parte em que cita a aliança do Aécio com o governo em prol de seus interesses presidenciais... Se Lula realmente levantar a bandeira de "Aecinho", tenha toda a certeza que abandonarei qualquer sentimento de simpatia que ainda me resta em relação ao PT e, principalmente, ao Lula. E o Tamos com Raiva certamente não poupará críticas em sua campanha anti-Aécio. Grande abraço!

Cristina Souza

5. Luciana Macedo, de Viçosa, me encaminha a intervenção do senador Cristovão Buarque no Senado, dia 10 de agosto, com os apartes que recebeu. Texto longo? Mas vale a pena ser lido!

CRISTOVAM BUARQUE - "Todos devem aderir ao movimento CANSEI", discurso proferido no dia 10/08/2007

O TEXTO É EXTENSO, MAS SE VOCE TAMBEM ESTIVER CANSADO LEIA COM ATENÇÃO:

"Todos devem aderir ao movimento CANSEI", discurso proferido no dia 10/08/2007

Sr. Presidente Mão Santa, Senador Sibá, Senador Wellington, Senadores, eu hoje vou quebrar o Regimento porque na sexta-feira acho que se pode fazer isso. Talvez nem se trate de quebrar o Regimento, mas vou inovar: não vou falar para as Srªs e Srs. Senadores, vou falar para o povo brasileiro, vou falar para quem está lá fora, eu vou falar para aqueles que, lá fora, estão nos assistindo pela televisão e pela rádio. Eu vou falar para esses dois Brasis que, hoje, estão fazendo política neste País: um Brasil cansado e um Brasil acomodado.

Surgiu, Senador Durval, finalmente, um movimento dos que se dizem cansados, aos quais eu dou os parabéns, porque basta da paralisia política em que vivemos hoje neste País e das conturbações que não são políticas, são conturbações de críticas e autocríticas, de denúncias e defesas – isso não é política –, nas quais o assunto central é a corrupção. Às vezes eu me pergunto se isto aqui é o Senado ou uma casa de fofocas – fofocas até com coisas concretas, verdadeiras, que devem ser tratadas e punidas, mas que não podem ser o centro da nossa discussão.

Lá fora nós vemos que um grupo de pessoas saiu às ruas e está saindo também da paralisia e da letargia, quer sair do silêncio que os intelectuais brasileiros optaram por fazer. Intelectual silencioso é intelectual morto, não tem como você ser silencioso e ser intelectual. Você pode ser mudo, mas escrever e, então, não está em silêncio; o silêncio não combina com o intelectual. No Brasil, os intelectuais parecem ter optado, alguns, pela perplexidade – então não são intelectuais, porque não encontram rumo, não pensam, não entendem as coisas – e, outros, pelo silêncio, pelo acomodamento.

Vocês – falo aqui para o Brasil que está se manifestando liderado pela OAB – estão protestando e, com isso, estão trazendo uma nova situação para a política brasileira. Diz o manifesto da OAB:

Cansei de gente que só quer levar vantagem, do governo paralelo dos traficantes, de pagar tantos impostos para nada, de tanta impunidade, de tanta burocracia, do caos aéreo, de CPIs que não dão em nada, de ver crianças nas ruas e não nas escolas, de presidiários falando ao celular, de empresários corruptores, de ter medo de parar no sinal, de bala perdida, de tanta corrupção, de achar tudo isso normal, de não fazer nada.

Eu falo para esses, mas eu quero falar também para aqueles que estão acomodados. Quero lembrar que esses cansaços aqui, Senador João Durval, são cansaços da parcela rica da população, não é o cansaço do povo lá embaixo. Diante do único item referente ao povo, “cansei de ver crianças nas ruas e não nas escolas”, sinto-me no direito de perguntar se esse cansaço é o da solidariedade ou o do medo, se é solidariedade com as crianças na rua ou se é o incômodo das crianças nos sinais de trânsito.

Será que é um cansaço pelo fato de, no Brasil, a gente ter ainda 1,5 milhão fora da escola e, dos quarenta milhões de hoje, saber que apenas dez milhões vão terminar o Segundo Grau e que, desses dez milhões, não mais de cinco milhões farão um Segundo Grau de competência? Eu tenho direito à dúvida e o povo brasileiro tem direito à dúvida. Será que o cansaço não é, sobretudo, do caos aéreo, dos impostos elevados, dos traficantes soltos? Tudo isso é um cansaço correto, mas um cansaço insuficiente, um cansaço que nada muda na história do Brasil, embora mude na política de hoje. Por isso, comecei parabenizando.

Mudar a política não basta se não mudarmos a história, se não mudarmos e construirmos um novo futuro. Por isso, ao mesmo tempo em que parabenizo vocês que cansaram, esse lado do Brasil cansado, quero dizer de minha preocupação, porque vocês protestam basicamente por aquilo que diz respeito aos interesses de vocês. É como se fosse uma manifestação sindical dos usuários do aeroporto, é como se fosse uma manifestação de indignação diante da corrupção na política, mas nenhuma indignação com as prioridades da política. É indignação porque alguns roubam o dinheiro que iria para obra pública, mas não vejo indignação com a obra pública que não serve aos interesses, às necessidades do povo brasileiro. É um cansaço pequeno, Senador João Durval!

Desculpem dizer isso. Eu os parabenizo, porque prefiro esse cansaço da indignação que vai para a rua do que o acomodamento do qual vou falar, mas não basta esse cansaço parcial, sindical, da parcela que tem direito a privilégios.

Eu não vi aqui, por exemplo, ao lado do cansaço com o caos aéreo, o cansaço com o caos do transporte público brasileiro, Senador Sibá. Não vi ninguém protestando pelo fato de que milhões ficam parados numa parada de ônibus, sem saber a hora em que o ônibus virá. Eu vi o protesto correto, justo, felizmente chegando agora, do cansaço dos que esperam nas boas poltronas dos aeroportos – e sei como é ruim esperar quando se tem uma missão a cumprir, quando se tem que chegar a um compromisso e o avião não sai na hora. Mas quem fica na parada de ônibus, em pé, também tem compromisso, também tem que chegar na hora ao trabalho, também tem que ir à escola, também tem que visitar doentes nos hospitais; não apenas os que vão de avião é que visitarão os parentes nos hospitais, mas os que estão na parada de ônibus também.

Sei que há pessoas que perdem a homenagem final pela morte de um parente porque o avião não saiu no dia, na hora, mas há pessoas que perdem também a oportunidade de prestar a homenagem no cemitério, porque o ônibus em que ele ia da sua casa para o cemitério não passou.

Quero, portanto, dizer que certamente vocês são contra o descaso com o qual têm sido tratados os aeroportos, mas não se mostram cansados com a maneira como são tratadas as escolas, que são os aeroportos do futuro. O Brasil pode até sobreviver com aeroporto que não funciona, mas não sobrevive, não voa se não tivermos escolas boas, gratuitas e de qualidade para todas as crianças brasileiras.

Não vejo no cansaço que uma parte da população brasileira, hoje, demonstra esta preocupação: o cansaço com a deseducação.

Não vejo cansaço com a concentração de renda, com o baixo salário dos professores da rede pública, nem com as intermináveis greves que eles fazem. Não vejo cansaço com as filas nos hospitais públicos. Aqui não está esse cansaço e, se aqui estivesse, não vejo nas manifestações essa preocupação.

Eu cansei também da vergonha da corrupção de que este documento fala, mas me cansei ainda mais da corrupção nas prioridades e ainda mais dos que hoje estão cansados dos políticos corruptos nos quais votaram, mas que, na próxima eleição, vão votar outra vez nos mesmos corruptos, Senador Sibá. Porque as pessoas que hoje dizem que se cansaram de corruptos na política, se olharmos bem, na história política desses eleitores está o voto nos corruptos. E eu tenho o direito de sentir-me cansado de achar que, na próxima eleição, eles vão votar nos mesmos corruptos, porque eles preferem um corrupto amigo do que uma pessoa honesta que eles não conhecem. Isso nos cansa também, da mesma maneira que cansam os aeroportos parados e o caos aéreo.

Eu também – e todos sabemos – protesto contra os corruptos, mas cansei de ver os cansados que não se cansam de seus privilégios. Há um cansaço, neste documento, contra a alta carga de impostos; e está corretíssimo esse cansaço, pois nenhum país sobrevive com 40% da renda nacional indo para os cofres públicos. Mas cansei ainda mais de saber que esses 40% não estão servindo inteiramente à população brasileira para mudar a educação, o transporte urbano, melhorar a água e esgoto, os hospitais. Se formos olhar, esses 40% estão indo mais para aqueles que estão cansados do que para aqueles que estão acomodados.

Cansei de ver os cansados que não se cansam dos seus privilégios e que estão dispostos a pagar aos corruptos para que roubem desde que defendam os seus privilégios, porque hoje, ao invés de votar no político honesto que ameaça privilégios, essa minoria cansada prefere votar no corrupto que garante os privilégios. É muito triste dizer isso, mas é a realidade da minha fala – lá para fora; não aqui para dentro.

O Brasil, finalmente, levantou a bandeira do cansado, mas ela ainda é insuficiente, e insuficiente como foi a bandeira da Independência, da República, da abolição dos escravos. Foi a elite que trouxe a independência, mas para beneficiar ela própria. Foi a elite que fez a República, mas para beneficiar ela própria. Foram as pessoas que defendiam a República, Senador João Durval, que escreveram na bandeira um lema sabendo que 65% da população era analfabeta na época. Veja que desprezo dos cansados com o Império.

Cansaram-se do Império, gritaram “Viva a República” e fizeram a bandeira cujo lema escrito apenas 35% eram capazes de ler. Ou seja, que cansados são esses? Cansados porque não tinham acesso ao Império, não tinham acesso à Corte. Eles queriam apenas entrar na Corte, não queriam libertar o povo.

Esse cansaço parcial é a continuação dos cansaços parciais de antes, dos cansados que fizeram a independência sem olhar para o povo, dos cansados que aboliram a escravidão, mas não deram escola aos filhos dos escravos, não deram casas no lugar da senzala, não deram emprego no lugar do trabalho condenado a que estavam sujeitos os escravos, não deram salário no lugar da comida que os escravos recebiam sem salário. Esse cansaço é insuficiente!

Devo dizer, com toda franqueza, que cansei também de publicitários que agora organizam as campanhas dos cansados, mas já devem estar fechando contratos com corruptos que serão candidatos na próxima eleição. Eu queria ver as empresas publicitárias envolvidas na campanha do cansaço assinarem um documento em que se comprometem a não fazer campanha para nenhum candidato sobre o qual pesem suspeitas de corrupção. Quero vê-los assinarem esse documento. Mas eles vão dizer: “Temos de sobreviver”. É isso o que dizem os corruptos também. Os corruptos não votam pelo prazer de ter dinheiro no bolso. Eles votam porque precisam sobreviver com muito dinheiro, roubando. Quem cansou de político corrupto, mas vai fazer publicidade para candidato corrupto, está enganando o povo, como enganamos, algumas vezes, prometendo ao povo e não cumprindo.

De qualquer maneira, mesmo assim, mesmo com o meu cansaço com os cansados, fico contente que eles estejam lutando porque seus interesses foram feridos: interesses de passageiros de avião, de contribuintes obrigados a pagar tão altos impostos – contribuintes com direito de ir e vir –, cidadãos incomodados com o trânsito atrapalhado, com as crianças que pedem esmolas nas ruas. Eles têm direito de protestar contra tudo isso. Eu os parabenizo, mas não posso deixar de dizer que eles estão sendo pouco patriotas. Eles estão defendendo seus interesses, agindo como sindicalistas, que têm de defender a categoria, e não pensando na Nação inteira.

Mesmo assim, parabenizo-os por irem às ruas fazer um minuto de silencio no dia 14 de agosto. Também vou guardar o silêncio. Não sou contra a manifestação deles. Mas peço que, por favor – falo para eles e não para o Senado –, lembrem-se do resto. Que sintam o cansaço não apenas das horas de espera no aeroporto, mas também de 500 anos de uma história maldita de abandono do povo, que também espera nas filas de hospitais, que espera nas filas de emprego, que espera fora da escola, que espera na parada de ônibus, que espera por todas as partes um futuro que não têm. Não é só avião que está atrasando no Brasil, mas o futuro. Ainda se sabe a hora em que o avião vai passar, mas o futuro não nos diz quando chegará. Volto a comparar: não é só em aeroporto que esperamos, mas também em paradas de ônibus, sem poltrona, sem cobertura, debaixo de água da chuva, do sol do verão. Não há assalto dentro dos aeroportos, mas há assaltos nas paradas de ônibus, onde não há anúncio luminoso dizendo do atraso ou da hora em que o transporte vai sair. Precisamos cansar mais do que o Movimento Cansei.

Não me cansei somente dos que cansaram e nada querem mudar. Cansei-me também dos que deveriam ter se cansado, mas continuam aceitando o Brasil como ele é.

Agora quero falar para os outros, não para aquela parcela cansada que se mobiliza e finalmente traz uma dimensão nova para a política brasileira indo às ruas e fazendo silêncio no dia 14 de agosto. Quero falar àqueles que estão acomodados.

Quero falar, Sr. Presidente, para aqueles que estão cansados na rua e não só nos aeroportos. Quero falar para essa parcela que parece não se cansar de viver sem saber ler, por exemplo. Dezesseis milhões de brasileiros adultos não sabem ler e não parecem cansados com isso. Quero falar para você que está assistindo à minha fala e não é capaz de ler o que certamente está escrito embaixo da tela da televisão, porque, enquanto falo, aparece meu nome, o endereço eletrônico e, às vezes, outras notícias. Há dezesseis milhões de brasileiros adultos que, se estiverem me assistindo, vão ouvir e não vão ler o que está embaixo da tela. E vocês não se cansam disso? Os que estão esperando avião cansaram-se, nas poltronas, nos restaurantes, às vezes com contas pagas, Senador Wellington, pela própria companhia aérea. E estou radicalmente contra esse caos aéreo. Sou vítima dele. No entanto, sou vítima também do caos que não falamos e que não aparece. Eu quero falar para vocês que...

O Sr. Sibá Machado(Bloco/PT – AC) – Senador Cristovam Buarque, permite-me V. Exª um aparte?

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT – DF) – Em um minutinho, Senador Sibá. Quero falar para você que, por ser analfabeto, não saber ler, toma um remédio acreditando que é uma aspirina, porque alguém disse, mas você não sabe se é uma aspirina ou se é um veneno. Você que toma um ônibus, confiando em alguém que leu a placa do destino, sem saber se está correto. Você que fica perdido, quando não encontra alguém por perto para ler o nome da rua. E o nome da rua está ali escrito, e você não consegue ler. E você não se cansa disso?

Quero falar para você que não se cansou ainda de não ser capaz de ler o nome do seu filho, de escrever o nome do seu irmão. Digo isso lembrando de uma mulher, em Belo Horizonte, que, quando aprendeu a ler, perguntei-lhe qual foi o seu maior prazer e ela disse-me: “Foi escrever o nome do meu neto”. Você não se cansou ainda de não ser capaz de ler o nome do seu filho e de escrever o nome de seu neto?

Quero que você se canse e exija, que você faça o que os que estão com o avião atrasado estão fazendo. Quero que você vá à Prefeitura. Vá lá! Fale com seu pastor, com o padre, com seu patrão, grite, dizendo que você quer aprender a ler, e exija um curso. Não espere que o curso venha. Brigue, vá para a rua, junte-se a outros como você, não vá sozinho. Diga que quer o curso e que quer ganhar um salário para aprender a ler, porque no Brasil quem terminou a universidade, como eu, ganha uma bolsa para continuar estudando, fazer um doutorado, mas quem nunca entrou na escola não tem um real de ajuda para aprender a ler.

E falo com a autoridade de quem foi Governador e teve um programa que pagava aos analfabetos para que aprendessem a ler, como pagamos bolsa para fazer doutorado nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, quando fui Governador, pagávamos R$100,00 – naquela época eram US$100 – no dia em que a pessoa fosse capaz de escrever sua carta, ou seja, comprávamos sua primeira carta. E tenho comigo muitas delas, guardadas, Senador Adelmir. V. Exª se lembra disso.

Quero que vocês se cansem também. Quero que vocês se cansem de não saber ler e lutem para aprender, para com isso ter um salário melhor depois. Mas não só os que não sabem ler. Quero falar para outros que deveriam estar cansados.

Gostaria de falar para as mães que fazem parte do Bolsa-Escola. Claro que elas têm de agradecer por receber esse dinheiro, mas que não se satisfaçam com isso, por favor. É muito pouco! Vejam que os outros que estão ganhando muito, muito, cansaram-se e vão fazer um minuto de silêncio, vão fazer passeatas. Vocês, mães que ganham o Bolsa-Família, estão acomodadas. Não fiquem acomodadas! Fiquem cansadas, mas cansadas no sentido da propaganda dos que estão cansados do caos aéreo, o cansaço da revolta, o cansaço da mobilização.

Quero que vocês despertem para exigir aquilo que têm direito. Vocês não estão cansadas de ver seus filhos sem escola, enquanto os filhos dos ricos, daqueles que estão cansados e protestam, têm boas escolas? Vocês não estão cansadas de saber que os filhos dos ricos terão futuro e que os filhos de vocês não terão futuro, por causa da escola? Vocês não cansaram de achar que é um direito dos ricos terem boa escola e a condenação dos pobres terem escola ruim? Será que isso não cansa vocês?

Não estou falando aqui para os Senadores, porque todos temos boas escolas. Estou falando para você que não se cansa de ser abandonada. Quero falar para vocês que assistem ao meu discurso calados, em vez de cansados, às mães e aos pais que aceitam a escola como ela é. Vocês estão sendo enganados! Vocês não comprariam uma televisão numa loja que se parecesse com uma escola, mas deixam os filhos de vocês lá. Vocês não comprariam comida numa venda, num armazém, num supermercado que se parecesse com a escola onde deixam seus filhos.

E vocês não se indignam, não vão para a frente da prefeitura, não cercam o carro do prefeito? E, quando os professores faltam, vocês não reclamam? E quando o salário do professor é baixo, vocês não vão para as ruas junto com os professores pedir dinheiro para os professores, desde que não parem de dar aula aos filhos de vocês? Vocês tinham de ter duas indignações, dois cansaços: com o Governo que não paga o salário e com o professor que não dá aula.

E, com isso, estão condenando os filhos de vocês.

Os outros cansaram. Estão brigando para que os filhos deles não fiquem nos aeroportos esperando por avião atrasado. E sabem o que eles já conseguiram? Um novo aeroporto em São Paulo. E vão conseguir um trenzinho para levá-los da cidade até o aeroporto, que eu vou usar. E vocês não se cansam de ver seus filhos indo a pé para a escola.

Cansem, por favor! Cansem, mas reclamem. Vocês têm direito! Como eu disse que os analfabetos deveriam ir para a prefeitura exigir curso e um salário para aprender a ler, vocês têm o direito de ir para a prefeitura e reclamar que as escolas não estão funcionando. E se o prefeito disser que não tem dinheiro, ajude-o a pedir dinheiro ao governador. E se o governador não tiver dinheiro, ajude-o a pedir dinheiro ao Governo Federal. E se o Governo Federal disser que não tem dinheiro, pergunte o que estão fazendo com os R$60 bilhões do superávit. Pergunte por que nós, Senadores, tivemos aumento, e falta dinheiro para pagar melhores salários aos professores. Por favor, está na hora de que todo mundo se canse, não só aqueles que estão sentados nas poltronas dos aeroportos! Estou cansado da falta de cansaço de uma parte da população brasileira, até porque não é aqui dentro que vamos conseguir melhorar as coisas. Ou o povo cansa, vai para rua, reclama e briga, ou não pensem que daqui, sozinhos, vamos conseguir mudar as coisas.

Mas, até para descansar desse cansaço, passo a palavra a dois Senadores que pediram um aparte, embora tenha dito que não iria falar para S. Exªs. Mas os apartes de S. Exªs são bem recebidos. Gostaria que V. Exªs falassem não só para mim, nem para os outros Senadores. Falem pensando naqueles que estão nos assistindo, os cansados nas poltronas dos aeroportos e os acomodados em pé nas paradas de ônibus, os acomodados em pé nas filas procurando emprego, os acomodados com as escolas ruins dos seus filhos, os acomodados com as filas dos hospitais, os acomodados sem ter dinheiro para comprar o remédio. É pensando neles que passo a palavra ao Senador Sibá e depois ao Senador Adelmir.

O Sr. Sibá Machado (Bloco/PT – AC) – Senador Cristovam, pedi o aparte porque, em primeiro lugar, pretendia abordar esse tema da educação, por conta da matéria publicada no Jornal do Senado, que diz que V. Exª teria feito uma abordagem, numa audiência da Comissão de Educação, se não me engano, sobre esse tema. Como a essência do pronunciamento de V. Exª já havia me chamado à atenção, aproveito para fazer as duas coisas neste aparte e não mais no meu pronunciamento. Sobre a educação em si, nos últimos quatro anos da minha vida, desde que cheguei ao Senado, tenho me dedicado ao máximo a acompanhar o debate sobre as universidades e a ajudar, como posso, a universidade pública do meu Estado. Ouvi, nos debates da reforma das universidades – não sei se a proposta é atribuída a V. Exª, desculpe-me a ignorância –, que o Ministério da Educação, juntamente com os Estados e os Municípios, deveria cuidar exclusivamente dos ensinos infantil, fundamental e médio, garantindo que todas as crianças e os jovens do Brasil concluíssem o ensino médio, e que toda a gama do ensino superior fosse transportada, ou para um ministério exclusivo, ou para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Confesso que no primeiro momento ouvi e não sei se entendi direito, mas, hoje, começo a me deixar, digamos assim, ganhar pela idéia. Tenho andado bastante pelo Brasil, na ânsia de dar uma contribuição significativa à nossa universidade pública, e acabei de me convencer de que não adianta ter uma excelente universidade se tivermos um público que sai do ensino médio sem condições de poder fazer um excelente curso superior e ter uma boa carreira científica a posteriori. Portanto, nesse ponto, faço uma pergunta a V. Exª, se estou entendendo corretamente e se essa frase é atribuída a V. Exª. Quanto à questão da crítica – não sei se podemos chamar assim –, vi o documento parece que assinado até mesmo pela OAB, do Movimento Cansei. Digo a V. Exª que fui um ativista de movimentos populares e um cuidado meio que empírico que tive, não tinha nenhuma consciência muito científica, mas era muito da minha natureza, é que temos de ter um objetivo mais claro para fazer as coisas. Se eu não tiver um objetivo mais claro, posso até ter organizado um excelente movimento popular por um período e depois ele morrer de inanição, sem ter um resultado mais prático, mais entendido pelo público que dele participa. Portanto, digo a V. Exª que acho que, na abordagem geral, está corretíssimo, porque podemos deixar de elencar as prioridades dos investimentos – os investimentos de cada prefeitura, os investimentos de cada Estado e os investimentos da esfera nacional, e como isso chega na ponta final e com a qualidade que deve chegar. Portanto, valeu muito a pena ter escutado no dia de hoje essas preocupações de V. Exª. Penso que o Movimento Cansei tem o direito cívico de fazê-lo, mas acredito que realmente está pecando pela forma como está fazendo. Por exemplo, não tem rosto, não tem endereço. Fica tão impessoal que as pessoas podem perguntar: “Vamos sair de casa para fazer o quê? O que nós vamos fazer?” Vou encerrar o aparte a V. Exª referindo-me ao direito ao ócio e o direito ao trabalho. Os dois têm de ter regras. O direito ao ócio seria, no meu entendimento, o descompromisso com os prazos. É quando a pessoa não precisa estar amarrada ao despertador para acordar de manhã cedo. Não precisa estar amarrada ao tempo de voltar à cama para dormir. Ou seja, quando a pessoa tem certo descompromisso com os prazos. O direito ao trabalho seria o oposto: a pessoa tem de ter o compromisso com o relógio, com os prazos, com o tempo. Porém, tanto um quanto outro, se forem obrigatórios, estão errados. Imagine uma pessoa desempregada. Ela está, digamos assim, numa situação de ócio, obrigada. Portanto, isso está errado, como estão errados também aqueles que fazem do trabalho uma escravidão e não têm mais tempo para as outras coisas. Com relação a esses dois cenários, faço aqui a reflexão de que isso não pode acontecer. Portanto, o direito, no meu entendimento, da pessoa está brilhantemente listado neste pronunciamento de V. Exª. Só me resta parabenizá-lo, pois acho que V. Exª acertou no ponto no entendimento. V. Exª chama a todos, não apenas ao público a que se referiu no início do discurso, mas a todos nós que estamos aqui neste momento e também o povo ouvindo-o atentamente.

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT – DF) – Agradeço, Senador Sibá Machado, o aparte e confirmo que essa é uma posição muito antiga minha, que não é uma criação minha. Na maior parte dos países onde deu certo a educação, havia um Ministério da Educação de Base e um Ministério do Ensino Superior. Mas, como aqui já há muitos Ministérios, melhor juntar Ensino Superior e Ciência e Tecnologia, ou fechamos três, cinco ou dez Ministérios e criamos um Ministério só para o ensino superior. Sabe por quê? Tem a ver com este discurso. É que os universitários cansam e vão para as ruas, brigam e levam tudo. As crianças e seus pais pobres não vão para as ruas e não conseguem nada. O pobre do Prefeito não tem como promover uma boa educação no Brasil. Por isso, tem de haver pelo menos um Ministro que cuide deles, que tente federalizar a educação de base. Enquanto não fizermos isso, não vai haver dinheiro federal para analfabetos, porque os universitários lutam por dinheiro para a universidade e ganham.

Informo ao senhor que essa idéia eu levei ao Presidente Lula em dezembro de 2002, antes de Sua Excelência assumir. Quando o Presidente me convidou para ser Ministro da Educação, eu disse que queria mesmo era ser Ministro da Educação de Base e poder fazer a revolução de que este Brasil precisa. Veja uma coisa importante: a universidade precisa melhorar, mas a educação de base precisa de uma revolução. É diferente. A diferença das nossas universidades para as dos países ricos é essa, mas a diferença da nossa educação de base para a dos países desenvolvidos é essa. Nisso se consiste a revolução.

Além disso, como o senhor mesmo disse, não tem como haver uma boa universidade em um país que joga fora 82% dos seus cérebros, porque não terminaram o ensino médio com qualidade. E nós não vamos querer que ingresse na universidade quem não concluiu o ensino médio. Estamos jogando fora cérebros. É como se estivéssemos fechando, tapando 82% dos poços de petróleo que encontrássemos, porque não há energia mais forte do que a energia intelectual, até porque o petróleo vai acabar, vai precisar da energia intelectual para inventar um substitutivo do petróleo. Para tirar combustível de pedra vai precisar de muita ciência. Não estamos fazendo isso.

Imaginem se, no futebol, só deixássemos 18% jogarem bola no Brasil?! É o que fazemos com a Ciência e a Tecnologia, não deixamos 100% jogarem. Então, por isso, tem de haver um Ministério da Educação de Base, para trazer o problema da educação de base para o centro das decisões nacionais e não só ficar na periferia dos limites dos recursos municipais. Por isso, defendo, sim, esse Ministério da Educação de Base como instrumento da emancipação do povo brasileiro por meio da educação de base com a influência e com a decisão do Governo Federal.

Concedo um aparte ao Senador Adelmir Santana.

O Sr. Adelmir Santana (DEM – DF) – Senador Cristovam, pedi esse aparte a V. Exª para dizer que, em dado momento do seu pronunciamento, cheguei a me emocionar, com o seu grito no sentido da mobilização para que as pessoas mais simples comecem a reclamar e a dizer que estão cansadas com a falta de oportunidades. Na verdade, o País tem uma dívida social imensa na área da educação, dívida social que se estende a outros setores. Não é possível que tenhamos essas deficiências que V. Exª enumerou, de pessoas que não capazes sequer de ler uma legenda, dissecar uma notícia, entender uma notícia veiculada pela televisão, de não compreender as coisas mais simples, como um endereço, um local a que se dirige.

Então é uma dívida que todos nós temos que ter a compreensão de que é imensa e que temos de nos associar a este cansaço a que V. Exª se refere aqui. O senhor estendeu este cansaço a outros setores da administração pública. Eu dizia, na semana passada, que temos aí um preceito constitucional no que diz respeito à saúde, direito de todos, dever do Estado. No entanto, o senhor fez referência aos planos de saúde, àqueles que podem e que têm planos de saúde, outros que ficam na fila às vezes por sessenta dias para uma consulta, como se a doença esperasse. E quando da consulta, Sr. Senador, muitas vezes não se faz este atendimento integral, porque são prescritos às vezes alguns produtos que ele não tem como adquirir. É preciso que se repense isso, com poucos recursos a dar o atendimento inicial a esta população. Eu dizia, na semana passada, que talvez com R$1,9 bilhão ou R$ 2 bilhões dos vários recursos que estão destinados à saúde poderia ser feito um atendimento integral do primeiro momento. Para isso é preciso que os pequenos Municípios sejam dotados de equipamentos essenciais e que não haja essa migração constante de pessoas procurando os grandes centros pelo atendimento médico e, muitas vezes, voltando novamente à fila da consulta, porque não teve esse atendimento integral, pois não recebeu os produtos que foram prescritos pelo médico. É importante, portanto, que este grito se estenda a todas as ações que o Estado tenha obrigação de fazer com essa população. Associo-me a V. Exª nesse grito, com entusiasmo, com emoção. Há poucos dias, estive no interior do Estado do Piauí e verifiquei o quanto essa população é sofrida, o quanto essa população não tem consciência dos seus direitos que são constitucionais e que, muitas vezes, são relegados por falta de alguém que faça o grito, como o que V. Exª desperta, neste instante, em todos nós. Quero, portanto, associar-me ao discurso de V. Exª, não apenas na área da educação, mas também na área da saúde, dos transportes, que são obrigações do Estado brasileiro, que tem uma carga tributária extremamente excessiva daqueles que são formalizados para bancar esses serviços. Portanto, Sr. Senador, todos nós temos de estar irmanados nesses princípios de lutar por essa população que não tem, como os outros, a consciência de que gritando, dizendo que cansou, tem a oportunidade de ser atendido pelo Estado brasileiro.

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT – DF) – Obrigado, Senador Adelmir. Fico feliz de ter tocado no seu coração, mesmo querendo falar para o povo lá fora, não apenas aqui para dentro. De fato, não é só educação, mas nada virá se o povo não se manifestar. Voltando ao que o Senador Sibá falou, para mostrar como é importante essa mobilização, a idéia do ProUni nasceu em 2003, com o nome de Programa de Apoio ao Estudante. O projeto de lei foi entregue na Casa Civil. Sabem por que não saiu daquela maneira? Porque lá estava escrito que o aluno que recebesse dinheiro do ProUni teria que, durante um semestre de sua carreira, ser alfabetizador de adultos. Mas os analfabetos não se mobilizaram. Claro, nem sabiam! A UNE se mobilizou, os universitários se mobilizaram e, junto ao Governo Federal, conseguiram tirar esse compromisso da alfabetização daqueles que recebem dinheiro para estudar na universidade. E ficaram só com os recursos. Além disso, a proposta era pagar e não fazer todo esse jogo com dinheiro que seria de impostos. Isso ocorreu porque os analfabetos não se cansaram ainda do analfabetismo e os universitários cansaram de serem chamados para serem alfabetizadores. Cansaram, foram para a rua – não a rua, fisicamente, mas a rua do ponto de vista dos corredores do Planalto, dos corredores do Ministério da Educação – e transformaram um projeto que vinculava a universidade à alfabetização em um projeto só para os universitários, porque o Ministério é um só e ficou do lado dos que se mobilizam, não do lado dos outros. Se tivéssemos dois ministérios, eles teriam brigado, e o projeto teria saído como deveria.

Senhoras e senhores, lá de fora, que estão me ouvindo, retomo o meu discurso, do ponto em que parei – e não vou demorar muito, Senador Mão Santa.

Eu falava – e vi que o Senador Wellington até balançou a cabeça quando eu disse isso – que o povo brasileiro não compraria uma televisão em uma loja que se parecesse com a escola, mas deixa suas crianças lá. E o pior, Senador Mão Santa, é que as deixam lá – refiro-me a você, ouvinte, telespectador – satisfeitos com essa escola, porque vocês não tiveram nenhuma, aí, acham que ela está boa.

Em pesquisa feita com os pais de alunos da escola pública, os pais deram nota média oito! Nem as escolas dos ricos merecem nota oito no Brasil, porque lá não se estudam os clássicos, lá não se aprende a ler como se deveria, e os pobres deram nota oito.

Ontem, aqui na Comissão de Educação, o Dr. Jorge Werthein, que foi da Unesco, disse que havia falado, há pouco, com uma senhora pobre, uma trabalhadora doméstica – que talvez esteja me ouvindo –, e ela disse que a escola do filho dela é ótima, só que os professores não estavam indo dar aula há uma semana. Como é que uma escola é boa sem professor, povo que está me ouvindo?

Cansem dessa idéia que o Brasil rico vendeu para vocês de que escola é restaurante mirim! Cansem dessa idéia de que menino vai para a escola apenas para comer. Cansem, por favor! Porque, comendo, eles ficam vivos, mas só comendo eles não têm futuro. O futuro vem da comida do espírito. Para ir para o céu, é a comida que vem do pastor, do padre, do rabino, mas, para ter futuro nesta terra, é a comida que vem para a cabeça, para o cérebro, para a inteligência. Cansem de ver seus filhos sem hospital, de ver seus filhos sem remédio, de ver seus pais morrendo num corredor de hospital. Cansem, por favor, disso! Não deixem que, no Brasil, cansem apenas os que estão como eu, sentados nas confortáveis poltronas dos aeroportos. Cansem também. Isso não é só para o futuro dos seus filhos, é para o futuro do Brasil também, porque, se as crianças deste País não tiverem futuro, não haverá futuro para o Brasil. E, se só as crianças dos ricos tiverem futuro, o Brasil não vai ter futuro, porque o Brasil é feito de muito mais gente do que os filhos dos ricos.

Peço que, por favor, vocês também vão às ruas. Não deixem só os outros irem às ruas. Exijam para os seus filhos uma escola tão boa quanto às dos ricos. Vocês têm direito a isso. Vá ao Prefeito, ao Presidente, ao Governador, porque eles têm a obrigação de dar isso à população. E, se eles não derem – vou dizer aqui, Senador Wellington, algo muito radical –, se o Prefeito não der, se o Governador não der, pegue seu filho e o leve para uma escola de rico paga, e diga que quer deixar o seu filho lá. E vamos ver o que vai acontecer. Exija. Por que há escola para rico e escola para pobre?

Um país pode sobreviver com roupa de rico e roupa de pobre; restaurante de rico e restaurante de pobre; um país pode sobreviver com aeroporto e parada de ônibus; mas um país não pode sobreviver com escola de rico e escola de pobre. Não é um país; é um território onde mora uma porção de gente dividindo. Então briguem, manifestem-se, conversem com seus amigos, parentes, conhecidos, colegas! Não deixem de falar nas necessidades de vocês. Não vou dizer que parem de tomar sua cervejinha, mas não fiquem só nisso para apagar o cansaço, porque este País está virando, nos finais de semana, um país de alcoolismo, Senador! E não é porque as pessoas querem beber, mas porque as pessoas querem esquecer o cansaço e continuar acomodadas. Os ricos, que tomam uísque, estão indo à rua brigar por aeroportos bons, por uma redução da carga fiscal, por uma eficiência maior desse Governo, e os outros estão bebendo sua cerveja, sua cachaça, suas bebidas todas, divertindo-se até, e não se mobilizando. Não estou dizendo que parem de fazer essas coisas que gostam, mas que não façam só isso.

Espero que vocês aprendam a cobrar como os ricos cansados estão aprendendo. Eles, já na primeira passeata, estão conseguindo aeroporto e trem para transportá-los. Falo com vocês que me estão ouvindo aí, sem conseguir ler o que está escrito embaixo – porque, como falei, 16 milhões não lêem o que está escrito embaixo, e, se estiver passando naquela velocidade que passa no cinema, que passa na televisão, até quem aprendeu a ler não consegue, porque quem não lê muito lê devagar.

Para concluir, Sr. Presidente, quero dizer que também estou cansado. Mas estou cansado, sobretudo, desse desencontro entre um Brasil cansado que se mobiliza e um Brasil acomodado, paralisado. E a minha mensagem final é para tentar casar esses dois Brasis. Não vim aqui fazer luta de classes entre os cansados ricos e os acomodados pobres. Vim pedir que eles se juntem. Juntem-se naquilo que salvaria os dois, o Brasil rico e o Brasil pobre, e construiria um único Brasil: uma escola igual para todos.

Vim aqui pedir para que os que cansaram e que estão se mobilizando pela OAB lutem para que a escola do pobre seja igual à escola do rico, e que essa luta, ao trazer vantagem não só para os ricos, ao trazer vantagem também para os pobres, que essa luta ajude a tirar do cansaço um país inteiro que se acostumou a dizer e a se orgulhar de dizer que dorme em berço esplêndido. Por melhor que seja o berço, não vale a pena ficar morto nele. Por melhor que seja o berço e a cama, só vale a pena na hora em que a gente precise recuperar as forças para sair à luta e manifestar-se, lutando para mudar o Brasil. E o caminho da mudança é a escola do rico igual à do pobre. Aqui fica o meu desafio para superar esse meu cansaço e fazer com que o meu cansaço seja a minha manifestação. Vou, no dia 14, fazer um minuto de silêncio. Sei que é o cansaço da parcela rica, mas vou fazer o meu minuto de silêncio no dia 14 de agosto, conforme essa mobilização. E vou fazê-lo pensando mesmo mais nas paradas de ônibus, que não tenho usado, do que nos aeroportos, onde tenho sofrido. Vou fazê-lo pensando mais em como o dinheiro é mal aplicado neste País do que no tamanho da carga fiscal, que é alta. Vou fazer o meu minuto de silêncio pensando mais na corrupção das prioridades para onde vai o dinheiro do que mesmo na corrupção dos políticos que põem dinheiro no seu bolso. E vou fazer o meu silêncio como fazemos pelos mortos, pensando em um País que dorme em berço esplêndido, que não morreu ainda, mas que, adormecido, não vai chegar no futuro. Vou fazer um minuto de silêncio pensando na possibilidade de unir os dois “Brasis” nas escolas, que são as encruzilhadas das classes quando a escola é igual para todos e é, ao mesmo tempo, o aeroporto do futuro para o Brasil.

Era isso o que eu tinha a dizer, Senador Mão Santa, agradecendo a sua paciência e a dos que me fizeram apartes e me ouviram, mesmo sabendo que o que estou falando, hoje, não é para aqui dentro, é lá para fora, querendo despertar o Brasil.



Desfile ocorrido em São Leopoldo, comemorativo dos 138 anos da imigração alemã



FALANDO DE HISTORIA

1. Dilemas de um naturalista na Amazônia colonial


Expedição no final do século 18 percorreu boa parte do norte do Brasil
leia em http://cienciahoje.uol.com.br/97165


2. Fósseis reescrevem história da evolução dos hominídeos (do site da Revista Ciência Hoje)08/08/2007

Fósseis descobertos no Quênia indicam que o Homo habilis e o Homo erectus coexistiram no leste da África durante quase 500 milhões de anos, ao contrário do que se acreditava. Antes disso, supunha-se que o H. erectus – que deu origem aos humanos modernos ( H. sapiens ) – havia evoluído a partir do H. habilis . No entanto, os ossos encontrados ao leste do lago Turkana e descritos na edição desta semana da revista Nature sugerem que ambas as espécies devem ter surgido entre 2 e 3 milhões de anos atrás. Um dos fósseis consiste em um pedaço de mandíbula atribuído ao H. habilis , datado em cerca de 1,44 milhão de anos – muito mais recente do que outros fósseis conhecidos dessa espécie. Na mesma região, foi encontrado também um crânio de H. erectus (foto), com data de cerca de 1,55 milhão de anos. O crânio chama a atenção pelo tamanho: é o menor espécime de H. erectus já identificado, o que indica que essa espécie era menos parecida com o H. sapiens do que se acreditava. A equipe do paleoantropólogo Fred Spoor, do University College London (Inglaterra), que analisou os fósseis, acredita que as duas espécies tinham nichos ecológicos distintos e evitavam competir entre si.

BRASIL


1. Uma resposta ao artigo de Ali Kamel, que fala pela TV Globo [Renato Rovai]

Ele se diz preocupado com os ataques que a “grande imprensa” está sofrendo. Separei alguns trechos do artigo, para que o leitor possa fazer suas comparações. Duvido que ele fizesse o mesmo na democrática Globo ou no democrático jornal da família. Falaria sozinho. http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=701

2. O que o PAN pode ensinar
Por Denílson Botelho(*) , do Fazendo Média (publicado no http://www.novae.inf.br/)

Enviado ao sertão da Bahia no final do século XIX, Euclides da Cunha produziu uma das mais importantes obras da literatura brasileira. O que deveria ser apenas a cobertura jornalística da guerra de Canudos, transformou-se no inigualável Os Sertões. Dentre muitas das suas qualidades, o livro revela a perplexidade do autor diante de um Brasil até então pouco conhecido, cujo habitante é assim descrito: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, no primeiro lance de vista, revela o contrário(...). É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasimodo (...) é o homem permanentemente fatigado (...) Entretanto, toda essa aparência de cansaço ilude (...) No revés o homem transfigura-se . (...) e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias."

O PAN recentemente realizado no Rio de Janeiro resgatou, às avessas, a figura do sertanejo de Euclides travestido no heróico atleta brasileiro incensado por todos - ou quase todos - e em especial pela grande mídia. Já estou farto de ver repetido a todo instante o mesmo tipo de elogio que nos induz a destacar os aspectos positivos do PAN: “veja, mesmo pobres, sem apoio de espécie alguma e treinando com toda precariedade, nossos atletas encheram-nos de orgulho pelas inúmeras medalhas conquistadas e por isso devem ser tomados como exemplos a serem seguidos”.

Não pretendo aqui tirar uma nesga sequer do brilho que salta dessas conquistas e do indiscutível mérito desses “sertanejos” do século XXI, que defenderam honrosamente o verde e amarelo pátrios. O que incomoda nesse discurso é sua mensagem subliminar, que assegura o regozijo das nossas elites econômicas e sociais ao reafirmar o seguinte: tá vendo, critica-se tanto a desigualdade e a concentração de riquezas, mas o pobre não precisa ficar rico para vencer, deixem as coisas como estão que assim está ótimo para todos! Não precisa dar boa escola, alimentação de qualidade, assistência médica eficiente e uma renda digna, quanto mais pobres, mais determinados eles são e superam todas as adversidades, para alegria do Engenhão lotado ou do Maracanã! Viva o PAN! Esse é o grande aprendizado que devemos extrair do PAN!

Como acho que tudo isso é de um cinismo vergonhoso e inaceitável, me incomoda profundamente essa apologia do heroísmo de nossos atletas. É como se disséssemos ao jovem morador de uma favela brasileira qualquer que nada vai mudar nas suas condições de vida, afinal ele não depende disso para vencer, depende somente da sua determinação, empenho e dedicação à realização dos seus sonhos. É um argumento que tem cheiro de livro de auto-ajuda, na base do popular “quando você deseja algo, o universo conspira para que você consiga”. Quanta hipocrisia e sordidez!

O que tornou Canudos um episódio nacional foi o espanto e a dificuldade com que a polícia da Bahia e depois o Exército tentavam explicar o fato daquele arraial perdido no sertão apresentar-se inexpugnável. Homens fortemente armados foram sucessivamente derrotados por indivíduos aparentemente fatigados, desgraciosos, desengonçados, tortos e... desarmados, até o genocídio que pôs fim à revolta. Euclides da Cunha forçava-nos a pensar já em 1897 sobre que tipo de nação pretendíamos construir com aqueles sertanejos reunidos em torno de Antônio Conselheiro, liderança messiânica dos nossos grotões.

Se Os Sertões foi, de certa forma, a denúncia de uma situação que era necessário mudar, de um sertanejo que deveria deixar de existir no futuro, parece que em pleno século XXI ele continua vivo tal qual há mais de cem anos, assombrando a todos nos Pan-Americanos e no dia-a-dia. E Canudos sobrevive, agora é aqui, no alto dos morros e em cada esquina das grandes cidades brasileiras. Até quando?

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito. Contatos: ahlb@uol.com.br


3. CRIME E CASTIGO

Maria Tereza Armonia *

Uma discussão que ainda não chegou na academia mas que há muito está em pauta é sobre a discriminação do doutoramento dos professores no Brasil. Para um país em que qualquer um é Dr., o professor não pode sê-lo.

Primeira premissa: Os donos de faculdades particulares usam o título do professor mestre/doutor para dar reconhecimento ao seu estabelecimento comercial, já que é uma exigência do MEC que cada faculdade tenha 1/3 de mestres e doutores para ser reconhecida e avaliada.

Segunda premissa: Se as faculdades particulares são estabelecimentos comerciais, o freguês sempre tem razão.

Terceira premissa: quanto mais qualificado o professor, maior o salário, portanto, mais rápida a demissão.

Quarta premissa: professor bonzinho é o que enrola e não ensina, se ele tem seriedade e responsabilidade de que o aluno aprenda de fato, a cabeça rola.

Só quem mergulha na aventura de ser mestre/doutor sabe quanto desgaste se tem com isto. É uma pressão sem precedentes, um trabalho árduo, que nos custa o tempo de lazer, o convívio com a família, noites sem dormir, graus a mais nas lentes dos óculos, enfim, muitas outras coisas que nem vale a pena citar aqui.

Bem, ainda tem um antecedente nisto tudo: se você será aceito pela academia, porque talvez o seu projeto de pesquisa seja tão inovador que não haja um herói entre os doutores altamente especializados da academia que concorde em orientar a sua pesquisa.

Este é o primeiro crime do candidato a doutor: apresentar uma pesquisa que não esteja de acordo com a pesquisa de algum orientador da academia.

Castigo: Não entra de jeito nenhum, nem com reza brava.

Se vencer esta etapa sem maiores desgastes que não os já de praxe, sai ao mercado de trabalho e o que encontra é realmente desanimador: não há vagas em faculdades federais para os mestres/doutores, então, há que se encarar uma faculdade particular para dar aula.

Aí, somos festejados na chegada. A festa acaba quando um coordenador qualquer entrega um programa de curso e uma ementa que não têm fundamentação lógica, nem estrutural, afinal, não têm fundamentação nenhuma. Desanimados, procuramos ajustar as coisas e acreditamos firmemente ser mais um dos tantos desafios que enfrentamos na carreira. Ainda de cabeça erguida, chegamos em sala de aula na maior confiança e, ao darmos a nossa aula vendo alunos cochilarem, conversarem entre si, abaixarem a cabeça na carteira, recortarem as atividades que darão a tarde aos seus pimpolhos das séries iniciais e nos olharem com aquele ar de enfado absoluto para, ao final, falarem que não entenderam nada do que foi dito e discutirem se o professor que leciona metodologia tem mesmo que falar em filosofia, sociologia, que são disciplinas de outros profissionais?!?!?!... O crime: saber demais para aquela turba de graduandos.

O castigo: ser demitido, porque o freguês sempre tem razão e se o professor não se adequar a isto, está fora...

Bem, se não for demitido por saber demais, tão logo o estabelecimento comercial no qual trabalha seja reconhecido pelo MEC, aí, meu amigo, não vai ter jeito... pode procurar outro boteco pra trabalhar, porque neste você dançou!

A exigência do MEC é um tributo ao profissional para melhorar sua qualificação. Num país onde temos uma imensa maioria de analfabetos e semi-alfabetizados e ainda os analfabetos funcionais, a busca pela qualificação devia ser uma constante. Mas, sabemos que, quanto maior a formação, maiores são os problemas: somos tripudiados por certos colegas de trabalho, demitidos pela “overqualified”, marginalizados por ter uma boa formação acadêmica. E o ciclo se renova, porque quanto menor a formação do professor, pior a formação do alunado, como nos demonstram os exames de proficiência feitos todo ano neste país.

Quando procuramos a legitimação da academia, não estamos apenas buscando um título, mas o saber recente, as pesquisas que fazem as teorias mais atuais, porque precisamos disso para melhorar o ensino no país. E todos os professores que buscam qualificação têm em mente o caos da Educação no Brasil e por isso alguns poucos valentes precisam se aventurar em ter um título que, no Brasil, confere mais dores de cabeça que realmente legitimação e autoridade.

Num país onde administrador de empresa é doutor, qualquer cidadão que ande de terno é doutor, os legítimos doutores estão à deriva, num barco que vai afundar. Bem, considerando que hoje concede-se licença para qualquer cidadão instalar faculdades de esquina, em equivalência numérica aos botecos de cachaça e sem nenhuma preocupação que não seja, antes de tudo, o faturamento mensal, não se pode esperar muito mesmo do futuro.

O triste é saber que o nosso conhecimento e a nossa ilusão estão perdidos no meio de tanta ignorância. Porque saber, meu amigo, dá um trabalhão danado!

* Mestra em educação e eterna candidata a doutora

5. O ensino universitário no Brasil: retrato 3X4 de um caos
Paulo Ghiraldelli Jr.


A cidade de São Paulo possui menos que dez universidades, entre públicas e particulares. A PUC-SP passou por uma crise que quase a descaracterizou, recentemente. A USP praticamente perdeu o ano de 2007. A UNIBAM jogou o preço no chão, o que significa uma qualidade também no chão. E a São Marcos, que vinha capengando já há alguns anos, finalmente quebrou de vez. Causa: má administração no passado, presente e, tudo indica, também no futuro.

O caso da São Marcos é significativo. É um retrato 3x4 do ensino universitário em nosso país. Ela tem o nome de “São Marcos”, o que induz as pessoas a acreditarem que é confessional, mas não é. Assim, já no nome, ela é falsa ou, no mínimo, “caso de PROCOM” – propaganda enganosa. Ela anuncia ter um patrimônio para ensino, pesquisa e extensão, mas não tem. Seus prédios são alugados, e ela já não paga o aluguel desses prédios (a maioria deles tombado) faz um bom tempo. Seus laboratórios são sucateados e a biblioteca é pobre. Uma universidade, para ser universidade, precisa ter pesquisa. Cadê a pesquisa da São Marcos? Não existe! Bem, agora, completamente quebrada, devendo para Deus e todo o mundo, e não tendo acertado suas obrigações trabalhistas, os donos da São Marcos fizeram o que deveriam ser proibidos de fazer: jogaram o salário dos professores para menos de 21 reais a hora-aula. E mesmo no setor de pós-graduação, que tentaram manter os salários, não pagam bem, algo em torno de 48 reais. Ora, qualquer faculdade isolada da grande São Paulo, bem administrada, paga mais o doutor e, se descuidar, até o mestre.

Então, a São Marcos é isso: os donos, gastões inveterados e notórios desmiolados, resolveram culpar os professores pelo prejuízo que eles causaram à universidade. Os professores foram “convidados” a se humilharem e praticamente darem aula gratuitamente, pois quando a hora-aula de uma universidade chega a menos de 21 reais, já não há aula alguma e nem se pode dizer que está havendo alguma universidade ali.

O que pode fazer o professor? Sem dúvida, o correto seria partirem para a greve. E sem medo, pois o buraco da universidade não vai se resolver e eles vão, mais cedo ou mais tarde, para o olho da rua. E não receberão direitos trabalhistas nenhum. Com certeza. Esses professores, que aceitam isso, não são professores. O professor universitário que aceita trabalhar por esse preço, ele não tem orgulho próprio. Ou, no fundo, ele sabe que é um profissional ruim. Então, chegando a notícia nos ouvidos dos alunos, de que os professores são mal pagos, é difícil que alguém se inscreva para um vestibular em uma universidade assim.

Agora, isso é um caso isolado? Talvez, em termos de má-administração, até seja. Há quem não nasceu para administrar coisa alguma, e quando tenta, não vai adiante mesmo. Parece que é esse o caso dos donos da São Marcos, passados e presentes. Eles não possuem o tirocínio para a coisa, e vão continuar a naufragar. Agora, a São Marcos não é um caso isolado quanto a um fato: o ensino superior universitário no Brasil é, salvo raríssimas exceções que todos conhecem, em cada capital, uma farsa.

Não há pesquisa – há um engodo. Não há professores bem pagos e a carga de aulas deles ou é exagerada ou é pequena a ponto de fazer com que eles tenham que se deslocar de faculdade em faculdade. As universidades que possuem lucro, não investem em si mesmas, enquanto instituições de ensino. Normalmente, a mantenedora tem lá alguém cujo patrimônio cresce de modo desproporcional.

O professor Renato Mezan, há alguns anos, na Folha de S. Paulo, denunciou o ensino particular universitário, dizendo que todo este tipo de ensino, com raras exceções, é uma grande mentira. Disse também, na época, como que ele via a atuação do governo e da CAPES. Todos nós sabemos que este governo do Lula é igual ao do FHC em relação ao ensino superior: não tem coragem de apertar as universidades, exigindo que elas cumpram o que lhes é obrigatório por lei para usufruírem o nome de universidade.

O que é pior é que alguns donos de universidades inventaram de culpar o governo passado, do FHC, pelo desmando que eles próprios causaram na universidade deles. O atual administrador da São Marcos é um porta voz disso: ele acusa o ex-ministro Paulo Renato de igualar os centros universitários às universidades e, então, ele diz que isso foi o fim do ensino superior. Esteja ele errado ou certo, isso não importa. A fala dele é a do cínico: esse tipo de gente elegeu o FHC (no Lula é que não votaram!), depois, esse tipo de gente ou pediu benesses ou ao menos solicitou vista grossa para o fato de não cumprirem a lei. Agora, uma vez tendo batido a cabeça por incompetência que é típica do empresariado brasileiro que, enfim, ainda mantém suas empresas sujeitas a briguinhas familiares, vão para o público e dizem que a culpa deles darem um péssimo ensino e pagarem mal os professores é do governo, ou do ex-governo. É ridículo, é vergonhoso. Caso se tratasse de gente séria, poderiam sanear custos no setor administrativo e tudo o mais; mas não, o primeiro lugar que cortam é no lugar que não podem cortar: salário daquele que faz a universidade existir, o professor.

O governo e a CAPES vê tudo isso como se não fosse problema deles. De vez em quando, quando há demissões, mandam cartinhas ameaçadoras. Mas isso não é legítimo. O correto seria atingir a universidade antes dela quebrar, fiscalizando não apenas os cursos, mas fiscalizando as finanças da universidade.

Meu amigo Gilmar Garagorry , diretor da Faculdade Diadema, sempre insiste: no Brasil o MEC não fiscaliza o principal, que são as mantenedoras, o setor financeiro da universidade. O MEC fica apenas no pedagógico e, então, não pode prever que num prazo de dois ou três anos, toda a avaliação que fez das universidades não serviu para nada, pois ela já estava entrando em colapso financeiro e ninguém via, ainda que seus cursos estivessem todos regulamentadinhos. O MEC deveria se adiantar a isso, pois o colapso financeiro leva a casos como a da São Marcos: ela vai continuar sendo universidade, legalmente, mas ilegitimamente, ainda durante um bom tempo, até fechar de vez ou, por milagre de algum banco, se recuperar. Isso não é justo para com a sociedade. Pois a sociedade conta com a instituição que se apresenta como universidade, como uma autêntica universidade. Mas ela já não é, pois parece saudável apenas no visual, em dois anos, ela não se agüenta das pernas e, então, cria essa situação que a São Marcos representa bem nos dias de hoje.

As famosas “comissões do MEC”, tão burocraticamente ameaçadoras para regularizar cursos de uma universidade, não enxergam o que deveriam enxergar: como está a vida financeira da instituição. É isso que deveriam olhar antes de tudo. Para tal, é necessário que o MEC crie novos mecanismos para tal. Mas podemos esperar isso de algum governo? Há governo suficientemente macho, hoje e em vista, para fazer isso? Duvido.

Enquanto o governo não olhar para os que estão nas mantenedoras e não se assegurar que reitores (que nem doutores são, alguns deles nunca entraram em uma escola de verdade!) são pessoas dignas dos cargos que exercem, o ensino universitário no Brasil será isso: na maior parte dos casos, propaganda enganosa levada adiante por gente que, em um país sério, deveriam ser punidas duramente.
PAULO GHIRADELLI JR., doutor e mestre em filosofia pela USP; doutor e mestre em filosofia da educação pela PUC-SP, livre docente e titular pela UNESP, pós-doutor em medicina social pela UERJ. Diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana – www.pragmatismo.com. Editor da Contemporary Pragmatism de New York. Site pessoal: www.ghiraldelli.pro.br

INTERNACIONAL

1. Enviado por Rosana Caetano: Desenhos infantis são prova de atrocidades

Centenas de desenhos de crianças em acampamentos no Chade recolhidos pela ONG britânica Waging Peace (Fomentando a Paz, em tradução livre) mostram a realidade de violência em Darfur para crianças refugiadas. A organização afirma que encaminhou os desenhos para o Tribunal Penal Internacional da ONU, que vai analisar possíveis atrocidades cometidas em Darfur, no Sudão, e quer que eles sejam considerados evidência de atrocidades.


Em junho passado, um pesquisador da Waging Peace entrevistou dezenas de sobreviventes do que qualificou como limpeza étnica em Darfur que estavam no Chade, em campos de refugidos.


Para manter as crianças ocupadas enquanto registrava o depoimento de seus pais, a pesquisadora deu folhas de papel e lápis coloridos para os menores que, por conta própria, começaram a desenhar ataques a seus vilarejos por soldados sudaneses e milícias Janjaweed, de acordo com a ONG.


As ilustrações mostram homens adultos sendo mortos, mulheres baleadas, espancadas e feitas prisioneiras, bebês sendo atirados em fogueiras e helicópteros do governo do Sudão e aviões bombardeando civis.


“Estes desenhos são uma forma de evidência criminal de testemunhas silenciosas", disse a diretora da Waging Peace, Louise Roland-Gosselin.


"Eles contrariam diretamente a versão do governo do Sudão nos últimos quatro anos de banho de sangue", afirmou. Segundo Roland-Gosselin, o governo do Sudão negou ter bombardeado vilarejos civis e ter usado tanques para apoiar ataques de milicianos Janjaweed.


A Waging Peace recolheu 500 desenhos dos acampamentos. A maioria das crianças tinha de 8 a dez anos de idade na época dos ataques, em 2003 e 2004, e estão vivendo desde então em campos de refugiados.


Os desenhos deverão ser exibidos em Londres no dia 8 de setembro para conscientizar as pessoas para a violência no Sudão, e serão levados a escolas britânicas onde crianças serão convidadas a retratar sua vida em desenhos e ver o contraste com a dos menores de Darfur.


Pelo menos 200 mil pessoas morreram e mais de 2 milhões foram obrigadas a deixar suas casas desde 2003. Milícias formadas por africanos muçulmanos de origem árabe, denominadas Janjaweed, são acusadas de crimes de guerra, assassinatos, estupros e roubos contra a população negra africana da região. O governo do Sudão é acusado de apoiar essas milícias.

2. Enviado por Conceição Oliveira, de São Paulo:
Segue um artigo do Le Monde Diplomatique sobre o universo da automação na aviação e seus gaps.Atentem para a organização fordista do espaço aéreo e para a contradição entre experiência e tecnologia. abraços

Conceição

Um mundo totalmente digital?A globalização impõe o totalmente técnico como cultura do cotidiano. Só que um universo assim racionalizado e informatizado pode não só acarretar sofrimento para os indivíduos, mas também constituir uma nova fonte de vulnerabilidade para a sociedade - Victor Scardigli


Uma das vulnerabilidades está na complexidade dos sistemas: quase ninguém domina a soma de informações contidas nas calculadoras de um avião de carreira. A tecnicização da aviação comercial está particularmente avançada, em especial sob a forma de grande automação do vôo. Ela proporciona uma grande eficiência econômica: crescimento do desempenho e regularidade do tráfego. Responde também a uma onipresente preocupação de segurança, mas uma segurança pensada, em primeiro lugar, como "erro zero" dos seres humanos e dos materiais - em termos físico-matemáticos e regulamentares - e que, às vezes, leva ao inverso do objetivo buscado.


Uma das novas vulnerabilidades tem origem na hipercomplexidade dos sistemas informáticos: mesmo entre seus construtores, quase mais ninguém domina a soma de informações contidas nas centenas de calculadoras embarcadas num avião de carreira. Cresce o descompasso entre os conhecimentos do piloto e o número quase ilimitado de cenários que podem, dessa forma, se apresentar, sendo alguns deles inimagináveis num avião clássico, pouco automatizado. Antigamente, era a experiência que permitia ao piloto enfrentar o imprevisto, a partir dos incidentes que conhecera durante sua carreira e do saber prático transmitido pela comunidade de pilotos. Ora, a formação das tripulações privilegia, atualmente, as situações virtuais e a simulação. A isto se acrescenta a noção de "transparência para o usuário": o operador não precisa saber o que se passa na máquina, dizem-nos alguns idealizadores. Em nome da facilidade de utilização, cria-se assim, para o piloto, a impossibilidade de ter acesso ao coração do autômato e, portanto, de dominar o destino.


Uma "presença no mundo" virtual


Antigamente, experiência permitia ao piloto enfrentar o imprevisto. Atualmente, a formação das tripulações privilegia as situações virtuais e a simulação. Segunda situação radicalmente nova: a pilotagem do vôo por um híbrido de homem e máquina. O sistema informatizado de gestão do vôo combina ordens da tripulação e a pré-programação do centro de estudos. A vivência de tal situação é tranqüila quando o autômato traz ajuda e socorro ao piloto; porém, se torna conflituosa, e mesmo angustiante, em caso de ações intempestivas ou contraditórias do sistema, porque os pilotos, então, atribuem ao autômato intenções ou um projeto de ação que às vezes não chegam a prever, a compreender, nem a bloquear, se necessário. Constatamos isso analisando, com um piloto de treinamento, alguns quase-acidentes ocorridos após uma "reversão de modo cruzado": uma tripulação, que queria aterrissar, via seu avião retomarbrutalmente a altitude e não conseguia mais controlá-lo, enquanto o piloto automático aplicava outra lógica, definida em centro de estudos, e que, autoritariamente, fazia o aparelho voltar a subir em caso de velocidade excessiva na descida. Desde então, esse dispositivo foi suprimido (1).


Olhando-se do ângulo do autômato, é o engenheiro que intervém. Seu programa foi pensado no chão, onde reinam as leis das ciências matemáticas e físicas, longe da experiência real do piloto: como o cockpit continua sendo um espaço de contingência e de imprevisto, o vôo fica por um tempo onde nada é exatamente conforme aos conhecimentos escolares. A "presença no mundo" do idealizador permanece virtual, livresca: ele só pode preparar o futuro de seu autômato escrevendo algoritmos, testando comportamentos de uma maquete de avião num simulador ou num corredor de vento. No laboratório, ele pode até suspender e reverter o curso do tempo. No ar, o comandante de bordo não poderá parar para refletir nem recomeçar uma ação errônea...


Desconfiança aumenta vulnerabilidade


Olhando-se do ângulo do autômato, é o engenheiro que intervém. Seu programa foi pensado no chão, onde reinam as leis das ciências matemáticas e físicas Quando os aviões fortemente automatizados foram postos em serviço, os pilotos ficaram preocupados, diante de sistemas que dominavam mal e, ao mesmo tempo, ávidos de progresso na integração dos dados do vôo, ou na representação visual da aeronave e de seu ambiente (2).


Aparentemente, a informatização enriquecia a diversidade do trabalho e lhe trazia um acréscimo de eficiência. Mas, em longo prazo, cada geração de aviões ou de dispositivos novos veio se inserir numa mesma lógica: tudo pode e deve ser racionalizado, quantificado edigitalizado, sendo o operador humano obrigado a se comportar como um supercomputador, intercambiável com a máquina, o que traz para ele a desqualificação e a desvalorização. Pilotar exigia uma formação científica associada a uma extrema habilidade nas manobras aéreas;agora, o ofício se aproxima do trabalho burocrático no computador. O piloto era o único mestre a bordo, como o capitão de um navio na tempestade; agora, autômatos e redes de telecomunicação o ligam a outros centros de decisão que permanecem no solo.


O turismo de massa e a queda das tarifas se traduzem por uma forte pressão sobre as condições de trabalho e sobre o nível de recrutamento. Nas linhas de "bate e volta", a tripulação se afoba, beirando os limites da segurança, para respeitar os horários e as escalas. Em certas companhias de transporte a preços baixos, ela terá que fazer tudo: do carregamento das bagagens à limpeza. Acrescenta-se a isso um sentimento de espoliação: os centros de estudos alimentaram-se no capital de observações acumuladas durante os vôos comerciais para constituírem, progressivamente, uma ciência do vôo. O engenheiro extraiu a perícia empírica dos pilotos, cujos conhecimentos, agora, são integrados aos autômatos. O antropólogo Marcel Mauss já havia destacado: a técnica só será eficaz se reinar a confiança. Ora, no que se refere à aeronáutica, o equilíbrio dos privilégios e contra-privilégios entre inventores e usuários do progresso foi rompido. A desconfiança aumenta a vulnerabilidade cotidiana. Principalmente porque os idealizadores do totalmente-digital também são seres humanos e cometem erros que podem levar a acidentes.


Os perigos da digitalização total


Tudo pode e deve ser racionalizado, quantificado e digitalizado, sendo o operador humano obrigado a se comportar como um supercomputador Nos aviões clássicos, a pilotagem se caracterizava por sua corporeidade: comprometia todo o corpo na ação sobre os comandos,todos os sentidos na atividade de vigília. Dirigia-se à totalidade da pessoa. E essa maneira de pilotar era apenas a superfície emersa de uma verdadeira cultura, em sentido antropológico: os pilotos de carreira formavam uma quase comunidade etnológica, com suas hierarquias sociais (ligadas ao número de horas de vôo, ao prestígio dos aparelhos e das linhas); com seus locais de socialização e seus rituais de iniciação; com seus modos de transmissão oral dasexperiências do trabalho em linha, das aventuras vividas, dos incidentes e das soluções inventadas. Hoje, aos olhos da racionalidade técnica, o saber dos antigos não tem valor e uma longa experiência dos cockpits clássicos pode até entravar a aprendizagem da novidade.


O exemplo da aeronáutica permite prever o papel que assumirá uma digitalização que se estenda a todos os âmbitos de nossa vida cotidiana. Num universo em que nada poderia escapar à medida e ao número, os domínios que ignoram a quantificação - a consciência, osvalores - deixam de ter direito à existência. Não só a digitalização facilita a tomada de poder dos engenheiros sobre o saber de outros cidadãos, como também, e principalmente, nega qualquer possibilidade de existência de uma outra compreensão do mundo, de um outro projeto de sociedade. O que separa os engenheiros projetistas e os operadores chamados para aplicar suas invenções? Certamente, uma divergência de interesses: eles entram em conflito para saber quem deve definir a sociedade de amanhã, quem deve dirigir suas transformações. Mas, em primeiro lugar, duas experiências do real, duas culturas quase incomunicáveis.


Uma rede de vigilância informática


O turismo de massa e a queda das tarifas se traduzem por uma forte pressão sobre as condições de trabalho e sobre o nível de recrutamento Para os engenheiros dos centros de estudos, a totalidade do universo físico e humano pode e deve ser explicada por leis físico-matemáticas. Um processo de decomposição da realidade em elementos simples permitiria a construção de uma sociedade menos vulnerável: por exemplo, para a aviação, a realização de um vôo sem perigo.


Ora, tudo se revela interdependente; ao decompor, e, portanto, ao introduzir descontinuidades, criam-se às vezes outros riscos. O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 é revelador dos perigos corridos por causa do procedimento cartesiano clássico. Ele descompôs os domínios de ameaça, mas em dois universos distintos, um civil e um militar. Os construtores aéreos desenvolveram pesquisas visando melhorar a segurança, mas apenas para os passageiros e tripulantes: de fato, tornou-se raro um desvio de avião acabar mal. Paralelamente, o exército havia desenvolvido sistemas de defesa antimísseis. Mas as duas providências não se encontraram. Nunca se cogitou, seriamente, que um avião civil de passageiros pudesse se transformar em míssil de destruição em massa (3).


A segurança se inspira na organização taylorista do trabalho em usina. A organização do céu segue o modelo experimentado - de linhas e intervalos horários - que os engenheiros de comunicação implantaram há dois séculos. No desenrolar de cada vôo pululam imprevistos que fogem desse sonho de perfeição: bastou um pedaço de ferro esquecido na pista para derrubar um Concorde... Pensa-se dominar o "fator humano" - quer dizer, o piloto, designado como a fonte maior de acidentes - colocando-lhe as amarras dos regulamentos e envolvendo-o com uma rede de ajudas e vigilâncias informáticas. Como Argos, ele é revestido de uma pele coberta de sensores cada vez mais numerosos, de sondas e outros alarmes; desse modo, como o príncipe de cem olhos do mito grego, ele deveria ver tudo. Mas, às vezes, o resultado é o inverso: o excesso de segurança pode embotar seu espírito crítico. É o que indicam também as observações sobre a Segurança Rodoviária: dirigir carros torna-se tão confortável e tranqüilo, que a vigilância do motorista é embotada. E Argos, adormecido, pode ser atingido.


A mercantilização do cotidiano


Hoje, o saber dos antigos não tem valor algum e uma longa experiência nos cockpits clássicos pode até entravar a aprendizagem da novidade De modo mais amplo, para nosso futuro cotidiano, os discursos de acompanhamento do progresso continuam sendo enunciados truncados, que negam conflitos entre visões do mundo e entre interesses. A perfeição técnica é apenas um belo conto infantil, porque a carapaça de invulnerabilidade com que pretende nos envolver está esburacada por imperfeições. Não se trata, aqui, de contestar a competência e a seriedade dos idealizadores nem a qualidade de suas criações. Esforços consideráveis são mesmo empreendidos periodicamente pelos centros de estudo para integrar o ponto de vista dos destinatários do desenvolvimento técnico. Mas ainda estamos muito longe do que seria desejável: a "co-invenção" de cada aplicação técnica importante por seus futuros usuários.


O totalmente-digital reforça a dinâmica dominante: mercantilização do cotidiano, divisão social e desigualdades planetárias que se aprofundam de forma extrema. Um abismo cultural se cava entre os entre os idealizadores da modernidade e as populações. A caminho da felicidade tecno-mercadológica como única cultura mundial, perdemos nossas raízes culturais. Convocados a nos comportar como máquinas perfeitas, dialogando com outros autômatos, não sabemos mais o que é próprio do homem. Estamos ameaçados em nossa própria humanidade!

(Trad.: Fábio de Castro)

1 - Ler, de Victor Scardigli, Marina Maestrutti e Jean-François Poltorak, Comment naissent les avions. Ethnologie des pilotes d'essai, ed. L'Harmattan, Paris, 2000.

2 - Ler, de Caroline Moricot, Des avions et des ailes.Socio-anthropologie des pilotes de ligne face à l'automatisation des avions, ed. Septentrion, Paris, 1997.

3 - Foi preciso o atentado contra o World Trade Center para que aflorasse um outro perigo, cuidadosamente escondido, ainda que mencionado num estudo sobres riscos, e que permaneceu confidencial: os centros nucleares são estudados para resistirem aos tremores de terra, mas não aos ataques aéreos. Enquanto se dá uma atenção extrema ao "fator humano de acidente nuclear" - isto é, às falhas dos operadores que fiscalizam o processo de geração de eletricidade -, nada é previsto contra um pequeno avião que, por acidente ou voluntariamente, se choque, por exemplo, contra o centro de tratamento de La Hague, o que provocaria uma contaminação do planeta equivalente a sessenta vezes a de Chernobil.

3. Breve notícia da Europa

Dois anos após França e Holanda rejeitarem o projeto constitucional da UE, Berlusconi, Aznar, Chirac, Shroeder e Blair foram embora e o futuro da Europa está nas mãos de Angela Merkel, Gordon Brown e Nicolas Sarkozy. A Europa está cada vez mais parecida com sua longa história. A análise é de José Luís Fiori. (Agência Carta Maior)> LEIA MAIS Internacional


NOTICIAS

1. CURSO DE EXTENSÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA
CURSO DE HISTORIA - DEPARTAMENTO DE ARTES E HUMANIDADES

Introdução à História e Antropologia das sociedades negro-africanas antes do Tratado de Berlim
Prof. Dr. Didier Lahon
Doutor em Antropologia e História (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, EHESS, França)
Pós-Doutor (Universidade Católica Portuguesa, U.C.P., Portugal)
Data: 10 a 14 de setembro de 2007
Horario: 8:00 horas às 12:00 horas
Local: Campus da Universidade Federal de Viçosa
Investimento: R$ 25,00
Informações: cursoafrica@gmail.com
Inscrições: http://www.ufv.br/FUNARBE/Cursos e Eventos

2. SIMPÓSIO INTERNACIONAL

Livro Didático: Educação e História

5 a 8 de novembro de 2007
leia mais em http://www2.fe.usp.br/estrutura/eventos/livres/


3. O programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ convida para a Conferência
“Macro e Micro-História – o que as variações de escala ajudam a pensar em um mundo globalizado.

Professor Jacques Revel, Écolle des Hautes Études em Sciences Sociales.
Data: 2 de outubro,19 horas
Local: Auditório 11 da UERJ.

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