Boletim Mineiro de História

Boletim atualizado todas as quartas-feiras, objetiva trazer temas para discussão, informar sobre concursos, publicações de livros e revistas. Aceita-se contribuições, desde que versem sobre temas históricos. É um espaço plural, aberto a todas as opiniões desde que não contenham discriminações, racismo ou incitamentos ilegais. Os artigos assinados são de responsabilidade única de seus autores e não refletem o pensamento do autor do Boletim.

21.7.09

Número 197



O Boletim desta semana recebe uma colaboração do prof. Antônio de Paiva Moura, que discute a Democracia Participativa.
No giro pela internet, dois artigos me chamaram a atenção e tomei a liberdade de reproduzi-los. O primeiro, de Gilson Caroni Filho, da Agência Carta Maior, nos explica as razões que levam uns e outros a quererem acabar com a Petrobrás; no segundo, Alberto Dines , do Observatório da Imprensa, faz interessante digressão sobre a origem da profissão dos jornalistas para concluir que a decisão do STF sobre a não-necessidade de diploma jogou a História no lixo.
As leituras recomendadas neste numero são de 4 livros: Os chineses, Redação para concursos e vestibulares, O tempo e o cão, a atualidade das depressões, e Feios, sujos e malvados sob medida - A utopia médica do biodeterminismo
Nos links, o golpe de Honduras e as lacunas da cobertura da crise; alguns links filosóficos (enviados pela professora Luciana, de Viçosa); o grupo Baader-Meinhof; mais uma decisão polêmica do ministro Gilmar; Contrainsurgência, a guerra do século XXI; Sarney: a personificação da classe dominante brasileira; O fechamento de jornais e o jornalismo público; Novo site do jornalista Villas Boas Correa; mineradoras contratam milícias.
Boas notícias para quem deseja fazer pósgraduação, mestrado e doutorado e gosta de palestras sobre arte popular.
Bom proveito!


Democracia Participativa: uma utopia plausível
Antonio de Paiva Moura

Mudando os modos de produção e as formas de relações entre as pessoas, o século XVIII apontou para uma série de “revoluções”, isto é, mudanças radicais em todos os setores da vida. A filosofia, a ciência e a religião se dobraram à mentalidade burguesa, na qual o príncipe devia garantir a igualdade perante a lei, suprimindo os privilégios de nascimento. Eclesiásticos e nobres deviam pagar o imposto proporcional, sendo todos julgados pelos mesmos tribunais e punidos igualmente pelos mesmos fatos. A natureza deu aos homens uma vontade, uma inteligência e aptidões desiguais. Desta desigualdade de talento resulta a desigualdade de fortunas que, portanto, é natural (Mousnier e Labrousse, 1961). Com essa linha de pensamento estava configurada a mentalidade burguesa: o estado e a sociedade moldados a partir de seu caráter, isto é, numa visível contradição, pois condenava os privilégios da nobreza e do clero, mas postulava o privilégio da desigualdade gerada pela disparidade de aptidões e talentos. Para os enciclopedistas a propriedade era natural e sagrada, o príncipe devia manter a inviolabilidade da propriedade e conceder aos mais ricos e aos proprietários fundiários um poder legislativo. Para os enciclopedistas os benefícios do conhecimento científico e técnico, savoir faire, não deveriam atingir o povo que é muito estúpido. Os iluministas foram responsáveis por preconceitos que marcaram a época moderna e ainda hoje ecoam em nossos ouvidos. Citado por Mousnier e Labrousse, Voltaire diz que a multidão é ignorante e embrutecida; [...] o povo é tolo e bárbaro: precisa de uma carga, de um agulhão e feno (p.87). O simbolismo desta frase revela que a burguesia não via o homem comum como cidadão, mas como animal de carga. A ele cabia somente trabalhar em troca de má alimentação.
A burguesia anulou o papel do estado como árbitro das injustiças sociais. A teoria liberal de Adam Smith (1723/1790) no livro A riqueza das nações (1776) justifica a idéia da existência de uma ordem natural, que se realiza quando se deixa a natureza funcionar livremente: laisses faire, laisses passer (deixar fazer, deixar passar). O Estado só devia intervir quando os indivíduos se mostrassem incapazes de criar instituições úteis à sociedade. A fixação dos salários devia ser o resultado de uma discussão entre o capital e o operário. Os senhores deviam se constituir em ligas para impedir o aumento dos salários.
A mudança de mentalidade econômica, decorrente da Reforma Protestante, tem sido apontada como fator de desenvolvimento do capitalismo. Max Weber lançou a discussão, sugerindo que certas seitas calvinistas terminaram por ver no êxito econômico uma prova da escolha de Deus. O indivíduo se dedicaria ao trabalho para vencer a angústia provocada pela incerteza da salvação. Calvino, então, formula a seguinte questão: Há critérios pelos quais se pode reconhecer com segurança quem pertence ao número dos eleitos? Para ele a atividade temporal era capaz de dar essa certeza. O calvinista despreza a recomendação de amar o próximo como a si mesmo. O trabalho racional do indivíduo, regular e constante acaba sendo interpretado como a obediência a um mandamento divino. Trabalhar em busca do lucro e não gastá-lo para que haja acumulação através do reinvestimento. O enriquecimento com o trabalho e lucro era o sinal de que o indivíduo estava eleito por Deus para a salvação. Muito antes do calvinismo, na Europa havia a prática do trabalho racional, a reaplicação do lucro e a acumulação, embora com certas restrições por parte da Igreja católica. O que Calvino fez foi ajustar, doutrinariamente, o cristianismo à prática capitalista. Tirar o peso de consciência do novo rico. A Igreja admitia a riqueza entre os católicos, desde que passasse a ela parte de sua fortuna. Bastaria apenas lembrar o nome de Dom Henrique de Coimbra (1394/1460) que aumentou sua riqueza com o tráfego de escravos da África para Lisboa, mas grande parte de sua fortuna foi para a Igreja.
A sociedade capitalista, inevitavelmente aparece fragmentada entre os proprietários dos meios de produção de um lado e de outro os que vendem sua força de trabalho, mesmo que nem todos os indivíduos ou cidadãos não se enquadrem diretamente nessa situação, como os prestadores de serviços autônomos. A democracia aparece como a força e a expressão da superestrutura que a faz de acordo com sua conveniência. No dizer de Mazzeo (2009) a democracia liberal regula a desigualdade e controla os conflitos. Há nela mais elemento de controle do que de emancipação. Regula a desigualdade para manter e não para romper a estrutura da sociedade burguesa. (p. 11) Mazzeo mostra ainda que do mundo grego até a sociedade burguesa, o processo democrático apresenta grandes diferenças e que, nesse percurso, ele sempre serviu para garantir a desigualdade, manipular as camadas subalternas em favor da superestrutura.
A deformação da democracia representativa em sua face liberal deriva da intercorrência do poder econômico, do poder político e meios de comunicação de massas, que de certa forma afasta o representante do representado, fulminando o poder da vontade autônoma do cidadão, seja a vontade individual ou geral. Somente a vontade geral pode dirigir o estado e a democracia participativa retoma o conceito rousseauniano de povo, povo do contrato social, donde a democracia é compreendia como o regime que possibilita a participação dos governos na formação da vontade governativa. É visível no presente, o fracasso da democracia representativa que engana a vontade mandatária. A soberania do povo foi usurpada pelas elites, pelo poder econômico e pelas empresas multinacionais. A maior contradição da democracia representativa é a falta de identidade entre o representante e o representado. Constata-se que um número elevado de eleitores que não se lembram em que vereador, deputado estadual, deputado federal e senador tenham votado na última eleição. Na democracia representativa o representante se distancia do representado por que o político atua na contramão do eleitorado, isto é, busca somente o interesse próprio, a ambição de se reeleger ou de galgar posições superiores à que se encontra situado.
Já nos idos do século XVIII Rousseau dizia que Os deputados do povo não são e nem podem ser seus representantes; não passam de comissários seus, nada podendo concluir definitivamente. É nula toda lei que o povo diretamente não ratificar. [...] O povo inglês pensa ser livre e muito se engana, pois só o é durante a eleição dos membros do parlamento; uma vez estes eleitos, ele é escravo, não é nada. (Rousseau, 1978: 108) Continua contrapondo a Montesquieu afirmando que a idéia de representação é feudal e iníqua, pois na Antiguidade o povo não tinha representantes, mas uma lei só entrava em vigor depois de referendada pelo povo. Conforme Pedra (2003), na defesa de uma democracia participativa não implica dizer que todas a formas de representação sejam abolidas, mas o que se busca é permitir e promover os mecanismos de democracia direta, como a iniciativa popular, o referendo, o plebiscito, a revogação e veto. Na democracia participativa o eleitor ou cidadão é ativo e atua junto com os governantes, magistrados e políticos, de forma constante, sem interrupção. Frei Betto (2009) também diz que na democracia participativa a autoridade é exercida pelo cidadão e pela cidadã, a quem o político, como servidor, tem o dever de prestar contas. Através de mecanismos de aferição do desempenho dos três poderes desvelam-se os atos dos servidores, mesmo que exerçam cargos altíssimos, e revelam ao mundo como eles agem de má-fé Não fosse o ideal da democracia participativa o golpe de estado em Honduras, em 2009, não sofreria o repúdio da massa e do mundo, como ocorre agora.
As ideologias do liberalismo e de sua face contemporânea direcionaram o comportamento das massas para a passividade e para a imobilidade. Faz parte dessas ideologias a ridicularização das instituições e do sistema político. Todos os aparelhos destinados a promover o bem-estar social sofreram desgastes e depreciações. “Somente o mercado resolve os problemas do mundo”. Conforme análise de Hobsbawm (2007) há uma apatia política na democracia liberal representativa, levando o povo a não comparecer às urnas e a abster-se de outras formas de participação social. Os partidos políticos e os representantes políticos continuam excluindo os eleitores e os cidadãos representados da oferta política; das colocações de suas aspirações, necessidades e vontades. Os partidos distanciam-se da democracia participativa impondo metas e programas a serem cumpridos pelo eleitorado. Diz Robert (2009) que em face dessa imposição se desenvolve hoje no mundo uma sociedade paralela, na qual os cidadãos criam associações, organizam debates, manifestações e encontros transnacionais. Para a autora isso gera um descompasso entre representantes e representados, de vez que cada um se encontra em uma esfera diferente.
Na concepção de Marx e Engels, o humanismo consiste na busca da igualdade social usando a liberdade como meio. A igualdade é uma conquista dos homens livres da opressão imposta pela inconsciência das massas; busca da libertação da humanidade. Sustentavam que a liberdade e a democracia seriam conquistadas pela humanidade através de um estado superior de consciência coletiva. A ditadura do proletariado deveria ser apenas uma intervenção provisória para criar um Estado também provisório. A ditadura stalinista e o Estado capitalista soviético, do século XX eram completamente avessos a Marx. Para Tocqueville, o mundo marchava para as condições de igualdade entre os homens, baseando-se nas conquistas democráticas de seu tempo. Mas Marx o contrapunha, afirmando que a democracia plena não se realizaria no mundo desigual admitido pela burguesia, em que a liberdade só existia para as classes superiores e dominantes. A democracia plena só se realizaria com a existência da justiça social. O “homo demokratikós” é inimigo de qualquer forma de privilégio. É dotado do senso de igualdade e de justiça para toda a humanidade. O “homo demokratikós” sabe distinguir o que é demagógico do que é verdadeiro. Ele é o ponto central do conceito de democracia participativa que nasce na prática e na ação e não fica só discurso.
O problema maior é como evoluir de uma democracia liberal representativa para a democracia participativa. Na análise de Zizek (2009) a democracia liberal representa o sistema geral que sustenta sua forma, isto é, representa consensualmente o capitalismo no Ocidente. Por isso, ela não é neutra, de vez que privilegia o neoliberalismo. Na democracia liberal representativa não há espaço para a virtude e a corrupção torna-se inerente a ela. Além disso, essa democracia não pode ser um meio de atingir a verdade como vontade geral porque ela é a expressão de interesses privados. Quando os interesses privados se sentem ameaçados pela vontade geral, o capitalismo adota formas autoritárias de existência como na Itália de Berlusconi e na Rússia de Putin. O sistema educacional plasmado pelo neoliberalismo visa munir o indivíduo com o poder de competir, inteiramente nulo de sentido humanista. Otaviano Helene diz que o ensino superior o Brasil é dominado por instituições de cunho mercantil, onde as planilhas de custo falam mais alto que os critérios acadêmicos, distantes das necessidades profissionais ou das carências regionais do país. É nesse sentido que Michael Löwy diz que o capitalismo não tem nenhuma afinidade com a democracia, só tolera certas formas democráticas na medida em que não afetam seus interesses fundamentais.

Referências
BETTO, Frei. O ocaso da democracia liberal. Estado de Minas. Belo Horizonte, 9 jul. 2009.
HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. Tradução de José Viegas. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
MAZZEO, Antonio Carlos. Igualdade formal, desigualdade real. Filosofia: ciência & vida. São Paulo, n. 36, 2009.
MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII, o ultimo século do antigo regime. Tradução de Vitor Ramos. In: CROUZET, Maurice. (org) História geral das civilizações. São Paulo: DIFEL, (tomo V) 1961. 371p
PEDRA, Anderson Sant’Ana. Na defesa de uma democracia participativa. Jus Navigandi, Terezina, ano 7, n. 63, mar. 2003. Disponível: jus2.uol.com.br. Acesso 27 jun. 2009.
ROBERT, Anne-Cécile. Quando o jogo político asfixia o movimento social. Le Monde Diplomatique Brasil. N. 23, jun. 2009.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. [1762] Rousseau. Os pensadores. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1978
ZIZEK, Slavoj. Democracia corrompida. CULT, São Paulo, n. 137, jul. 2009.
Antonio de Paiva Moura é mestre em história e professor da Escola Guignard. UEMG.

O artigo de Frei Betto a que o professor Moura alude, pode ser lido aqui:
O ocaso da democracia liberal

Petrobras: por que o "paquiderme" incomoda a oposição?

Os artiguetes do Globo e a CPI da Petrobras têm o mesmo objetivo. Além de interesses eleitorais, visam a destruir a empresa vista por Sérgio Mota, ministro e amigo de FHC, "como um paquiderme que consumia US$ 9 bilhões em importações, prejudicando a balança comercial e a sociedade brasileira".
Gilson Caroni Filho (da Agência Carta Maior)

Falta de seriedade e má-fé não costumam dar bons resultados em profissão alguma. Em jornalismo, a união das duas "qualidades" costuma ser fatal. Se, de um lado, agrada ao leitor militante, aquele para quem a informação serve apenas para reiterar sua visão de mundo biliosa, de outro, põe em xeque a existência da própria imprensa como principal instância de visibilidade da vida pública. A justeza dessas observações parecem não preocupar os editores de O Globo. Pelo menos, os de política e economia.
Em sua edição de quinta-feira, 16 de julho, no alto da página 3, encontramos um artiguete que parece reforçar a tese de que a procura de isenção deve começar reunindo tudo o que houver de mais parcial, distorcido e tendencioso. A verdade, nas grandes redações, costuma estar escrita em código na mentira deslavada.
Intitulado “Ato falho", o pequeno editorial destila raiva e descontextualização. Serve puramente como pretexto para o jornalismo de campanha. Um vale-tudo que, ao contrário da luta que leva esse nome, não tem quaisquer impedimentos, sendo permitidas cotoveladas, cabeçadas e, principalmente, barrigadas. O objetivo primário é suprir a ausência de discurso organizado da oposição, animando o seu eleitor com critérios de análise baseados no denuncismo vazio.
Vamos ao texto do Globo: "Embalado pelo clima de comício que tem acompanhado suas incursões pelo país, Lula saiu em defesa da Petrobras, supostamente ameaçada de privatização."(...) Esse paquiderme agora é nosso". Pode ser simples menção ao slogan pela criação da estatal na década de 50- "o petróleo é nosso"- ou um ato falho derivativo do poder que sindicatos passaram a ter na empresa desde 2003. Por ironia, este aparelhamento é que significou uma privatização, só que em benefício de pequenos grupos de militantes sindicais e de partidos aliados ao Palácio"
No desdobramento do raciocínio do editor, o que há de plausível? O que vem a ser o “aparelhamento" que freqüenta as páginas do jornal com a mesma assiduidade que as louvações ao mercado e das contumazes críticas à ineficiência do Estado? Se o termo se refere a loteamento, entre militantes do partido e políticos da base aliada, de cargos estratégicos na administração da Petrobras, seria interessante uma matéria dominical que demonstrasse a existência de fisiologismo no fato de funcionário de carreira de uma empresa estatal ter preferência partidária. E mais: que essa preferência atropele planos de carreira ou premie a incompetência.
Seria o caso de perguntar em que governo o Globo viu a administração pública ser ocupada por burocratas ideais weberianos? No de Fernando Henrique Cardoso que vendeu 36% das ações da Petrobrás, que pertenciam à União Federal, na bolsa de Nova Iorque, por cerca de US$ 5 bilhões, sendo que hoje elas valem mais de 120 bilhões? A excelência administrativa consiste, como foi feito no governo tucano, em manipular a estrutura de preços dos derivados do petróleo em benefício das distribuidoras?
Uma empresa “não aparelhada" é aquela que descumpre acordo de aumento de salários e reprime o movimento de sindicalistas com forças do exército? A boa gestão é a que quebra o monopólio estatal do petróleo? O modelo ideal é aquele em que a Petrobrás descobria bacias de petróleo e o investimento era transferido para o exterior através dos criminosos leilões da ANP?
Os artiguetes do Globo e a CPI da Petrobrás têm o mesmo objetivo. Além de interesses eleitorais, visam a destruir a empresa vista por Sérgio Mota, ministro e amigo de FHC, "como um paquiderme que consumia US$ 9 bilhões em importações, prejudicando a balança comercial e a sociedade brasileira". Segundo ele, caberia a David Zylbersztajn, então diretor da ANP, desmontar "osso por osso" a estatal. Essa é a missão que mobiliza quadros políticos do consórcio demo-tucano. Além da sobrevivência política, esse é o eixo das perorações de Arthur Virgílio, Álvaro Dias e Demóstenes Tôrres, entre outros representantes da direita figadal. Não é por outro motivo que os jornais se empenham em investigar “irregularidades inadmissíveis.”
O que está em jogo é o destino de uma empresa que hoje está em quarto lugar entre as 200 maiores do mundo. Some-se a isso um futuro marco regulatório que, segundo o presidente Lula,"irá balizar o setor e evitará que outros governos tentem "privatizar" o insumo e conceder sua exploração a empresas privadas" e surge a noção exata do paquiderme que incomoda o entreguismo.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

A história jogada no lixo

Por Alberto Dines em 21/7/2009
O Estado brasileiro judicializou-se, transferiu-se para os tribunais. A inoperância e desqualificação do Legislativo somada ao caráter circunstancial e casuísta das ações do Executivo levam o Judiciário a assumir uma série de atribuições indevidas.
Atrás desta grave disfunção estrutural está o velho mandonismo e a incapacidade dos agentes políticos para buscar algum tipo de consenso e conciliação. Preferem os impasses logo encaminhados às diferentes instâncias judiciais mesmo quando as divergências são de ordem conceitual, não envolvendo ilícitos ou ameaças.
O STF tem sido a instituição mais procurada para dirimir controvérsias, digamos impertinentes, porque a Constituição de 1988, apesar da fama progressista e cidadã, apresenta enormes lacunas e imprecisões. A pressa em promulgá-la permitiu a sobrevivência de estatutos produzidos durante o regime militar designados aleatoriamente como "entulho autoritário".
Nem a Lei de Imprensa nem a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício de jornalismo deveriam ter sido encaminhadas à suprema corte. Foi um equívoco – ou leviandade – submetê-las à apreciação de um ministro-relator, e em seguida aos seus dez pares, nenhum deles disposto a e suficientemente preparado para mergulhar numa questão complexa e multifacetada.
Tanto o ministro-relator Gilmar Mendes como aqueles que o acompanharam na decisão não conseguiram convencer a sociedade de que haviam entendido a chamada Questão do Diploma de Jornalismo. Deixaram-se iludir pelos autores da representação. É incrível, mas é imperioso e penoso registrar que Suas Excelências, Meritíssimos e Meritíssimas, foram ingênuos. Ao invés de convocar peritos, contentaram-se com constatações simplistas, produzidas pelo senso comum e lugares-comuns.

Reconhecimento da profissão

As entidades patronais que direta ou indiretamente patrocinaram a causa fixaram-se na questão do certificado e menosprezaram o ponto crucial: a existência de uma profissão multi-secular, na verdade bi-milenar, reconhecida em todo Ocidente.
Era mais fácil e mais conveniente eliminar a obrigatoriedade do certificado sob o pífio pretexto de universalizar o acesso à informação do que reconhecer que os precursores dos jornalistas contemporâneos foram os funcionários romanos chamados de diurnarii (daí giornalisti e journalistes). Também chamados de actuarii porque se encarregavam de preparar as atas ou Actas informativas que circulavam na capital do império a partir do século II a.C.
A profissão de jornalista, reconhecida e legalizada, começou com a produção das Actae Diurnae (Atas Diurnas), também conhecidas como Atas Públicas, Atas Urbanas ou ainda Diurnálias. Mas também circulava uma Acta Populi e, para comprovar que nada se cria, tudo se copia, havia até uma Acta Senatus, secreta, que certamente inspirou o senador José Sarney a produzir seus boletins confidenciais.
Os proto-jornalistas foram estudados pelo historiador-jornalista Carlos Rizzini em O Jornalismo antes da Tipografia (Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1968, pp. 4-10). Mais recentemente, o historiador português Jorge Pedro Souza ofereceu preciosas informações sobre uma atividade exercida há dois milênios que o espirituoso presidente do STF, Gilmar Mendes, considera equivalente à dos mestres-cuca (Uma Breve Historia do Jornalismo no Ocidente in Jornalismo: Historia, Teoria e Metodologia, pp 34-44, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2008).

Hipólito e os redactores

Na apresentação da primeira edição do Correio Braziliense, o primeiro periódico a circular sem censura no Brasil e em Portugal, seu autor, o gaúcho Hipólito da Costa, escreveu com data de 1º de Junho de 1808 uma profissão de fé sobre a nobre missão dos jornalistas aos quais designa como redactores das folhas públicas.
Hipólito delineava de forma inequívoca uma função social e um ofício. Sua convocação dirigia-se primeiramente aos que vivem em sociedade e, em seguida, àqueles que deveriam servi-la. O patriarca do jornalismo estabelecia uma clara diferenciação entre o cidadão e aqueles que devem informá-lo. Não regulamentou a profissão, concedeu-lhe um status especial. Distinguiu-a com a missão de
levar a colônia a superar os 308 anos de trevas e silêncio e preparar a sua emancipação.
Dois séculos depois, a conjugação de um Estado capenga e uma corte desnorteada – ou mal informada – jogam nossa história no lixo.


VALE A PENA LER

1. A Editora Contexto apresenta mais uma obra fascinante da coleção Povos e CivilizaçõesOs chineses –, escrita pela jornalista Cláudia Trevisan, correspondente internacional do O Estado de S. Paulo na China. Imperdível!
Os chineses nos intrigam. O regime é comunista, mas a economia é capitalista. Eles ficaram enclausurados durante os quase trinta anos de governo de Mao Tsé-tung e agora viajam pelo mundo todo e são os maiores usuários de internet do planeta.Quem são, afinal, esses 1,3 bilhão de chineses? Como esse país milenar, responsável por invenções importantíssimas para a humanidade como o papel e a bússola, pode ser acusado de copiar tecnologias estrangeiras? A jornalista Cláudia Trevisan, que vive e trabalha na China, nos conta isso e muito mais: desde os exóticos ingredientes da culinária chinesa aos segredos da medicina; da política de filho único até o papel da mulher na sociedade; da mudança de comportamento entre os jovens até os bastidores das Olimpíadas 2008. Tudo é superlativo na China. Este livro, ricamente ilustrado, nos ajuda a compreendê-la.
336 páginas, R$49,90.
2. A Editora Contexto lança mais um livro de Dad Squarisi, agora em parceria com Célia Curto: Redação para concursos e vestibulares.
Você disserta todos os dias. Disserta quando justifica sua opinião a respeito de um filme. Disserta quando escreve sobre as causas da Inconfidência Mineira. Disserta quando convence seu pai a lhe aumentar a mesada. Disserta quando exige o cumprimento da lei seca.
Na vida, você fez muitas dissertações. No vestibular, no concurso ou na prova de seleção, fará mais uma. Daí a importância desse livro.
Escrever uma redação nota 10 dá trabalho. No vestibular, no concurso ou na prova de seleção, só passa quem apresenta texto conciso, objetivo e sedutor. E há mais um detalhe: o tempo é curto; a concorrência, grande; as vagas, poucas. Um bom texto não cai do céu ou salta do inferno. Requer técnica e esforço.Este livro lhe facilita a vida. Apresenta os passos a serem seguidos em 35 lições. No final da obra há exercícios respondidos e comentados que acompanham cada lição. O resultado compensa. Você surpreende o leitor com texto que é puro prazer. Conclusão: uma vaga na universidade é sua. No emprego também
272 páginas, R$ 39,00

3. O tempo e o cão, a atualidade das depressões
A psicanalista e escritora Maria Rita Kehl parte da suposição de que a depressão é um sintoma social contemporâneo para desenvolver os três ensaios que compõem seu novo livro: O tempo e o cão, a atualidade das depressões.
Escrito a partir de experiências e reflexões sobre o contato com pacientes depressivos, o livro aborda um tema que, apesar de muito comentado, é pouco compreendido e menos ainda aceito atualmente.
Para abordá-lo, Maria Rita faz um apanhado do lugar simbólico ocupado melancolia, desde a Antigüidade clássica até meados do século XX, quando Freud trouxe esse significante do campo das representações estéticas para o da clínica psicanalítica. Para ela: “Freud privatizou o conceito de melancolia; seu antigo lugar de sintoma social retornou sob o nome de depressão.”
304paginas, R$ 39.00
4. Feios, sujos e malvados sob medida
A utopia médica do biodeterminismo

O determinismo biológico presente na medicina e na criminologia da primeira metade do século XX não é um acontecimento isolado no tempo. Em Feios, sujos e malvados sob medida a densidade histórica do biodeterminismo é investigada com rigor, analisando os problemas sociais dos indivíduos considerados “feios, sujos e malvados”. Dessa maneira, o historiador Luis Ferla realiza uma refinada análise sobre a patologização dos comportamentos anti-sociais, ou “desviados”, e sobre as articulações entre ciência e “defesa social”.
A rebeldia, o silêncio, as resistências jurídicas e a resignação podem ser armas poderosas contra a transformação do corpo humano em puro objeto de desvendamento científico, como afirmavam as teorias racistas da virada do século XX. Assim, o competente historiador compreende que a história do biodeterminismo é mais complexa e menos evidente do que um jogo de contrários.
Feios, sujos e malvados sob medida, interroga com maestria o mosaico de ações e teorias, de utopias sociais e de ambiguidades característico das diversas intervenções científicas sobre o corpo humano na capital paulista entre 1920 e 1945. Uma história difícil de ser explicada, pois seu desenho caminha do trabalho ao crime e vice-versa, envolvendo os esforços por identificar e tratar desde o homossexual até o doente mental, passando por epiléticos e portadores do que já se nomeou como sendo “loucura moral”. Um trabalho sobre as medidas criadas institucionalmente para regrar o corpo e a alma cuja leitura é essencial para pesquisadores de diversas áreas do conhecimento.
O livro representa uma importante contribuição à história social e cultural da São Paulo do entre - guerras, mas também à história da ciência e da medicina. Luis Ferla responde com maestria ao desafio colocado, e o resultado é uma obra instigante e consistente.

Sobre o autor: LUIS FERLA é professor de História Contemporânea na Universidade Federal Paulista (Unifesp)
Editora Alameda, 427 páginas, R$ 62 reais.




NAVEGAR É PRECISO

1. O lobby golpista aposta tudo em Hillary
No domingo o Los Angeles Times alegou que a derrubada do presidente Manuel (Mel) Zelaya é diferente exemplo de uma rebelião de novo tipo na luta da América Latina, no qual os líderes da esquerda desafiam o status quo e testam os limites da democracia. Afirmou ainda: naquela noite os militares de Honduras desligaram telefones para não ter de falar com autoridades dos EUA. Será? Na verdade até o truque de fingir que nada tem a ver com o golpe pode ser repetição de ações passadas dos EUA. A análise é de Argemiro Ferreira. > LEIA MAIS Internacional
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16088&boletim_id=570&componente_id=9731

2. Sob Obama, Assessores de Estado assumem o autoritarismo
Escrito por Luiz Eça
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3521/9/


3. Links filosóficos:
Platão - A Republica
Apologia de Sócrates
Fedão
Górgias
O Mito da Caverna
Parmênides
O sofista
O Banquete
http://www.4shared. com/file/ 23647208/ 9166bead/ Plato_-_O_ Banquete. html

4. Baader-Meinhof. Anpuh. História na FGV.
Quer saber o que estes temas têm em comum?Estão no Café história.Acesse a rede para saber as últimas novidades no universo da História.
Visite Cafe Historia em: http://cafehistoria.ning.com

5. As lacunas da cobertura da crise
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3508/49/

6. O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, o Simão Bacamarte do Judiciário, determinou que oito deputados de Alagoas voltassem a ocupar seus cargos, de onde foram afastados por corrupção.
http://blogdomello.blogspot.com/2009/07/gilmar-mendes-determina-que-corruptos.html

7. Contrainsurgência, a guerra do século 21
Pesquisadora destaca as sofisticadas táticas de dominação militar dos EUA para o continente e diz que está em curso uma espécie de Plano Condor 2
Vinicius Mansur
http://www3.brasildefato.com.br/v01/agencia/internacional/contra-insurgencia-a-guerra-do-seculo-21

8. Sarney, a personificação da classe dominante brasileira
Editorial ed. 333
http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/sarney-a-personificacao-da-classe-dominante-brasileira

9. O fechamento de jornais e o jornalismo público O fechamento dos jornais Tribuna da Imprensa e Gazeta Mercantil, além de agravar o problema do desemprego crônico de jornalistas, aumenta a também trágica concentração de informação na sociedade. A tragédia está em curso e não se escuta ainda uma proposta alternativa capaz de resolver uma das grandes dívidas acumuladas durante mais de século para com o povo brasileiro, a dívida informativo-cultural. O Brasil está em pior posição que o nível de leitura de jornal na Bolívia, país mais pobre da América do Sul. O artigo é de Beto Almeida. > LEIA MAIS

10. O jornalista Villas Boas Corrêa, com mais de 60 anos de reportagem política em jornais e na televisão, além de veterano da internet nos sites No. e Nominimo, pede licença para avisar que agora está em http://www.vbcorrea.com.br e o convida para fazer uma visita a seu blog.


NOTICIAS

1. MBA em Gestão e Produção Cultural (Rio)
Uma parceria entre o CPDOC e a EBAPE (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas) da FGV, o curso oferece um elenco de disciplinas especialmente voltado para a melhor preparação do profissional da área de cultura nos âmbitos público e privado, seja ele gestor de organizações, produtor cultural ou formulador de políticas para o setor. Ao final do curso, este profissional deverá estar melhor preparado para conduzir de forma sustentável projetos complexos, posicionando-os de forma a explorar as melhores oportunidades em cada área de atuação no setor. Esse profissional estará em melhor posição para formatar, promover e financiar seus projetos, bem como dar conta dos resultados para financiadores e para a sociedade.
Inscrições abertas Início: 14/09/2009 Horário: Segundas e Terças das 18h30 às 22h Mais informações em http://www.fgv.br/cpdoc/cursos, em http://www.fgv.br/mba-rio, ou pelo telefone 0800-285-5900

2. Pós-Graduação em Cinema Documentário (Rio)
Estão abertas as inscrições para a quarta edição carioca da Pós-Graduação em Cinema Documentário. Sob coordenação acadêmica de Eduardo Escorel, o programa combina as experiências dos professores do CPDOC e a de profissionais de cinema que, além de produzirem documentários, têm reflexão intelectual sobre o gênero. O curso fornece bases teórica e prática para os interessados em realização, pesquisa e reflexão na área de Cinema Documentário.
Inscrições abertas Início: 14/09/2009 Horário: Segundas e Terças das 18h30 às 22h Mais informações em http://www.fgv.br/cpdoc/cursos, em http://www.fgv.br/mba-rio, ou pelo telefone 0800-285-5900

3. Pós-Graduação em Cinema Documentário (São Paulo)
Estão abertas as inscrições para a segunda edição paulista da Pós-Graduação em Cinema Documentário, uma parceria entre o CPDOC/FGV e a Escola de Economia de São Paulo. Sob coordenação acadêmica de Eduardo Escorel, o programa combina as experiências dos professores do CPDOC e a de profissionais de cinema que, além de produzirem documentários, têm reflexão intelectual sobre o gênero. O curso fornece bases teórica e prática para os interessados em realização, pesquisa e reflexão na área de Cinema Documentário.
Inscrições abertas Início: 29/08/2009 Horário: Sábados, quinzenalmente, de 8h30 às 17h30 Mais informações em http://www.fgv.br/cpdoc/cursos, em http://www.fgv.br/mba-sp, ou pelo telefone 0800-772-2778.

4. Seleção para Mestrado Acadêmico e Doutorado em História, Política e Bens Culturais (Rio)
Foram lançados os editais de seleção para os programas de mestrado acadêmico e de doutorado em História, Política e Bens Culturais, do CPDOC/FGV. As inscrições vão de 19 de julho a 19 de outubro de 2009.
Inscrições: 19 de julho a 19 de outubro de 2009; Estrutura curricular dos cursos, editais e fichas de inscrição: http://www.fgv.br/cpdoc/cursos/pos

5. Seleção para o Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais (Rio)
Foi lançado o edital de seleção para o Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais, do CPDOC/FGV. As inscrições vão de 19 de julho a 19 de outubro de 2009.
Inscrições: 19 de julho a 19 de outubro de 2009; Estrutura curricular, edital e ficha de inscrição: http://www.fgv.br/cpdoc/cursos/bensculturais

6. Arte do Povo no Brasil dos séculos XX e XXI.
5ª palestra do ciclo Arte em dez tempos, promovido pela Casa de cultura Fiat.
Dia 30 de julho, as 19:30, Rua Jornalista Djalma Andrade, 1250, Belvedere, Belo Horizonte.
Entrada gratuita.








2 Comentários:

  • Às 3:03 PM , Blogger Guilherme disse...

    Quanto ao artigo do professor Gilson Caroni, tenho lido que um dos vieses da problemática da Petrobrás é a mudança da regra de distribuição dos royalties do óleo.
    Sendo isso, o que está em jogo é a mudança do pacto federativo, pois diminuiria os lucros do óleo, gás, do Pré-sal, dos estados onde o campo está - São Paulo e Rio, por exemplo - para direcioná-los para estados mais pobres da federação.

    Isso no campo interno, e no que diz respeito ao externo, penso que a questão é a possibilidade ou não das estrangeiras poderem explorar o óleo, num momento em que o Chávez tem dado trabalho e as intervenções no Oriente Médio não deram, oxalá não dê! -
    o resultado esperado, o Pré-sal aliviaria bastante.

    Teremos fôlego para segurar a pressão? O que você pensa dessas observações?

    Um abraço,
    Guilherme

     
  • Às 10:43 PM , Blogger Guilherme disse...

    Este comentário foi removido pelo autor.

     

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