Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

3.2.10

Numero 220





Posso estar enganado, mas a campanha pela privatização dos aeroportos já está no ar. No final da semana passada, no Bom Dia Brasil, anunciaram uma terrível realidade e a mostraram em seguida.
Os espectadores foram aterrorizados com a perspectiva de, em 2014, termos mais 500.000 visitantes, por causa da Copa, e a “porta de entrada” se apresentar totalmente inadequada.
Sem qualquer pudor, ao final, as “soluções”: 1 – privatização; 2 - Concessão (como se faz com as rodovias). Neoliberalismo de ponta a ponta... Não foi um dia desses que a falácia do Estado Mínimo foi pro brejo? Que certos governos do hemisfério Norte tiveram de desembolsar trilhões de dólares para salvar empresas privadas? E ainda se fala de privatização...
Depois tem gente que acha que o Serra sendo eleito as coisas vão melhorar. Como o FHC disse em entrevista, a Vale foi privatizada porque o Serra pressionou bastante.
Agora serão os aeroportos, a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa... o que mais falta?






O jurista Dalmo de Abreu Dallari é bastante respeitado. Hoje recebi um artigo dele, publicado no Observatório da Imprensa, que precisa ser lido. Como este numero do Boletim ficou muito grande, vou indicar o link, para que todos possam ler com calma:
Ele trata do que está chamando de “vedetismo” do Judiciário.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=575CID001




Em uma entrevista contundente e incisiva, o linguista, filósofo e ativista político estadunidense, Noam Chomsky, falou por telefone com a IHU On-Line sobre a influência dos Estados Unidos em importantes eventos históricos da humanidade, como os golpes militares na América Latina e os assassinatos dos seis jesuítas em El Salvador, em 1989. Sobre esse episódio, Chomsky destaca que "o assassinato dos jesuítas essencialmente finalizou uma década em El Salvador, a qual havia iniciado com o assassinato do arcebispo Oscar Romero, praticamente pelas mesmas mãos. Nesse período, foram mortas cerca de 70 mil pessoas, geralmente pelas forças de segurança apoiadas pelos EUA". Ao questionar o silêncio histórico que se fez sobre o fato, Noam Chomsky explica que "a razão é muito simples: trata-se de um crime; crimes desse tipo são expurgados, eles não aconteceram".
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&cod=44720&lang=PT






Estou lendo uma pesquisa feita pela Fundação Carlos Chagas e publicada na revista Escola. Foram entrevistados 1501 estudantes do terceiro ano de ensino médio para identificar quantos estariam interessados nas carreiras pedagógicas (Pedagogia e Licenciaturas).
O resultado foi o óbvio. Apenas 2% manifestaram interesse em cursar, nas faculdades, os cursos que os habilitariam a ser professores.
Mo
tivos? Segundo os entrevistados, a baixa remuneração, a desvalorização social da profissão, a rotina desgastante.
Este trecho da matéria é significativo:


“O Brasil já experimenta as consequências do baixo interesse pela docência. Segundo estimativa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas no Ensino Médio e nas séries finais do Ensino Fundamental o déficit de professores com formação adequada à área que lecionam chega a 710 mil (leia o gráfico ao lado). E não se trata de falta de vagas. "A queda de procura tem sido imensa. Entre 2001 e 2006, houve o crescimento de 65% no número de cursos de licenciatura. As matrículas, porém, se expandiram apenas 39%", afirma Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e supervisora do estudo. De acordo com dados do Censo da Educação Superior de 2009, o índice de vagas ociosas chega a 55% do total oferecido em cursos de Pedagogia e de formação de professores.”

A matéria completa pode ser lida na revista ou pelo site
http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/carreira/ser-professor-escolha-poucos-docencia-atratividade-carreira-vestibular-pedagogia-licenciatura-528911.shtml






Chegou-me às mãos uma preciosidade. O cordelista Antônio Barreto fez um belo poema dedicado ao Pedro Bial e ao seu famigerado BBB. Agradeço ao grande arqueólogo Divaldo Sampaio pelo envio.

Taí, para ser apreciado:


BIG BROTHER BRASIL
Autor: Antonio Barreto, cordelista natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador.
Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.
Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.
Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.
Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.
Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.
O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.
Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.
Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.
Respeite, Pedro Bial
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dá muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.
Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.
Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.
A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.
Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.
Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.
Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.
É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.
Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.
A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.
E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.
E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.
E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.
A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.
Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual..
Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?
Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…
FIM
Salvador, 16 de janeiro de 2010.

(Observem o acróstico na última estrofe...)
Se quiserem conhecer mais do artista e de suas obras, vejam aqui:
http://barretocordel.blogspot.com/








A décima edição do Fórum Social Mundial foi, me parece, menos divulgada do que as anteriores. Em todo o caso, alguns artigos interessantes, para quem quiser conferir:

Fórum Social Mundial 10 Anos
(Selvino Heck)
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&cod=44653&lang=PT

FSM Grande Porto Alegre chega ao fim com avaliação positiva de participantes
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&cod=44656&lang=PT


A forma-Fórum se esgotou?
Talvez falte ao Fórum uma amarração maior entre os vários temas e discussões. É possível que uma das soluções seja agrupar cada vez mais temas e seminários afins. Claro que a questão de fundo é política, entre uma visão particularista autonomista - própria das ONGs - e outra totalizante e mais contextualizada, própria das organizações políticas. Lilian Celiberti fez uma análise provocadora: "Acabamos de ter uma vitória significativa da direita no Chile, com a eleição de Sebastian Piñera. Se não atentarmos também para nossos fracassos, podemos deixar de fazer uma contribuição efetiva para nossas lutas?". A análise é de Gilberto Maringoni. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16377&boletim_id=641&componente_id=10701

"A crise é deles, mas as soluções são nossas"



Uma mensagem a todos os membros de Cafe Historia
MISCELÂNEA

Promoção Cultural - a Rede Social Café História e a Editora Contexto vão sortear dois exemplares do livro “Eles Formaram o Brasil”. Acesse o Café e saiba como saiba como participar!

Humor e História - As charges são cada vez mais utilizadas como fontes históricas na compreensão do passado. Confira o que o Café traz sobre o tema

CAFÉ EXPRESSO NOTÍCIAS

Arquivos sobre Papa Pio XII serão abertos em 5 anos

MEC quer financiar 200 mil estudantes por ano

VÍDEOS

Cidades Ocultas – A Ascensão de Roma (Documentário do History Channel)

Aleceu Valença – Entrevista – Rock in Rio 1985

FÓRUNS

Por que Lênin, quando implantou a Nova Política Econômica (NEP), em 1921, declarou que estava " dando um passo para trás para depois dar dois à frente"?

Quem você gostaria que o Café História entrevistasse para a seção "Conversa Cappuccino" ?

CINEHISTÓRIA

“Invictus”, o novo filme de Clint Estwood, conta a história do primeiro ano de governo de Nélson Mandela.

FOTO HISTÓRICA

Um dia de trabalho na pele de um vendedor ambulante de frutas do século XIX.

Visite Cafe Historia em: http://cafehistoria.ning.com/?xg_source=msg_mes_network




No site do Correio da Cidadania, um protesto de um educador paulista:

O “Processo Imbecilizador” da Educação em SP (1)

Escrito por Wellington Fontes Menezes
30-Jan-2010

1. Políticas neoliberais de punição e humilhação
"Humilhar é mais que odiar. A humilhação consiste em expor ao ridículo tanto quanto possível." (Herbert Nier Koughron)
Se não bastasse a hecatombe educacional promovida pelas seguidas gestões tucanas à frente da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), o que mais poderia vir das cabeças esquizofrênicas de seus irresponsáveis gestores? O primeiro passo foi empurrar a culpa no passado (responsabilizar outras gestões é coisa desta bela natureza eleitoreira). Depois, responsabilizar escancaradamente o professor pelo estágio de metástase em que se encontra o fosso educacional. Agora, a próxima etapa é unir a pirotecnia marqueteira e a humilhação total do profissional da educação. Bravo!
A política tucana de humilhação do funcionalismo público não é gratuita. No seu cerne busca sustenta
r uma ideologia de desmonte do Estado e tem grande suporte na mídia neoliberal. Logo, o governo Serra, por via do seu amigo e secretário de educação, Paulo Renato de Souza, tira do bico tucano um magistral e midiático "Plano de Carreira do Magistério". Possivelmente é o projeto mais ordinário dos últimos tempos feito pelo poder público para desmobilizar, estrangular e, por fim, destruir uma categoria de trabalhadores. E não se trata de apenas eclodir meros jargões políticos. Este processo merece muita atenção diante da condição de "assédio moral" que vem sofrendo a categoria docente.
Em que consiste mais esta nova maldição imposta pelo governo tucano de José Serra? Há uma estratégia bem definida e razoavelmente amarrada que consiste na falácia do discurso da meritocracia, impregnado de políticas neoliberais. Para seus defensores, a meritocracia separa de forma bem simplificada o "joio" do "trigo". Logo, os "bons" seriam premiados e as "maçãs podres", punidas. A meritocracia é o elogio ao "status" e somente as pessoas outorgadas com a "condição superior" que, exclusivamente, serão dignas dos louros e holofotes. Como assinala um aforismo de Allain de Boton, sobre o caráter da estratificação na sociedade meritocrática: "os ricos é que são úteis e não os pobres". Ou de outra maneira mais sintética e popularmente narcísea, "se eu consegui com meu ‘esforço’, por que o outro também não conseguiu?". A meritocracia dentro de uma categoria profissional, além de fazer uma clivagem corrosiva dentro dos seus quadros, alicerça uma condição avassaladora de hostil competição entre seus membros. Inevitavelmente, os resultados são desastrosos para quem emprega a política do código babilônico de Hamurabi, sinalizado pelo clássico aforismo "olho por olho, dente por dente".
Pelo PLC 29/09 lançado pelo governo Serra e aprovado pela Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp) no final de outubro passado, os professores efetivos e estáveis serão submetidos a diversas provinhas mediante uma rocambolesca quinquilharia de regras e pré-condições básicas intercaladas por "faixas de promoção". Para fazer propaganda em épocas pré-eleitoreiras, o governo Serra, em conjunto com a grande mídia, estampou nos quatro cantos que "um professor com curso superior poderá chegar a um salário final de R$ 6.270 (242% acima do piso), se conseguir atingir a quinta faixa. Se não conseguir as boas colocações nos exames, chegará a R$ 3.181 (73% acima do valor inicial)" (Folha de S. Paulo, 21/10/2009).
Logo, não seria difícil para a população concluir de forma abrupta que a classe dos professores dos seus filhos é bem afortunada e ao mesmo tempo "vagabunda" e responsável pela péssima qualidade de educação. Iludidos pela campanha midiática do governo Serra, não é estranho que alguns grupos de pais que se dizem "preocupados com a educação dos filhos" se manifestem de forma agressiva e alienada contra os professores. Vale lembrar que o piso nacional é menos de dois salários mínimos mensais para uma jornada de quarenta horas semanais. E no caso dos professores da rede pública da SEE-SP, o valor do salário-base (sobre o qual que incide cálculos previdenciários) é aproximadamente o mesmo para uma jornada básica pouco inferior a 30 horas semanais.
Na ocasião, esta fábula salarial prometida pelo governo foi estampada e anunciada em primeira página em todos os jornais de grande circulação de São Paulo, sem o menor questionamento das "regrinhas" no mágico plano da dupla Serra/Paulo Renato. Infelizmente, o senso crítico nem sempre é regra da prática docente, e sim o estéril mimetismo do "dador de aulas" (resultado de anos da massiva política do aneurisma fascista tucano para a Educação Básica). Muitos professores aplaudiram entusiasticamente o plano, como sendo a mítica "pedra da roseta" de sua convalescida profissão.
Todavia, com a timidez e indiferença omissa dos sindicatos da categoria (notadamente a APEOESP, uma vez que o CPP é apenas um sindicato patronal de fachada e administrador de "colônias de férias"), que não se mobilizaram ferrenhamente contra o projeto, grande parte dos professores não entendeu que, para ganharem os supostos miraculosos salários para quitarem seus carnês das Casas Bahia, precisam estar dentro de um rol de 25% dos supostos "bem avaliados da rede estadual" dentre os professores que se sujeitarem servilmente a fazerem a tal provinha.
Wellington Fontes Menezes é professor da rede pública.





Repassando para o universo, porque o tema é sério:

É incrível!
Quando se pensa que não falta mais nada para o ser humano inventar para destruir os ecossistemas, aparecem mais tecnologias para mostrar o contrário!
Por favor divulguem...
Clique neste link para ver o que estão fazendo...

http://www.greenpeace.org/portugal/videos/o-fundo-da-linha




Vocês já ouviram falar de Burakumin? Confesso, eu nunca tinha ouvido essa expressão, até que li o artigo abaixo, no blog da Revista Espaço Acadêmico. São aquelas coisas que existem no mundo e das quais quase não se fala. Por que será?
Mate a sua curiosidade, leitor(a):


por Eva Paulino Bueno*
Outro dia, jantando com duas colegas de meu departamento num restaurante perto da minha universidade em Osaka, eu perguntei se elas sabiam alguma coisa sobre os Burakumin. As duas me olharam, literalmente lívidas. “Onde você ouviu falar dessa gente?” Elas me perguntaram. Na conversa que se seguiu, eu aprendi um pouquinho mais sobre os Burakumin, e confirmei o que estudiosos japoneses e internacionais dizem sobre a atitude da maioria dos japoneses em relação aos Burakumin.
Minhas colegas, digo logo de vez, são ótimas pessoas, e ótimas professoras; as duas têm ampla experiência em países do exterior, e falam outras línguas além do japonês e do inglês. Em outras palavras, elas são pessoas educadas e viajadas. Mas, quando o assunto é Burakumin, a reação das duas, que não conseguiam nem sequer pronunciar a palavra em um tom normal de voz, é igual à da maioria dos japoneses.
Mas o que quer dizer Burakumin? Simplesmente, os Burakumin são os párias do Japão. Não párias no sentido de “parasitas.” Os Burakumin são párias no sentido de que eles são considerados ‘impuros,” “inferiores,” e não devem misturar-se à sociedade “normal.” Eu me lembro ter estudado que, na India de muitos anos atrás, uma classe semelhante existia — os “intocáveis,” chamados Dalits – e consistia das pessoas cuja classe não tinha lugar nos corpo da divindade, e portanto estavam “fora.” Os Burakumin do Japão são os exilados dentro de seu próprio país.
Mas quem são estas pessoas Burakumin? Têm alguma doença? Alguma marca física? Não. Os Burakumin — também chamados Eta – são étnica e culturalmente japoneses como todos os outros (pesquisadores calculam que há por volta de três milhões de Burakumin no Japão, mas este número é vago, porque muitos escondem sua origem). A única coisa que os marca é a discriminação, que ocorre diariamente, de várias formas, desde um escritório em que o empregado é demitido quando o chefe descobre que ele é Burakumin, ou o candidato ao emprego não é aceito, pela mesma razão, ou uma mensagem de email insultando a pessoa Burakumin, ou grafiti nas paredes das casas. Até pátio de escola não escapa, porque crianças se juntam para fazer troça com a criança Burakumin, fazendo sinais com quatro dedos, imitando animais andando no chão. Como foi que tudo isso começou? Como é possível que um país como o Japão, que a gente acha tão civilizado, tão avançado, ainda mantenha uma tradição bárbara como essa? Há versões diferentes sobre como tudo começou, e há já muitos livros, assim como artigos científicos sobre o assunto.
[1] Eu vou dar aqui um breve relato.
Em um artigo chamado “An Inquiry Concerning the Origin, Development, and Present Situation of the Eta in Relation to the History of Social Classes in Japan” — “Uma pesquisa sobre a origem, o desenvolvimento e a situação presente dos Eta em relação à história das classes sociais no Japão” — Shigeaki Ninomiya diz que há três teorias principais sobre a origem dos Burakumin. Uma é que eles são descendentes dos aborígines, dos povos primitivos do Japão, que foram dominados pelos que vieram posteriormente do continente. Outra teoria diz que os Burakumin são descendentes de imigrantes filipinos e coreanos. Finalmente, a última teoria é a que se chama a teoria “etori,” que vamos discutir com mais detalhe. (Ver Ninomiya em Transactions of the Asiatic Society of Japan 10, páginas 47 a 154).
Os japoneses, como todos os seres humanos, têm que comer. E, se nem só de pão vive o homem, nem só de peixe vive o homem tão pouco, e alguns gostam de comer carne. Sempre gostaram. Aqui no Japão, assim como aí no Brasil, alguém tinha que matar, limpar, preparar os animais para consumo. Os Burakumin assumiram esta tarefa, há muitos séculos atrás. Com o tempo, estas pessoas passaram a ser encarregadas também de trabalhar com os corpos das pessoas mortas, e com a preparação deles para os ritos funerários. Nesta fase, de acordo com alguns estudiosos, os Burakumin tinham uma função de importância dentro do sistema dos templos shintoístas especialmente porque só eles podiam preparar os cadáveres. No meio do século XVIII, Atsutane Hirata (1776-1842), o reformador do Shintoísmo, escreveu que os Burakumin eram inerentemente impuros e interiores, que deveriam ser separados do resto da sociedade, e que deveriam ser impedidos de entrar nos templos. Tal foi feito.
Com a entrada do Budismo no Japão no século VI D.C., a noção da poluição associada à morte já presente no Shintoísmo, mais a proibição do consumo de certos animais, provocou ainda mais a separação dos Burakumin. Eles passaram a ser mantidos em bairros ou vilas — Buraku (que significa “vila” em japonês) — e vistos como seres sujos e potencialmente poluidores. Em Kyoto, no ano de 1715, e em Tokyo, no ano de 1719, foram feitas pesquisas sobre as populações de Burakumin, consultando-se os registros de família. Desta pesquisa resultou uma lista das pessoas que pertenciam a esta classe.
Para se compreender a importância destes registros de família até hoje no Japão, basta lembrar dois fatores. O primeiro, tem a ver com o famoso e infame ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, que buscou guarida no Japão depois de causar perdas, danos e mortes no seu país de nascimento. Como o nome dele consta do registro da família Fujimori, e este registro está guardado em algum templo no Japão, Alberto Fujimori pôde fazer uso do fato de que, pra todos os efeitos, ele é “japonês,” e pode ficar no país por tempo indefinido, pelo resto da vida, ao que tudo indica.
O segundo fator é que ainda é usada a tal lista dos Burakumin no Japão. A lista feita no século XVII foi atualizada por detetives particulares, e, mais uma vez, foram consultados os registros de família. Mais de duzentas companhias japonesas compraram esta lista para poderem identificar os Burakumin e excluí-los dos empregos. Segundo algumas fontes, também famílias compram esta lista ou contratam estes detetives para pesquisar a origem dos namorados das filhas e das namoradas dos filhos.
[2]
Então, uma prática tão antiga como esta de separar uma classe de pessoas e fazê-la assumir a posição mais inferior na escala social ainda permanece no Japão do século XXI. É preciso esclarecer que uma medida oficial foi tomada: o governo japonês declarou, em 1871, no Edito de Emancipação Meiji (Ordem número 61), que abolia os o status oficial dos Burakumin e os re-nomeava shin heimin (novas pessoas comuns). Mas esta medida não foi acompanhada por nenhuma ajuda financeira ou educacional, e não houve nenhuma mudança na maneira que as religiões shinto-budistas encaravam os membros do grupo de “novas pessoas comuns.” Isto significou que os Burakumin continuaram sofrendo discriminação, não podendo participar livremente de atividades religiosas, ocupando os níveis mais pobres da sociedade. A maioria não freqüentava escolas, e portanto não aprendia a ler nem escrever, e isso perpetuava sua situação de subalternidade.
No começo do século XX, o movimento para a libertação dos Burakumin começou, influenciado por movimentos semelhantes na Coréia e na Rússia. Mas, com o início da segunda guerra mundial, os membros das comunidades Burakumin voltaram à estaca zero, e passaram a sofrer talvez ainda mais discriminação que antes, porque haviam ousado expressar-se. Depois da guerra, com o Japão destroçado, outra vez sofreram os Burakumin, que além da miséria que todos sofriam, tinham ainda que enfrentar a discriminação facilitada pela infame lista que os impedia de conseguir melhores empregos. Muitos deles tentaram e conseguiram sair da comunidade, e até hoje tentam esconder sua origem.
Frisando o que já deve estar claro: não há nenhuma razão física, emocional, racial, mental, ou cultural para a discriminação contra os Burakumin. O que os destaca é o fato de que seus antepassados eram forçados a lidar com animais e preparar cadáveres, e eles tinham que além de tudo pagar impostos mais altos que todos os demais japoneses. Ainda hoje, os Burakumin estão geralmente empregados em empresas de processamento de carne, e são das pessoas mais pobres do Japão. E, também ainda hoje, muitas crianças Burakumin são molestadas por colegas na escola, e chamadas de nomes relacionados a animais.
É importante realçar, entretanto, que alguns dos artistas mais importantes da história do Japão foram — e são — Burakumin. Entre eles, houve vários artistas e criadores do teatro noh, assim como de kabuki, e de kyogen. Entre os escritores, sempre se menciona Mishima (autor de, entre outros, O templo do pavilhão dourado, traduzido ao inglês como The Temple of the Golden Pavillion), e atualmente Kenji Nakagami, que faz questão que se saiba que ele é Burakumin. Mas Nakagami é uma exceção. A maioria dos Burakumin não podem se dar ao luxo de exibirem a marca da discriminação, pela simples razão que, se fizerem isso, perdem emprego, e a possibilidade de se casarem com pessoas de for a do grupo.
Voltando à história do meu jantar com minhas colegas da faculdade: depois de passado o primeiro choque causado pelo meu interesse pelo assunto, elas tentaram me convencer (enquanto falavam bem baixinho e olhavam pra ver se das mesas vizinhas ninguém estava nos escutando) que, mesmo na nossa universidade, há professores “desta classe.” Quem são eles? eu perguntei. Elas não puderam responder. Como vocês sabem que eles são Burakumin, se eles são iguais a todos os demais japoneses? Elas também não souberam responder. Talvez, numa cultura que abomina todo o que é diferente, esta existência às vezes fantásmica dos Burakumin funciona como uma forma de controle social. A classe seria, então, como o abismo do qual todos, mesmos os que vêm dela, fogem horrorizados, mas ao qual todos retornam, como que hipnotizados, afinal, ninguém pode ter certeza absoluta, mesmo com a famosa lista. Quando eu saí do restaurante com as colegas, eu fiquei imaginando se uma delas é Burakumin. Talvez elas estivessem pensando o mesmo uma da outra. Quem sabe até de mim? Embora eu seja claramente “gaijin” — estrangeira — nunca se sabe…
Este pensamento me fez lembrar do brilhante filme “Blade Runner”, em que há, além dos seres humanos, uma classe de gente “sintética,” os “replicants”, que foram criados para trabalhar em lugares perigosos na galáxia, e agora estão querendo voltar à Terra. Eles têm sentimentos, memórias, e o mesmo corpo físico que todos os humanos: é quase impossível saber com certeza quem eles são. Na última cena do filme, um dos detetives representado por Edward James Olmos se volta para o personagem representado por Harrison Ford. Este último se apaixonou por uma mulher lindíssima, e descobriu que ela é uma replicant. Os replicants morrem logo. Os replicants estão sendo eliminados, por ordem do governo. Harrison Ford sabe disso. Ela pode morrer a qualquer momento. E ele está arriscando tudo pra ficar com ela, mesmo que seja contra a lei. O companheiro detetive entende. Olves se volta para Harrison Ford e diz, referindo-se à mulher, “É uma pena que ela não vai durar.” E remata, “Mas, afinal, quem vai?” Transpondo este momento para a situação dos Burakumin do Japão, podemos dizer sobre qualquer pessoa aqui, “É uma pena que ela seja Burakumin.” Mas, afinal de contas, no fundo, no fundo, quem não é?
* Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women’s University, em Nishinomiya, no Japão à época da publicação deste texto, ou seja, em outubro de 2002, REA nº 17; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000). Atualmente, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas.
[1] Como este assunto é pouco conhecido no Brasil, aproveito a oportunidade para sugerir alguns títulos aos que se interessam e querem saber mais. Recomendo especialmente George DeVos e Hiroshi Wagatsumo, Japan’s Invisible Race: Caste in Culture and Personality (Berkeley: University of California Press, 1966), Michael Weiner, ed., Japan’s Minorities; The Illusion of Homogeneity (London/New York: Routledge, 1997), Jean-François Sabouret, L’Autre Japon, les burakumin (Paris: La Descouverte/Maspers, 1983), Suehiro Kitaguchi, An Introduction to the Buraku Issue; Questions and Answers ( Richmond, Surrey; Curzon, 1999), e The Reality of Buraku Discrimination in Japan (Osaka; Buraku Liberation Research Institute Publications, 1994).
[2] Além dos Burakumin, as famílias também não admitem que os filhos e filhas se casem com coreanos ou chineses—cujas famílias muitas vezes estão no Japão há muitas gerações, mas ainda não têm a cidadania japonesa, diga-se de passagem. O mero nascer no Japão não faz ninguém japonês, daí a importância dos registros de família (como o sabem os descendentes de japoneses que puderam reclamar a sua “cidadania” porque os nomes de suas famílias constam aqui no Japão).




A Revista Tema Livre está no ar, com seu número 13.
Por FÁBIO FERREIRA, Doutorando em História pelo PPGH/UFF e Mestre em História Social pelo PPGHIS/UFRJ.
Por EDUARDO R. PALERMO, Mestre em História pela Universidade de Passo Fundo e Director del Centro de documentación histórica del Río de la Plata - Rivera- Uruguay.
Por RIBERTI DE ALMEIDA FELISBINO, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Por JOSÉ D'ASSUNÇÃO BARROS, Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor visitante da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Professor Titular da Universidade Severino Sombra (USS).
Entrevistas
Profª. Drª. Ana Frega(Universidad de la Republica - Udelar - Uruguai)
Prof. Dr. João Paulo Pimenta(Universidade de São Paulo - USP)
Prof. Dr. Patrick Puigmal(Universidad de Los Lagos - Chile)
Acesse em http://www.revistatemalivre.com/

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